12 C
São Paulo
terça-feira, 28 junho, 2022

SANTO CONTO | De mãe para filha, uma história da bisa

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Conto baseado em um episódio da vida de Santa Francisca Romana

Sim, filha, eu já disse. Mamãe tem daquelas memórias especiais, eu lembro tudo o que já vivi, tudinho, desde que estava na barriga da sua avó! Ah, você quer ouvir de novo aquela história da bisa? Aquela outra vez? Tá bom, vamos lá. Mas, depois, já sabe, direto pra cama!

Eu era bem nenezinha, igual sua irmã. Estava tudo tranquilo, sua avó tinha acabado de trocar a minha fralda, e de repente saiu da parede aquele bicho feio, nojento, que fedia mais que o cocô da mamãe. É, ué, cocô! A fralda suja a senhorita acha que era do quê, hein? Toda vez acha graça…

Mas vamos lá. A coisa feia era um demônio que só eu podia ver – eu e a bisa, claro, mas a gente ainda chega lá, calma! Ele queria me atormentar, e conseguiu. Comecei a pedir socorro, mas você sabe, nenê pede socorro chorando, igual sua irmã faz quando tá com fome, fralda suja, etc., e nem sempre os adultos sabem o que é. Foi o caso. Sua avó achou que era fome, tentou me dar de mamar; eu não quis, é claro. Só o cheiro daquele bicharoco nojento dava ânsia de vômito! E o bicho apavorava de verdade, babava de ódio e ria aquela risada do inferno, imagina o meu desespero, ele dizia que ia me abocanhar, arrancar minha cabeça fora, comer meus bracinhos, me estraçalhar inteira, eu achava mesmo que ia morrer, um terror sem fim! Ia lá querer saber se mamar? Estava horrorizada, e chorava pedindo “Socorro! Socorro! Socorro!”, mas a sua avó só escutava o choro…

Pois é, tadinha, a pobre estava lá, fazendo o que podia, pegando no colo, ninando, cantando as músicas de Nossa Senhora pra tentar me acalmar. Mas acalmar o quê? Com aquele monstrengo ali me atentando… Era um choro só, e cada vez mais desesperado! Terror de morte, já disse! Pavor de ver o inferno bem ali na sua frente! Não, você não vai querer ver não, mocinha, é coisa de fazer gente morrer de susto!

E… Ah, sim! Cheguei naquela parte que você mais gosta, né, menina? É só falar em Nossa Senhora, que… Pois bem! Sua avó estava lá agoniada, sem saber mais o que fazer, e aí, como você bem adiantou – hum! –, lembrou de rezar pra Mãezinha do Céu. E olha… Quem diz que Ela não escuta? Escutou e mandou a bisa direto pra casa! Ela chegou bem naquela hora! Deu pra escutar ela subindo a escada e a voz dela vindo lá do fundo do corredor, reclamando do mau cheiro, ela também sentia o fedor do bicho, aquela nhaca nojenta! Sim, pela milésima vez, menina, demônio fede que a gente não aguenta, você não vai querer saber não!  

Bom, como eu ia dizendo… A bisa chegou já reclamando do fedor, e assim que o nojento escutou a voz dela, foi correndo se esconder atrás da cômoda – é, aquela lá do quarto –, só que deixou o rabo de fora, veja só! Ela foi entrando junto com o Arcanjo – sim, sim, o Anjo da Guarda da bisa era um Arcanjo, já cansei de falar! –, viram o rabo do tinhoso ali, saindo da cômoda, e deram aquele olhar um pro outro, aquele mesmo que a gente faz quando quer dizer “já entendi tudo”.

Aí a bisa já veio direto pra mim, eu chorando sem parar e cada vez mais apavorada, fez o Sinal da Cruz na minha testa e eu sosseguei na hora, fiquei dando aqueles risos de nenê que você adora na sua irmã. Então ela foi até a cômoda, agarrou o desgraçado pelo rabo, puxou, rodopiou no ar e chutou pra fora, pela janela. Menina, menina, o barulho que o bicho fez você não ia querer escutar nunca, era um choro doído, mas que dava medo! É, pois é, voz de demônio é feia, horrorosa, dá pavor na gente pra valer e você não vai querer saber como é não, nunca!

Mas vamos lá, que já tá quase na hora de ir pra cama! Pois bem, a bisa lidava lá com o monstro, e a sua avó achava que ela tinha ficado doida, girando o braço e chutando o ar, porque não conseguia enxergar demônio. Enquanto isso, o Arcanjo me pegou no colo, me ninou e levou pro berço – sim, aquele mesmo que foi seu e agora é da sua irmã –, me colocou lá. Pois é, imagina só o desespero da sua avó, que também não via o Arcanjo, me vendo flutuando ali no quarto…

E o resto já sabe, né? Já escutou essa história um milhão de vezes! Não vi mais nada, peguei no sono e logo estava sonhando com a Mãezinha do Céu, o Arcanjo e a bisa Francisca num jardim todo florido, com cheiro de rosas. E foi isso.

O quê? Mais? Nem mais, nem meio mais, mocinha! Agora é cama, que já passou da hora de dormir!


Este conteúdo é exclusivo para assinantes da Revista Esmeril. Assine e confira as matérias dessa edição e de todo nosso acervo.

- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

Finados

Finados   I Dos bisos conheci o Nona e a Nono, avós do pai, bem pouco conhecidos, na verdade, em seus mundos recolhidos, alçados quase...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img