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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Crônica do dia seguinte

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Ontem, estivera presente a maioria dos parentes, mas nenhum amigo. É normal. A família, produto da união do sangue de italianos, portugueses, espanhóis, africanos e nativos de Pindorama, mantém a tradição da Ceia de Natal em família — estritamente. Ontem foi dia de espantar a tristeza com o som estridente das gargalhadas; de correr atrás das crianças que, obstinadas, moviam cada objeto do seu lugar; de receber os parentes de longe e, com eles, comungar na alegria de saber que os rebentos da família crescem, expandem, fazem-se presentes na esfera da existência.

O autor daquele atemporal livro sapiencial do Cânon Sagrado diz que “até no riso terá dor o coração; e o fim da alegria é tristeza”. Isto é verdade. E os momentos máximos de alegria marcados no calendário atestam este júbilo que chora: nas reuniões familiares dá-se assim a dinâmica do espírito. O peru, as travessas de frango, a carne de porco, as bebidas, as saladas, as sobremesas… as prendas, os abraços, os pedidos de perdão… a obstinação do ressentimento dos Natais passados… O delicioso aroma de confeitaria não é puro, há sempre uma suspeita de desordem no conjunto jubiloso que perfaz as vésperas.

Uma marca característica dos nossos tempos é o barulho excessivo e, ipso facto, alienante; um barulho que dissolve a atenção com a mesma eficiência que o ácido sulfúrico corrói os obstáculos presos no ralo de um parque industrial. Desgraçadamente, porque “um abismo chama outro abismo”, há um pacto firmado no obscuro mundo das consciências juvenis a fim de elevar a barulheira infernal a picos enlouquecedores. É evidente que me refiro às motocicletas. Elas são um obstáculo significativo à compreensão das coisas que se ouve — mormente as piadas.

Em torno da mesa — todos plenamente satisfeitos pela comilança — se alguém, nos intervalos de uma partida de cartas, dispõe-se a alegrar os presentes com alguma piada, um causo assaz engraçado, ele terá um duplo trabalho. O primeiro será o de narrar a piada; o segundo — e ingrato — será o de ter de dizê-la novamente, visto que algum endemoninhado na rua passou a galope trepado numa motocicleta no exato momento em que se daria o desfecho da anedota.

Só quem viveu a insossa experiência de ter de pedir explicações sobre uma piada mal-ouvida poderá testemunhar a favor da tese de acusação contra o moleque motoqueiro. Não se pode rir de uma piada incompleta. O tempo passa. A meia-noite aproxima-se. O que há no Natal não é a percepção do desvanecimento da tradição; é a constatação da renovação daquela tensão sob a qual vivemos: é o Ser que chama os homens para si, para que uma vez nEle com Ele permaneçamos para sempre.

Mas não é assim que acontece — pelo menos não até a “hora mortis nostrae“. Ouvi de um Padre que o homem é um híbrido peculiar entre um anjo e um macaco. O clérigo, evidentemente, falava sobre a natureza humana à luz do Tomismo. Para o crente que não percebe a mancha do pecado original impregnada na própria natureza, é sempre difícil explicar que a posse completa da redenção só se dará efetivamente na outra vida; nesta nós fazemos só o que está ao nosso alcance. O resto, como quase tudo, vai como veio. Paciência.

À meia-noite toda expectativa desvanece; a esperança toma o seu lugar. Esperávamos por Ele, e eis que Ele vem; faz-se presente. É o mistério profundo, é o segredo insondável, é a manifestação do inefável. O mistério, longe da pregação daqueles que negam a porção transcendente da realidade, não é uma exceção, não é um ponto suspenso do entendimento humano à espera das respostas de tais ou quais novas tecnologias, desta ou daquela nova teoria. Não. O mistério é parte integrante da realidade: o Ser — pleno, completo, perfeito — decidira criar e amar. Muito mais até. Verbum caro factum est.

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