Coringa é um filme tão sofisticado que qualquer adolescente achará nele significado profundo, não importa que ideias mobilize. É um traço dos clássicos, bater na alma do leitor como um machado que irrompe a lenha. 

O desprezo pelos registros poéticos associados à cultura popular, como HQs, marca o pensamento de gente besta como Adorno, que não conseguiu sacar o barato do Jazz e queimou suas pestanas tentando mostrar que o troço não valia nada. 

Aí surgiram musicistas educados no cravo bem-temperado de Bach, apaixonaram-se por aquele registro, produziram beleza ali e todas as teses insensíveis do filósofo amargo acabaram reduzidas a objeto de TCC mediano.

O universo dos quadrinhos se inspira na imaginação mítica. Já se falou isso por aí. Ouvi de um amigo aficionado pela forma e não recordo a fonte. Mas guardei a ideia. Porque é bem sacada. 

A Mitologia mescla à história personalidades fantásticas capazes de traduzir aspectos, sentimentos e desejos permanentes na história interminável do mundo. Deuses, heróis, anti-heróis, homens e monstros.

Agamemnon é o rei dos gregos sedento de vencer Tróia, cidade que escapa à sua zona de influência. Dependendo de ventos que impulsionem a esquadra, consulta o oráculo para descobrir que exigem os deuses. O sacrifício da filha Ifigênia.

O herói inventa uma mentira para Clitemnestra, sua esposa, trazer a moça até ele. Simula que vai casá-la. No ato, leva a filha vestida de noiva ao altar da deusa e a imola, ele próprio, com uma faca. Bóreas, o vento, sopra e as naus partem rumo a Troia.

“Ambição hedionda”

Está cunhada no imaginário humano o exemplo máximo da ambição hedionda. Fingimento, deslealdade, crueldade, orgulho e frieza orbitam os gestos dessa personalidade desprezível.  

Esse é o tipo de retrato que Coringa oferece. 

O cerne da obra está na elaboração dramática; no exprimir uma personalidade hedionda por meio de um gestual preciso. O ator cria uma capa, no corpo, que imita a alma em seu anverso. Os eventos, a música, a luz, a sequência; tudo pretexto, figuração.

Mas de que tipo?

A estética da HQ reúne close; expressões faciais hiperbólicas; indumentária marcante; tics operando como refrão; desproporção entre discurso e imagem; exposição narrativa submetida ao corte da moldura.  

Todos esses elementos, o diretor os transpõe à tela. Cinema é corte, enquadramento, close, elaboração dramática, predomínio da imagem sobre o discurso… Então funciona. A plástica do cinema absorve a estética original das HQs. 

Dizem que o filme contraria as produções recentes sobre heróis dos quadrinhos. Claro. Porque explora o registro em sua essência, em vez de encaixá-lo no molde “filme de ação com meia dúzia de trama e milhares de efeitos especiais”.

A competência com que as cenas são produzidas está em sintonia com o brilhante desenho, rico em detalhes (gestos, expressões, tics, entonação, postura), da personalidade hedionda que o ator principal elabora através de seu corpo. Todo o corpo.

O resultado sobre o espectador é uma espécie de introdução à experiência literária profunda. Se tantas interpretações surgem, é porque o filme toca todo mundo. Destino da obra que paira acima do banal.

Clássicos são obras que sempre dizem algo a alguém. Obras infinitas; portanto, imortais.

Há quem não entenda porque crianças habituadas a ler quadrinhos tendam a cultivar literatura séria na vida adulta. O filme de Todd Phillips estrelado por Joaquin Phoenix é uma ótima chance de entender a razão. 


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1 Comments

  1. Vi uma entrevista da Bruna num canal católico e não guardei seu nome, só o do jornal…kkk. Inusitado, até… Esmeril… Ideia de afiar… Que deixa algo preciso….. Procurei, achei, e amei….
    Parabéns… E a definição dela…de frequentar o jornal menos que Platão? Perfeito…. Vou indicar pra geral….

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