sexta-feira 19, agosto 2022
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BRUNA TORLAY丨O cruel destino de um militante chavista

Bruna Torlay
Bruna Torlay
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.

É evidente que Chaves não selou o destino da Venezuela sem apoio inicial de uma camada vasta do povo. Quando Maduro ascende ao poder, o exército já estava assimilado ao governo e a teia de fraudes eleitorais, funcionando plenamente. Que houvesse resistência, desde o início, à máquina de propaganda furada chavista, claro que havia. Mas a adesão ao líder existia. A tensão entre venezuelanos conscientes da armadilha chavista e a militância eufórica que o apoiou cegamente durante anos surge na forma da querela entre dois irmãos no último romance de Diogo Fontana.

Este ensaio, contudo, não é uma resenha da obra Se houvesse um homem justo na cidade. Trata-se de uma breve reflexão sobre o destino de um militante chavista em particular, fato que me levou a pensar sobre o juízo comum segundo o qual “militantes são necessários”. Minha pergunta é por que militantes se tornaram necessários no jogo político, e o quanto isso fere a humanidade daqueles que se prestam a esse papel.

O militante chavista convicto, coadjuvante no romance de Diogo Fontana, morre pela boca. Seu irmão, protagonista e narrador em primeira pessoa, começa o relato em Pacaraima, Roraima, perdido dentro de suas memórias e absorto em perplexidade após o abandono da pátria que rememora, enquanto amarra o sentido de sua vida à degradação de sua família, arruinada como tantas outras na derrocada da Venezuela. 

Por que ele morre pela boca? Porque prematuramente e em razão da falta de medicamentos para controle de doenças comuns, numa cidadezinha de interior esquecida e desestruturada, completamente provinciana na acepção negativa do termo. A morte prematura foi consequência da ruína econômica da Venezuela, tendo por efeito colateral aquele cenário desastroso de não haver papel higiênico em prateleiras de mercados, por exemplo. Outro efeito colateral foi o número elevado de pessoas mortas por falta de controle de doenças simples. O militante chavista, que defendeu o socialismo e o chavismo, e até Maduro, mesmo diante de prateleiras vazias e farmácias sem préstimo, terminou a vida num saco de lixo jogado sobre uma cova rasa, empilhado sobre outros com destino semelhante. 

Embora o protagonista do romance seja o nó da obra, é pelo irmão coadjuvante que me interesso. Porque eu não acato com tranquilidade o juízo comum sobre a “necessidade dos militantes”. Imagine você acabar numa vala rasa dentro um saco de lixo por defender ardorosamente uma meia dúzia de ideias fixas (ideologias quadradas), as quais funcionam como instrumento de controle psicológico de massas (acepção diabólica impregnada no vocabulário político, uma vez que perde-se, na expressão, a individualidade essencial do ser-humano desaparece)? Um caso concreto de ruína dessa espécie nos obriga a questionar o que é um militante e porque sua existência é tida por “necessária”.

O militante é alguém que fez da sua liberdade de consciência um instrumento político a serviço de um grupo em disputa pelo poder. Ao transformar sua liberdade de consciência em instrumento, ele evidentemente a esvazia de sentido. Do ponto de vista moral, já não possui vontade livre, e acaba se tornando um autômato cuja fonte de energia é um quadro ideológico fixo que repete mecanicamente. Essa repetição, feita por um número elevado de pessoas, produz na sociedade um exército de autômatos que se auto-programaram para defender esquemas conceituais, sem preocupação em confrontá-los com a realidade. 

O militante é, por fim, a pessoa que separou na própria mente o conjunto de conceitos que repete de forma automática da realidade que o cerca. É, portanto, o ser-humano que desligou a sua inteligência e reduziu a racionalidade a instrumento mecânico. Para grupos que entendem a disputa de poder como meta máxima, e que precisam de um suporte suficientemente cego às atrocidades que praticam “por necessidade” para alcançar o poder ou nele conservar-se – para os pragmáticos de toda espécie – militantes são realmente necessários. Constituem uma espécie de exército involuntário que obedece ordens de forma automática e sistematicamente.

Encerro com a pergunta que me despertou essa manhã: militantes são pessoas dignas de admiração? São tipos humanos capazes de honrar a especificidade do homem no mundo? São realmente necessários à ordem política? Às três, respondo que não. Pela razão evidente que abdicar da humanidade e se fazer cão de guarda é renunciar ao espírito, o que em nenhuma hipótese pode dar em boa coisa.

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7 COMENTÁRIOS

  1. Penso que na imagem do militante que a autora expõe no texto, estão imbricadas muitos dos aspectos mais associados ao conceito de torcida. E daquele tipo mais deletério de torcida, a torcida organizada, virulenta, violenta, irracional e freqüentemente criminosa. Talvez já tenha havido um tipo de militância mais “raiz”, mais “limpa”, (assim como também já houve torcidas). Entretanto, hoje o espírito de torcida irracional e um sebastianismo que é mais característica dos latinos que de outros povos, contribuem muito para transformar as militâncias de hoje em nada mais que versões século XXI dos camisas marrons do Adolfo Bigodinho, que aterrorizaram a Alemanha de um século atrás.

  2. Interessante a análise, Bruna. A pulga que ainda fica na minha orelha: até que ponto o militante é consciente de sua condição? Claro, todo homem é racional e capaz de tomar as próprias decisões, porém numa sociedade massificada grande parte se deixa levar pelo “exército de autômatos”. Na minha percepção, muitos deles não percebem seu papel inumano e, a depender da capacidade cognitiva, agem com absoluta certeza de que por vontade própria.

  3. O militante é o soldado raso da política. O problema não está na militância, mas no Estado Maior. Não se pode julgar o militante pela régua dos líderes.

    Não é pelo apoio do militante que Chavez cresceu. A miltância só foi possível porque uma parcela importante da elite venezuelana abraçou o Chávez.

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