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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Consciências tragadas: entrevista com Douglas Lobo

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

“As aulas do professor Olavo de Carvalho permitiram que eu aceitasse minha vocação de escritor”

Entre as gratas surpresas da Nova Literatura Brasileira está o romance Areia Movediça, de Douglas Lobo.

Lançado de maneira independente pela Amazon no ano

passado e editado em outubro deste ano pela Danúbio, sua história, de fundo autobiográfico, apresenta um protagonista em profunda crise espiritual e existencial, vivendo uma vida de mentiras na grande Sodoma brasileira, o Rio de Janeiro, em algo como um longo exame de consciência que transforma a narrativa em uma espécie de confissão pública.

E digo confissão porque o ambiente caótico do Rio envolve e arrebata o narrador – cuja consciência já havia sido bastante sequestrada no meio universitário em Fortaleza –, levando-o a uma cadeia de todo tipo de vícios e pecados, aos quais ele se entrega, entorpecido, mas sempre com algum incômodo – o resquício de consciência que pode vir a salvá-lo, sobretudo com a ajuda de um certo filósofo brasileiro boca suja…

Neste espaço carioca de eternos vaidade e hedonismo que retrata, Douglas soube pintar com maestria a fauna cosmopolita da esquerda progressista: a hipócrita ativista ambiental que trabalha para a maior estatal petrolífera do país, o intelectual de mesa de bar, os ninfomaníacos, o narcisista crônico, o capacho servil sem personalidade, além de, na figura do protagonista, o provinciano sempre deslocado e tentando se adequar ao grupo e ser por ele aceito, constantemente em guerra contra si mesmo e esse terreno pantanoso, essa areia movediça que lhe tenta tragar a consciência e engolir a identidade.

O livro também acaba se revelando um registo de nossa triste história política, com boa parte da narrativa focada no recente período de corrupção da Era PT, cujos eventos, inclusive, levam o protagonista a questionar suas escolhas de vida.

Narrativa ágil e que “prende” da primeira à última página, Areia Movediça constitui um item indispensável à sua lista de Black Week ou Natal. Para saber mais sobre o autor e a obra, confira a entrevista a seguir.   

 

Esmeril News: Douglas, você teve seu romance Areia Movediça publicado em outubro pela Danúbio Editora, mas tem outros dois romances publicados anteriormente. Fale um pouco sobre esses dois primeiros trabalhos.

Douglas Lobo: São dois romances autopublicados. O primeiro, lançado em 2015, chama-se Terra Amaldiçoada. É uma história de terror. Eu sempre gostei desse gênero, já que ele cria situações extremas, muito úteis para ilustrar a natureza humana.

Cheguei a enviar o original para editoras, mas nenhuma se interessou. Então, decidi publicar por conta própria. Acho que nenhum escritor devia deixar de publicar por falta de editora.

O segundo romance, publicado em 2018, intitula-se O Último Natal de um Homem Rico. É uma história policial, à Agatha Christie. Surgiu como roteiro de cinema, desenvolvido em um workshop, no período em que morei no Rio de Janeiro. Depois, já de volta a Fortaleza, transformei em romance.

Para este segundo livro, procurei algumas editoras, mas desta vez sem muita expectativa, devido à experiência anterior. Fui quase direto para autopublicação.

Esmeril News: Fale um pouco sobre a gênese do Areia Movediça. Ele tem muitos elementos autobiográficos, não?

Douglas Lobo: O livro começou a surgir em 2015, quando os acontecimentos políticos do Brasil começaram a afetar minha vida profissional. Eu era (e ainda sou) empregado de estatal. Me lembro de pensar, em meio à crise: “Em meu lugar, Balzac escreveria um romance…”

A crise profissional fez com que eu retomasse meu sonho adolescente de ser escritor. Foi daí que acelerei para terminar meu primeiro romance, já comentado (havia começado a escrevê-lo em 2013, mas não tinha avançado muito.)

Ao mesmo tempo, iniciei nessa época um processo de reavaliação de mina vida, personalidade e de meus valores. Pelos anos seguintes eu passaria por um processo de “dissolução alquímica”, em meio ao qual meu antigo “eu” foi pouco a pouco substituído por um novo (e, espero, melhor).

Nesse processo, as aulas do professor Olavo de Carvalho foram fundamentais. Elas me deram o caminho para uma formação intelectual sólida, sem a qual não é possível se tornar escritor.

Em 2020, o processo se completou. Eu estava assim pronto para escrever sobre ele.

A oportunidade surgiu em março, quando eclodiu a pandemia. Na época eu tentava escrever uma novela gótica, estilo O Médico e o Monstro, mas a história não avançava; ao mesmo tempo, o desejo de relatar minha experiência crescia.

Decidi então escrever Areia Movediça. Comecei em março; terminei a primeira versão em maio, e a segunda em julho. Publiquei de forma independente na Amazon, em setembro ou outubro. Mas aí veio a decepção: o algoritmo da plataforma beneficia autores que escrevem um mesmo tipo de livro. Areia Movediça é bem diferente de minhas obras anteriores e, por isso, o romance ficou no limbo, com pouquíssimos leitores.

Eu precisava então de editora. Enquanto escrevia Areia Movediça, o nome da Danúbio já tinha me surgido: o romance parecia se encaixar bem no catálogo. Entrei no site e enviei o original pelo formulário. Em pouco tempo tive retorno positivo do editor-proprietário, Diogo Fontana, tão generoso com novos escritores.

Esmeril News: Pegando carona em sua resposta anterior, diga: qual a importância de Olavo de Carvalho em sua vida?

Douglas Lobo: As aulas do professor Olavo de Carvalho permitiram que eu aceitasse minha vocação de escritor. “Aceitasse” é o termo, porque desde os dezessete anos eu queria ser ficcionista. Mas vocação exige cultivo e responsabilidade, e eu, como a maioria dos jovens, preferi fugir disso.

Isso mudou com o Curso Online de Filosofia (COF). No primeiro ano, em que o aluno educa o imaginário, eu voltei a ler ficção (por anos eu só li ensaios, biografias e livros de estudo.) Recordei-me então do quanto eu gostava de histórias.

Ao longo dos anos, à medida que me aprofundava nas aulas do COF, eu retomei a disciplina de escrita. Também passei a ler de forma mais organizada. E, principalmente, livrei-me de várias preconcepções disseminadas na sociedade brasileira e que prejudicam severamente o exercício da vocação.

Esmeril News: Um aspecto que me chamou a atenção em seu livro é foco narrativo, com um narrador que narra para si mesmo, como diante de um espelho, em um tipo de exame de consciência que se torna uma confissão pública. Gostaria que comentasse sobre isso.

Douglas Lobo: Trata-se da segunda pessoa narrativa. Conheci-a ao ler o romance Bright Lights, Big City (1985), do escritor americano Jay McInerney.

É curioso você mencionar espelho: no filme baseado no livro e lançado em 1988, o protagonista aparece em uma das primeiras cenas à frente de um, com a narrativa em segunda pessoa em voice-over.

Uma das vantagens da segunda pessoa narrativa é que torna o leitor um participante da história. Ela facilita assim a experiência imersiva.

Outra vantagem é que se tem o intimismo da primeira pessoa e a objetividade da terceira, sem o exagero de nenhuma delas. Esse aspecto foi muito útil para Areia Movediça. Concebi a obra como uma tentativa de conciliar a narrativa íntima e psicológica do Modernismo com o caráter social do romance realista do século XIX.  Eu precisava entrar na cabeça do protagonista, mas sem perder de vista as engrenagens sociais em torno dele.

Esmeril News: Outro aspecto interessante em seu romance são os personagens, que parecem ser um retrato fidedigno da fauna cosmopolita progressista. Fale um pouco sobre esses personagens. São baseados em pessoas que você conheceu e com quem conviveu?

Douglas Lobo: Todas as personagens, sejam progressistas, sejam conservadoras, sejam apolíticas, são baseadas em pessoas com quem convivi. No entanto, no processo de composição, eu as fundi, e as recriei. Afinal, a personagem de ficção deve ser mais definida do que o homem comum; descrever alguém que existe e lhe dar um nome fictício não é suficiente.

Agora, algumas poucas personagens são bastante parecidas com as pessoas que as inspiraram. Neste caso, fiz questão de que se reconhecessem na história…

Esmeril News: Em sua história, você expõe um contraste Rio de Janeiro x Fortaleza, e a capital cearense ganha certas cores líricas, mas soa como algo que não existe mais, haja vista o atual cenário daquela cidade, tomada pelo crime organizado. Mesmo assim, esse contraste parece que imprimiu algo importante sobre sua personalidade, para além de sua obra. Gostaria que comentasse sobre isso.

Douglas Lobo: A Fortaleza em que cresci não existe mais, como realidade. Mas ainda povoa minha memória afetiva. E era a essa nostalgia que eu me apegava no período em que morei no Rio de Janeiro. Se você reparar, em nenhum momento de Areia Movediça temos a capital cearense real; só aquela filtrada pelas lembranças do protagonista. É uma visão idealizada: a âncora em que a personagem se firma para manter algum senso de identidade.

Esmeril News: Você já está com outros escritos e/ou projetos em andamento? Pode falar sobre algum deles?

Douglas Lobo: Escrevi um roteiro ambientado no mundo do cinema. Não consegui encontrar produtor, então vou usá-lo como base para um romance. Será ambientado em Fortaleza — não a da minha memória afetiva, mas a real. O roteiro é só uma matriz, então estou em processo de recriar os personagens, sem muito apego ao texto original. A trama não funciona como romance, então terei que recriá-la também; mas por enquanto só tenho ideias vagas de como a história vai se desenrolar.


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1 COMENTÁRIO

  1. Gostei desse romance e foi muito bacana ler a entrevista do autor. De fato, é um texto confessional mas que talvez reflita questões universais de toda uma geração.

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