Quem não nasceu numa família proficiente em pequenas intrigas, chantagens abertas, rachas inevitáveis e conciliações impossíveis não têm o estofo necessário para compreender organicamente o que é estado; menos ainda o que é política. 

Eu nunca teria entendido bem o quão nefasto é o “cálculo político”, se a ala desgraçada da família não nos tivesse privado por décadas dos biscoitos de natal.

No seio familiar de minha mãe, a estrela da ceia natalina era o biscoito ao mel. Três dias de preparo. Tarefas partilhadas. Sob cada uma, o peso da hierarquia. As matriarcas sabiam a receita e seus macetes. As novatas seguiam ordens. Havia as astutas, que se dispunham, ano a ano, a abraçar uma tarefa, na esperança de um dia entrever o todo. Havia as conformadas, gratas por apenas participar.

O controle dos ingredientes não era partilhado. Tampouco o do fogão. Chegada a ceia, cada ala da família começava a sondagem, “mas como é mesmo a receita?” E o silêncio reinava entre risadinhas com gosto de usufruto do poder. 

As malditas tias de minha mãe nunca lhe ensinaram a receita da iguaria que marcou a sua infância. O segredo do biscoito se convertia em obrigação de comparecimento, reverência e culpa. Não querer estar no antro daquelas Catarinas de Médici tinha um preço: ficar sem biscoito de natal. 

Desde a ruptura, típica de quase toda família de origem mediterrânea, todo dezembro a memória dos biscoitos ausentes amargava a ceia em nossa casa. Até, claro, alguém alcançar a idade da prudência e pensar, por despeito, num contra-ataque à altura.

Um dia fomos à Itália. Decidida a descobrir o segredo sem o qual permanecia vazia de tradição a ceia de nossa ala da família, verifiquei, estante a estante, as seções de culinária das livrarias. Havia variações e meu intuito era descobrir uma por uma.

Achei o primeiro. Descobri o segundo. Atônita com a imbecilidade da receita, resolvi tentá-la. Minha mãe empalideceu. Não deu um pingo de crédito. Ela tinha mais de 50 anos e nunca ousara descobrir por si mesma o caminho de volta ao seu passado, após o saudável afastamento daquele palácio de intrigas. Mas se lembrava do formato tradicional. 

Com a massa pronta, deu-me as pistas que lembrava sobre como cortá-la e torcê-la. Fazia duas décadas que eu, muito criança, vira os biscoitos pela última vez. Mas comecei a recordar. E fez-se a luz.

A ceia de natal de minha mãe voltou a ficar completa. O controle da receita jaz descentralizado. Nossa ala detém o segredo e o transmitirá às crianças sem toda aquela firula. Que vá depois cada um viver a sua vida sem ter, por isso, a memória decepada.

São essas recordações que realmente nos ensinam algo sobre a essência da política. Algo que um libertário, deslumbrado demais com sua presente teia de hipóteses bem amarradas, provavelmente nunca vai entender.


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