Sob o nome difuso de “povo”, há centelhas de imaginação viva, humor afiado, sensibilidade ímpar e inteligência arguta. Há quem se julgue dono da cultura, senhor da história, cultor das vontades. Quando se cruzam, agem como iluminados nascidos para dar ao mundo uma peculiar direção. Enquanto exercem a soberba de Fausto, o povo toca sua própria vida, muitas vezes mais consciente das tolices perenes do mundo do que se imagina por aí.  

É o caso de minha vizinha pianista.

Ela mora no quinto andar. Quando uso as escadas para descer do nono ao térreo, já no sétimo começo a escutar os exercícios. Diminuo o ritmo buscando reconhecer a peça. Quase nunca sei. O repertório para piano trazido à luz desde Mozart e Beethoven, desde a ascensão do instrumento moderno que substitui o cravo (barroco na essência e na aparência), supera em muito minha pequena cultura musical. Mas hoje reconheci. Foi na subida. 

Do terceiro andar, comecei a perceber o matiz romântico da melodia. Ela estudava uma parte do 2º concerto para piano de Rachmaninov, peça extremamente popular e palatável. Favorita constante dos amadores que escutam concertos. 

Uns e outros dizem que música clássica “é chata”. O aprendizado, quando alegre, marca a memória com sentimentos bons. Quem teve a chance de aprender a apreciar essa forma de arte, sente imenso prazer ao escutá-la. Sobretudo de surpresa, como fundo inesperado que surge ao longo de uma escadaria.

Ao alcançar o quinto, aproximei-me da porta e fiquei sentada ali, querendo descobrir se era aquela peça mesmo. Tive dúvidas. O tom estava diferente. Mas a melodia era semelhante. De repente, o som parou. Parecia que o relógio chamava a moradora, uma senhora sexagenária que trabalha como oficial de justiça, a obrigações pontuais. 

Lembrei das minhas e retomei as escadas. Mais uma vez muito segura de que a degradante mentalidade totalitária da esquerda internacional não conseguiu aniquilar a alta cultura por toda parte. Ela persiste bela e brilhante no coração daqueles que, por uma vida inteira, souberam guardá-la consigo.


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