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domingo, 19 setembro, 2021

As torres

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Crônica de uma manhã longínqua

Eu tinha sete anos, mas conservo na memória uma lembrança assaz viva daquela manhã de 11 de setembro de 2001. Sentado sobre o tapete da enorme sala da casa de minha avó, eu concentrava-me com afinco em dispor dezenas de fitas K7 em fileiras com o objetivo de, com a pontinha do indicador, desencadear o efeito dominó hipnotizante.

Os carretéis das fitas magnéticas guardavam, em imagens toscas e ziguezagueantes, momentos de importância permanente, como os registros do meu batizado. Os presentes na sala se entretinham com qualquer coisa na tevê, só desviando a atenção da enorme Philco de tubo para me censurar em função do barulho. Para mim, no entanto, o poder de provocar aquele maravilhoso efeito cascata era mais satisfatório do que qualquer coisa na tevê.

Tudo acontecia muito rápido. Era muito barulho por pouco. Com um toque, batizados, formaturas, aniversários, ceias de Natal, passeios ao zoológico, pescadas, missas e quermesses iam ao chão. Tudo planejado por mim. Subitamente, porém, quando eu principiara a restituir as fitas às suas posições de peças de dominó, ouvi um chamado proveniente da tevê que arrancou dos presentes exclamações pavorosas.

Era a jornalista que narrava, com ar de assombro, o que ouvíamos como “atentado terrorista às torres gêmeas em Nova York“. As torres tinham ido ao chão, desabaram, implodiram; os dedinhos que as empurraram foram dois enormes Boeings. Lembro ainda que só atinei para a significância do acontecido no momento em que ouvi, apreensivo, as exclamações daqueles que estavam sentados no sofá.

“Meus Deus!”, “O que é isso?!”, “É o fim do mundo!”, “Não é possível!”, “Foram os terroristas, os islâmicos!”… “É a Parusia!”. Parecia que o mundo chegara ao seu termo naquele início do século XXI. Voltei os olhos para o tapete e comecei a chorar: gritei impropérios malcriados contra um tio que chutara, sem querer, um dos objetos do meu projeto infantil.

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