CONVERSAR É PENSAR JUNTO | Ouvindo Estrelas

Paulo Sanchotene
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Personagens: Paulo, Roberto, e Elis
Cenário: na varanda, amigos conversam até que a esposa de um deles chega no local


– CENA –

[Paulo] ¿O que fazes aí parado na sacada? ¿Cansaste da festa?

[Roberto] ¡Ah! Sim, um pouco. Gosto de conversar, mas às vezes preciso parar. Ao invés de pegar o celular, resolvi tomar um pouco de ar aqui fora. Fico tão grudado no telefone que me esqueço como a noite é bela. Estava só admirando a lua e as estrelas.

[Paulo] Tens um vício de tela, realmente.

[Roberto] Chê, tenho; mas é mais do que isso. Eu perdia meu tempo com atlas, enciclopédias, jornais, e revistas quando criança. Só que agora tenho tudo isso na palma da mão. Atrapalha…

[Paulo] Resolveste ler as estrelas hoje…

[Roberto] ¡Hahahahaha! A gente sempre aprende algo ao contemplá-las. Há uma lição de humildade na observação da ordem do cosmos.

[Paulo] Nunca te vi como alguém que acreditasse em horóscopo.

[Roberto] Sou escorpiano, e escorpianos não crêem nesse tipo de bobagem.

[Paulo] ¡Hihihihihi! Mas falaste em ordem do cosmos nas estrelas.

[Roberto] ¡Sim! Não é a mesma coisa que horóscopo de jornal. Isso é besteira. Porém, ao olhar para a imensidão dos céus, o ser humano se dá conta de sua pequenez diante do universo. Nota que há coisas mais relevantes do que si mesmo. Ajuda a entender o que realmente importa.

[Paulo] ¿E o que importa?

[Roberto] ¡Hahaha! Que pergunta “simples”, chê…

[Paulo] Tu que trouxeste o assunto.

[Roberto] VèroBuenas, responder-te-ei da melhor maneira que posso.

[Paulo] Obrigado.

[Roberto] Há uma gradação de relevância, e sabê-la é uma virtude. A gente a desenvolve com o tempo. Vivemos tropeçando. Podemos perder a paciência no trânsito, por nada, só porque alguém pechou no retrovisor. Não vale brigar por isso, mas por vezes isso escapa.

[Paulo] Sou culpado disso.

[Roberto] Todos somos. Amadurecer é amar melhor, e estamos sempre aprendendo que há coisas mais relevantes do que aquelas que nos move de imediato. Ainda assim, não quer dizer que aquilo que nos move é irrelevante. Citei um espelho de trinta pilas, mas essa história vem com uma relação de fundo; como lidamos uns com os outros. ¿Percebes?

[Paulo] Sim. Outrem quebrou o espelho.

[Roberto] Essas relações começam em casa, mas ganham estofo no ambiente público. O ser humano é um animal comunitário, mas é diferente de todos os outros. Os demais não miram os astros.

[Paulo] Não entendi.

[Roberto] Já devo ter te dito isto. Falo disto o tempo todo. ¿Já notaste que ninguém ensina um cão a fazer cachorrices?

[Paulo] ¿Como assim?

[Roberto] ¿Concordas que “cachorrice” é aquilo que um cão faz?

[Paulo] Sim.

[Roberto] ¿E que “macaquice” é o que um macaco faz?

[Paulo] Claro.

[Roberto] ¿O que seria “humanice”?

[Paulo] ¿Essa palavra existe?

[Roberto] Posso tê-la inventado. Para agora, nos serve; mas é sempre bom checar no dicionário. Sempre se aprende algo. Vai que existe um termo mais apropriado, por exemplo.

[Paulo] Pois bem, te respondendo, pela lógica, “humanice” seria aquilo que o homem faz.

[Roberto] Não é.

[Paulo] ¿Não?

[Roberto] O homem pode agir contrário à sua natureza. Nenhum outro pode. Os outros animais não observam os corpos celestes pois já vivem em harmonia com o cosmos. O único que questiona o seu lugar no universo é o homem. O ser humano até faz “humanices”, mas nem tudo o que o homem faz é “humanice”.

[Paulo] Há “certo” e “errado”.

[Roberto] “Justo” e “injusto”, “falso” e “verdadeiro”… Tudo isso tem a ver com amar bem, e tudo isso não é só relevante individualmente. Há, principalmente, um peso social nisso. É aqui que política se torna importante.

[Paulo] Tu adoras política, mas passas dizendo que se dá muita bola para política. Teu filho há pouco estava comentando isso. Ele disse que o deixa louco. Falaste agora que política é importante. Estou com ele. Enlouqueço junto.  

[Roberto] ¡Hahahahaha! Mas é o que eu disse antes. Uma ordem de relevância não quer dizer que as coisas sejam desimportantes. Há apenas uma gradação. O erro está em se dar importância demais. É muito bom saber o que um prefeito pode ou não pode fazer. É natural prestar atenção nas eleições americanas. Só que é preciso equilibrar os interesses. Esse é o desafio. Por exemplo, por mais de mau gosto que seja, não dá para achar que o mundo está acabando por causa de uma propaganda da Jaguar.

[Paulo] Eu vi. Terrível. Destruíram a marca. Teria sido um baita patrocínio para o Janjapalooza. ¡Parecem querer vender autos para a Janja! Parceria perfeita.

[Roberto] ¡Hehehe! Por aí. A Janja é muito sem-noção. Só resta rir, mesmo.  Não se pode perder o sono com isso. Agora, voltando a responder a tua pergunta (eu não a esqueci), o motivo por que enlouqueceis é a distorção causada pelo fato de as coisas mais relevantes serem as maiores, mas o nosso escopo de ação ser reduzido.

[Paulo] ¿Como assim?

[Roberto] Há um limite no que se pode fazer. Nós não estamos nos grandes círculos do país ou do mundo. Nós nem estamos nos grandes círculos aqui da cidade, e ¡a cidade nem é grande! Aquilo que está fora do nosso alcance não é um problema direto nosso.

[Paulo] Mas nos afeta.

[Roberto] Sim, por isso que é preciso saber o que se passa. Porém, o que se passa não nos exime da ação. Nós ainda temos a obrigação de agir, e nosso dever é de agir bem e verdadeiramente.

[Paulo] Entendi. É isso o que seria “humanice”.

[Roberto] Exatamente. É diferente dessa loucura da Jaguar, por exemplo. Essa “religião” woke é praticada por quem quer agir mal, mas de consciência tranqüila. Não me espantaria se os donos da Jaguar estiverem despreocupados com eventuais prejuízos. Creio que estejam usando a montadora para justificar eventuais barbaridades que façam por lucro noutras companhias.

[Paulo] A Janja fez isso com o festival supostamente contra a fome e quando xingou o Elon Musk.

[Roberto] Pegaste bem.

[Paulo] ¿Reparaste que ambos esses casos só foram possíveis por dinheiro de sobra?

[Roberto] ¡Boa! É mesmo… Essa loucura tem ligação com o fato de haver dinheiro demais rodando por aí. E o pior é que isso afeta tudo. Até o futebol está insano. Afeta até – e principalmente, diria, – aqueles em quem o dinheiro não chega. Está uma farra. Isso vai estourar, e o estouro será gigante.

[Paulo] Chê, tu vais acabar me tirando o sono assim.

[Roberto] É por isso que é bom olhar para as estrelas. Elas são evidência de que o mundo não acabará. Não vale a pena perder o sono. Independentemente do que ocorra, a obrigação de agirmos como humanos segue.

[Elis aparece na varanda.]

[Elis] ¡Ah! Te achei. Estava te procurando.

[Roberto] Vim respirar um ar aqui fora. O Paulo acabou me encontrando primeiro e me fez companhia.

[Elis] As pessoas notaram vossas ausências.

[Paulo] Eu vim chamá-lo e acabei me perdendo na conversa.

[Elis] Sei bem como é. Só que o resto do pessoal também gostaria de participar.

[Roberto] Tudo bem. Estamos indo. Acho que o papo serviu para me reenergizar.

[Paulo] Ainda há muito o que falar. Ainda estou intrigado com esse conceito de “humanice”.

[Elis] ¡Bah! O papo estava filosófico. Essa idéia de “humanice” dele é realmente complexa. Já conversamos a respeito, e eu mesma ainda não peguei.

[Roberto] Estávamos apenas ouvindo as estrelas. Quiçá, te falte a ajuda delas. Amanhã, pegamos um vinho e sentamos aqui fora. ¿Que tal?  

[Paulo] Sem querer estragar o momento do casal, mas eu gostaria de participar. Eu trago as garrafas.

[Roberto]

[Elis] Entendi. A decisão tem que ser minha.

[Roberto] Eu não sei qual a resposta certa neste caso (morrerei aprendendo), mas por mim o Paulo é sempre bem-vindo.

[Elis] Por mim, também.

[Paulo] O Roberto se faz, mas ele sabe. ¡Hahaha! Combinado, então. Amanhã, venho com o vinho.

[Roberto] Ótimo. Resolvido isso, voltemos à festa. Ouvi dizer que os convivas nos aguardam.

– FIM –

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