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domingo, 5 dezembro, 2021

Contrastes

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

”Os netos e avós estavam encantados uns com os outros. A mulher, citadina de corpo e alma tinha reservas medrosas com a água de um filtro de barro”

Depois de ausente por mais de vinte anos, o homem moreno com cabelos e olhos dourados, de compleição forte, face e modos das pessoas decididas, voltava à casa paterna, levando a mulher e os filhos. Os membros da família iriam dar um mergulho nas origens do pai, um ambiente verde, florido, pacífico onde se ouviam as vozes delicadas dos elementos naturais, bem diferentes dos barulhos da metrópole. Os cheiros também eram suaves, não agressivos.

O carro alugado no aeroporto da capital levaria a família até a fazenda às margens do Rio de São Francisco. Antes de seguir viagem a parada obrigatória foi num supermercado. Água mineral, miojo, sucrilhos, achocolatados, biscoitos, batatas fritas em saquinhos, massas para lasanha, molhos enlatados e refrigerantes. Coisinhas essenciais, escolhidas pela mulher que imaginava não encontrar similares durante as semanas de aventura obrigatória.

Seriam três horas de viagem cruzando vilarejos cheios de história, religiosidade e arquitetura colonial. Passariam por campos, bosques, pontes, plantações extensivas e casinhas rústicas de pequenas propriedades abraçadas por bananeiras e árvores frutíferas limitando as roças de milho, feijão e mandioca. Ali, acolá, rostos risonhos de crianças que, com pequenas enxadas e pás tapavam buracos na estrada e acenavam esperando o reconhecimento numa gorjeta dos motoristas e carroceiros passantes.

A entrada da fazenda surgiu banhada de luz do sol ao entardecer e a cancela emoldurada pelo arco e flores da trepadeira Primavera, que o homem havia ajudado a plantar na infância fez com que os olhos marejassem. Parou o carro e disse para a mulher e para os filhos:

  • Olha que beleza! Ajudei meu pai a plantar aquelas flores. É emocionante vê-las adultas, tão belas… A nossa casa está na colina depois da curva. Mais alguns anos, meus filhos, vocês estarão tão belos e brilhantes como aquelas flores.
  • Corta essa, pai! Vou ser florzinha não…
  • Nem eu… – repetiu o gêmeo.

Todos riram e o pai engrenou a marcha para seguir vagaroso, buscando detalhes na vegetação que bordeava o acesso à casa, lá no topo da colina suave, com as paredes brancas, as madeiras da varanda, portas e janelas azuis e lá estavam mãe, pai, um vaqueiro de cabelos brancos, segurando as rédeas de um cavalo tão branco quanto seus cabelos, mais os cabelos do avô, da avó e de alguns empregados curiosos.

  • Mãe, pai… Quanta saudade!… Tudo tão lindo por aqui… Estes são os seus netos… Minha mulher…

A recepção foi tão calorosa, com tantos abraços e descontração, risos, admiração da mulher e dos filhos sobre detalhes antes nunca vistos, como a gangorra e o balanço sustentado por cordas nos galhos de uma mangueira, o belo e tranquilo cavalo branco, as galinhas, perus e guinés espalhadas ao redor, o jardim bem cuidado bordeando a varanda, as redes coloridas convidando para o abraço, embalo e descanso…


Os netos e avós estavam encantados uns com os outros. A mulher, citadina de corpo e alma tinha reservas medrosas com a água de um filtro de barro. Preferia a água mineral das garrafinhas plásticas. Diante dos alimentos manifestava receio: carnes secas, feijão cozido com charque, miúdos de porco, tripas bovinas, galinhas sangradas no mesmo dia, cozidas e envolvidas naquele molho escuro feito com o mesmo sangue… Inda bem que contava com alimentos processados e embalados em caixinhas coloridas.


Na manhã seguinte, a surpresa estava à mesa: pães e manteiga caseira, bolachinhas de araruta que derretiam na boca, ovos mexidos, coalhada, mel, leite, cuscuz feito com coco ralado, rodelas de inhame cozido, queijo e o café com cheiro embriagante. No almoço, mas descontraída escolheu as saladas, arroz, aqueles ovos com gemas quase vermelhas e o delicioso purê de mandioca recém-colhida, enquanto o homem e as crianças se deliciavam com o frango assado que ela recusou. Os doces em calda e ambrosia coroaram a festa gastronômica.


A mulher deitou-se numa das redes da varanda e os filhos a acompanharam na modorra ouvindo o canto dos passarinhos. O homem afastou-se pra se deitar na grama à sombra da velha cajazeira carregada de frutinhos amarelos com o sabor da infância. As vacas pastavam por ali aproveitando para ruminar os frutos que caiam. Algumas deitavam-se à sombra, que nem o homem, apenas para descansar, talvez meditativas e saudosas quem sabe de que, que nem o homem. As vacas com seus olhos grandes e amoráveis, contemplavam a paisagem e espantavam as moscas com o rabo. O homem também o fazia, com as mãos ou com o chapéu de palha, lembrando as faces dos amigos de infância e reproduzindo mentalmente os jogos, os ditos, os risos, o fascínio das descobertas.


Mais tarde, a família reunida na varanda ouvia o silêncio da noite em que as estrelas pareciam faróis guiando barcos nos caminhos do céu. O avô orientava as crianças para ver de perto, através de um telescópio, o cavalo de São Jorge na lua cheia. A avó proseava com a mulher, contando histórias vividas. Lá pelas tantas, os velhos e as crianças se recolheram; a mulher, que ainda lutava contra os medos, ficou na rede, abraçada ao marido, sentindo o silêncio como algo sufocante, insone até sentir-se abraçada por Morfeo.

Naquelas semanas ninguém ligou a televisão. Os celulares ficaram esquecidos. Nenhum daqueles seres apartados do mundo exterior tomou conhecimento da crise que abalou o mundo com a chegada do vírus vermelho. Minto! Duas pessoas souberam: o motorista que levava os tonéis de leite para a cooperativa deu a notícia ao patrão que fê-lo jurar ficar de bico calado para não espalhar a assombração, o medo. Que a vida seguisse o curso normal.

Deus cuidava da tudo para o bem de todos.
Dito e feito: sem máscaras, sem vacinas, sem álcool gel, sem o terror que açoitava as cidades, onde os viventes emprenhavam pelos ouvidos diante dos aparelhos de televisão ou grudados em celulares, privados dos relacionamentos sociais, isolados nas casas cercadas de muros, nos poucos metros de apartamentos ou nas pobres periferias. A notícia trágica chegou com a visita de um agente de saúde falando de máscaras e vacinas. O pai o chamou de lado, ofereceu um refresco de cajá e disse:

  • Olha meu amigo… – com um gesto amplo mostrou a paisagem circundante – … o que você vê?
  • Tudo bonito. A vida aqui é diferente.
  • Pois bem: você está cumprindo ordens. Estamos informados. Mas as ordens do governo no servem para nós. Dependemos das ordens e da justiça divina. Entendeu?

Na fazenda os meninos corriam, brincavam com as crianças dos colonos, montavam, comiam frutas colhidas nas árvores, tomavam leite com mel no curral todas as manhãs, imitavam o glu-glu dos perus, o mugido das vacas e caiam nos braços dos avós que não economizavam para fazê-los sentir com intensidade a alegria da liberdade.

O salão de refeições tinha amplas janelas para o pátio dos fundos e dali podia ser visto um pequeno chiqueiro suspenso, próprio para a quarentena dos leitões que seriam abatidos. Dia após dia os meninos levavam frutas e espigas para alimentar o simpático leitão isolado naquele chiqueiro, distante dos pais que perambulavam no chiqueiro grande, no convívio da vara. O porquinho ganhou até um nome: Guloso, que sempre grunhia como agradecendo os petiscos que lhe ofereciam. A morte do Guloso foi trágica. Na manhã, todos à mesa do café, ouviram o grunhido e os meninos correram à janela para ver o colono sangrando o porquinho pendurado numa corda amarrada a um galho. De cabeça pra baixo… Viram o sangue sendo recolhido numa bacia.

O bicho foi esquartejado, limpo, temperado e os pernis seguiram para o forno. Os meninos, nem a mulher foram capazes de experimentar a carne branca e cheirosa. Recusaram a farofa e mal tocaram nos alimentos servidos na refeição domingueira. Macambúzios ficaram até que o avô inventou um passeio a cavalo, para um banho de cachoeira dentro da mata, a uns três quilômetros de distância. O pai acompanhou os meninos.

A trilha na mata ofereceu a visão de macacos prego e num barranco viram os ninhos dos tucanos. Acolá floresciam orquídeas e bromélias já pertinho da cachoeira que se derramava de uma altura de três metros num lago de pedras antes da água cristalina seguir o curso natural.

Naqueles dias o homem que aspirava compartilhar com os gêmeos as melhores percepções para a reunião de um acervo cultural sadio, o homem… o homem essência surpreendeu-se com pensamentos que desafiavam seu desempenho na educação dos filhos, fundamentada em valores materiais distanciados da origem e mais ainda da visão de liberdade e interdependência dos semelhantes.

Ali na fazenda tudo estava encadeado, visível, palpável: o pai dependia da mãe que administrava a casa e dependia das empregadas para organizar a limpeza, arrumação, a cozinha… E todos estavam arrimados aos colonos que cuidavam das plantações, das colheitas, do processamento primário dos alimentos – milho, feijão, mandioca, porcos, vacas… – tudo atrelado, tudo sujeito à missão de vida das vacas e dos cavalos que auxiliavam no transporte de gente e víveres.

Bichos nobres e gentis, os cavalos! Pareciam entender e servir aos homens com satisfação, reconhecendo o trabalho como sua contribuição às pessoas que o abrigavam. Os enlaces sociais naquele mundo se desenvolviam em quase perfeita harmonia. Era o anverso da pandemia citadina, ambiente doentio e viciado na dependência dos aparelhos eletrônicos, cômodos, mas ignorantes da gênese, ignorantes do trabalho essencial para a manutenção da vida e saúde. Lá estava o circo onde os holofotes mostravam personagens doentios, drogados, cínicos e contraditórios, mentalmente abatidos ignorando os semelhantes, ignorando a mesma origem.

Quando se inteirou do terror que abatia as metrópoles, o homem sentiu medo, abraçou a mulher e os filhos refletindo na decisão que se desenhava para protegê-los do ambiente de guerra, insanidade, estresse e agonia que desabara como uma a mais entre as sucessivas crises engendradas para infectar e matar os inocentes. Os Herodes pareciam multiplicar-se investidos de maiores poderes para sugar a vida e a força das nações, comportamentos e valores fundamentais da estrutura social.
O homem decidiu que permanecer naquele ambiente era o melhor para a proteção e segurança. Preservar a vida. Foi quando perguntou à mulher:

  • Como anda seu estoque de água mineral, meu bem?
  • Esquece! A água do filtro de barro é gostosa e os chás que as meninas da cozinha preparam é delicioso, refrigerante.
  • Suporta que fiquemos mais tempo aqui?
  • Olha pra mim! Olha para os meninos! Olha você mesmo! – respondeu com um sorriso e olhar brilhante – Os medos cultivados desapareceram… A vida aqui parece ter-se grudado na pele, na alma. Bem diferente das contradições que ficam pra quem vive preso nas cidades.

Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança

— Ariano Suassuna

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