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quinta-feira, 26 maio, 2022

ACERTO DE VISTA丨Prima de tutto mangiare e doppo filosofare

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

Discordo! Mesmo quem está faminto, filosofa.   No mínimo afloram alguns porquês e a questão:   como fazer pra encher a pança? Opinião do gaiato marinheiro de primeira viagem à parte, a frase titular é uma variação do latim: Primum vivere deinde philosophari (Primeiro viver depois filosofar); o dramaturgo alemão Bertold Brecht também a usou com outra conotação em sua “Opera dos três vinténs”: “Prima viene il mangiare, poi viene la morale”. 

E a barca dos pensadores singra os mares de ideias virtuosas, observando acima o universo complexo dos céus. Para entender a  relação dos homens com a natureza, para chegar ao “nosce te ipsum”, conhecimento de si mesmo, origens, missão, nascimento, morte e percepções tão complicadas como magnitude insondável do infinito. As distrações proporcionadas pelos cinco sentidos, minimizam o encontro mais íntimo com a essência, o espírito que mantém a vitalidade. O diálogo com esta parte essencial afasta-se do contato com a graça, contato com a poderosa força interior, contato mesmo com a energia celular, a mesma energia universal. A possibilidade técnica de visualizar uma célula humana é fascinante. Nos deparamos com um panorama idêntico a uma galáxia. 

Visitamos percepções, teorias, crenças, de dezenas de escolas, ilhas mentais do pensamento de homens: desde o século V a.C., Tales de Mileto que antecedeu Sócrates, Platão, Aristóteles, mais tarde Agostinho, Aquino e tantos outros, desenvolveram as mais importantes e permanentes cogitações sobre as origens da vida em suas múltiplas formas. Hoje proliferam os “pitacos” mais propensos ao materialismo de sábios ignorantes, propensos a bagunçar os fundamentos das culturas e civilizações   multimilenares.   Civilização para uns e sofisticação da barbárie satanista para outros. Certo é que, sem exagero, os “modernos filósofos” – que ignoram a essência espiritual – contribuem para bagunçar o coreto onde se executam hinos para arrair, focar a atenção dos grupos sociais. São instrumentos desafinados que revolucionam as frágeis instituições mantidas em obediência aos valores que nos conduzem pelos caminhos da evolução.

Pensadores, inventores, cérebros, almas, corações flutuando no espaço infinito, ambiente da consciência mental, visitando ilhas de pensamento exuberante, virtuoso, motivador; e outras ilhas menos atrativas para o ponto de vista dos que almejam experimentar o suco de frutos eternos, preferindo a liberdade espiritual; ilhas cobertas por palmeiras inclinadas, agitadas por ventos tempestuosos, preferidas por homens pretenciosos e brutais como alguns dos deuses do Olimpo ou do Panteão romano ou aquele de Karnak, entre outros do Antigo Egito construídos pelos faraós para cultuar o deus Amon.

No grande mar do espaço cósmico, as ideias, somadas em arquipélagos   interferem na mente dos homens, provocando um jogo insano e cruel que afeta todas as formas de vida, que afeta o Planeta e além. O exercício que desperta conceitos variados incluídos nas obras literárias, nas belas artes e nas artimanhas dos poderosos, alguns lúcidos, outros satânicos, influi na construção   das instituições de estados pretensiosamente modernos em sua autodescrição, mas obscuros, confusos, retrógrados até na concepção dos nacionais mantidos na ignorância ou enganados pela ciência dos eugenistas. Um ambiente distante em milênios, bem diferente daquele em que brotaram os pensamentos e proposições de ordenamento para a convivência social virtuosa e obediente às leis universais.

De passagem por países da África, Europa e América do Sul em meados do século passado, me deparei com a condição humana relacionada ao saber e liberdades essenciais, comunicação, trabalho, justiça, família, religiões, justiça, valores, virtudes… Nem percebia a regência da filosofia clássica sobre meus pobres pensamentos, que apenas lembravam de Luiz Gonzaga cantando “Ave Maria Mãe de Deus Jesus / Nos dê força e coragem / Pra carregar a nossa cruz”. Ou então os valores, o respeito humano decadente: “Tá tudo errado comadre… / Uma mulher com dois maridos / Moça com três namorados”. Logo a calmaria: “Coisa mais bela nesse mundo não existe / Do que ouvir um galo triste no sertão que faz luar / Parece até que a alma da lua que descansa / Escondida na garganta desse galo a soluçar / Não há, ó gente, ó não / Luar como esse do sertão”. Beleza pura no sentimento anímico integrado à totalidade, integrado aos propósitos do Criador.

Voltava à minha ilha cultural sem saber que visitaria outras ilhas, cujas praias estavam cobertas por pedrinhas coloridas, atraentes, de um modernismo pensamentoso que pretendia apagar o brilho das pérolas reunidas pelos clássicos antigos. Naquele tempo nem sabia que pensando, fazendo comparações e imaginando soluções estava filosofando… Em toda parte estavam os poemas, pintura, música, arquitetura, comportamentos, religiosidade, cartas, ensaios, confissões, meditações, reflexões e diálogos remetendo aos voos de liberdade e à alegria da reflexão, tão semelhantes como se estivessem espelhadas em cada país, similares, salvo características específicas.

Estava buscando entender o mundo em seus aspectos culturais diferenciados, embora habitado por semelhantes que buscavam transformar o que a natureza oferecia em elementos dedicados ao bem-estar, ao conforto que variava: alguns cantavam, comemoravam com os familiares ou em festas religiosas. Teto, trabalho e alimento era o suficiente. Em toda parte, vi pobres famintos e pobres com vestes asseadas, pessoas gentis. Pessoas tocando o transcendente, rezando e agradecendo a graça do pão de cada dia.

Também vi os palácios, monumentos e museus que exibiam a cultura em forma de arte, exaltando detalhes da beleza dos homens e da natureza, bem como a miséria perpassando os ciclos históricos numa dolorosa sinfonia inacabada. Nos conglomerados urbanos a luz das estrelas no céu noturno é invisível, logo ignorada.   No meio rural a noite é um momento de contemplação da grandeza do Universo, da ordem do Criador. Momento de conforto, oração e toque na magnitude da essência que alimenta a alma.  

A realidade comum carecia de uma explicação coerente. Estaria na origem de tudo? Em toda parte, os humanos se relacionavam com Deus e deuses. Na antiguidade segundo a história descrita pelos investigadores, hindus, taoístas, budistas, como no antigo Egito, ou na Grécia, eram diversos os deuses. Mas na Acrópole, em Atenas, havia um altar reservado para o “Deus Desconhecido”, um Deus mais poderoso que Zeus, Poseidon, Hades, Hermes, Ares ou Afrodite, regentes de elementos específicos: chuva, ventos, sol e tantos outros que afetavam as atividades dos homens. 

A filosofia atual, focada no indivíduo e relações palpáveis entre os semelhantes está ancorada às realidades concretas do relacionamento social. O ambiente proporcionado por governantes carentes de fé é o ambiente do medo e incerteza em que os estados, corporações e instituições pervertidas pela condução de homens que se propõem a ocupar o espaço como deuses, subvertem todos os valores transcendentais que mobilizam o desenvolvimento espiritual que dignifica a construção das nações.

Quando o café era o principal produto de exportação do Império brasileiro e a era industrial começava a ganhar corpo na Inglaterra, Foustel de Coulanges publicou seu livro Le Cité Antique (1864), uma obra que discorre sobre as origens do direito, um verdadeiro romance histórico em que a simbologia e crenças dos antepassados, Grécia, Roma, aparecem como bocados suculentos das ideias atuais. A religião e o culto são expostos como colunas de sustentação das instituições gregas e romanas. Muitas daquelas instituições estão vigentes com nova roupagem.  

Desenho de rosto de pessoa

Descrição gerada automaticamente com confiança média
Imagem de uma célula fotografada com a avançada tecnologia de microscópios eletrônicos.   Vejo uma “catedral” criada pela Inteligência Divina!

A religião foi a base da constituição da família: 

“Há três coisas que, desde as mais antigas eras, encontram-se fundadas e solidamente estabelecidas nas sociedades grega e itálica: a religião doméstica, a família, o direito de propriedade; três coisas que tiveram entre si, na origem, uma relação evidente, e que parecem terem sido inseparáveis. A ideia de propriedade privada fazia parte da própria religião. Cada família tinha seu lar e seus antepassados. Esses deuses não podiam ser adorados senão por ela, e não protegiam senão a ela; eram sua propriedade exclusiva. Ora, entre esses deuses e o solo, os homens das épocas mais antigas divisavam uma relação misteriosa.”

A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges

Os deuses romanos, como os gregos, eram ciumentos, impulsivos, vingativos, procriavam com humanos, castigavam e premiavam. Agiam e se apresentavam com as virtudes e vícios característicos dos humanos que, para obter as benesses divinas promoviam cerimônias e banquetes públicos de purificação em homenagem aos deuses locais. Cada casa cultuava os “lares”, antepassados familiares enterrados na passagem entre a casa e a rua, venerados como deuses da família, cujos membros conservavam uma lâmpada acesa no átrio e pediam a proteção de seus mortos, parando diante dos túmulos à entrada e saída do lar, casa.  

Os sons dos tempos da Grécia de Platão, Aristóteles… Os sons da Roma dos   tempos de Cícero continuam chegando aos nossos ouvidos. Nos vocábulos que   as gentes utilizam, persistem as mesmas crenças, os mesmos conhecimentos, os mesmos procedimentos éticos, morais ou amorais, as mesmas interrogações e emoções que foram sintetizadas por aqueles sábios. Exprimimos como hodiernos os pensamentos que dominavam a mente de gregos, romanos. Tudo quanto está presente nas lendas, no cancioneiro, vem do tempo em que “as galinhas tinham dentes”. Nos ritos, nos comportamentos, nas cerimônias tradicionais, na alta literatura, em todas as manifestações humanas estão os traços do que foi plantado há milênios e persiste como herança mental válida, como obra inconclusa.

O tempo passa. As boas ideias, valores, costumes, belas obras, permanecem marcando os passos de homens espiritualmente superiores. As famílias ganharam o tamanho de tribos, que logo se constituíram em cidades. As cidades cresceram ocupando territórios que os homens denominaram nações. Mas as formas de governo foram modificadas de tal modo que os mandatários de hoje priorizam e mobilizam o estado contra as populações, instituindo leis bizarras e persecutórias, aéticas, interpretações  imorais poluindo o antigo direito privado. E assim reinam afastados do princípio superior que lhes proporcionou a autoridade de governantes de homens, que nunca lhes foi passada a autoridade para governar espíritos, maculando o espaço das liberdades fundamentais; nem mesmo diante de revoluções e transformações sociais, supostos frutos de inteligências amadurecidas.

A Grécia Antiga era um importante centro de comércio, e uma potência marítima. Os mais destacados buscadores de verdades baixaram em várias praias e foram recolhendo pedrinhas de pensamentos brilhantes, outras bonitinhas embora meio embaçadas. Divulgavam seus achados quando subiam numa pedra ou num caixote nas feiras ou nas praças públicas e faziam seus discursos, expunham seus pensamentos, contavam histórias das coisas vistas, histórias dos fatos vividos, arrumando o entendimento das gentes e arrebanhando seguidores… Tudo para dar asas à imaginação e harmonizar a comunicação, instalar nas mentes virtudes que se impõem até hoje… 

Até hoje?… Quando parece que   os vícios estão em alta e as virtudes esquecidas, arquivadas, emboloradas como os valores familiares, a justiça… Nos subterrâneos desse mundo impalpável subsiste o espírito, elemento intocado e indomável que resiste no vale de lágrimas na qualidade de motor da construção humana gentil, amorosa, essencial. Resiste nos campos da guerra eterna, verso e anverso da fé, formando exércitos do amor a Deus nas batalhas cotidianas contra os que seguem os exércitos satanistas.

– Venha cá! Me diga uma coisa: o que é Verdade diante deste areal de verdades? Os gregos reuniram as pedrinhas para explicar a cosmovisão… E reunindo as pedrinhas de pensamentos, concepções, ideias em grupos diversos, criaram sílabas; unindo as sílabas, escolas diversas construíram as palavras, elementos para a expressão dos fenômenos de codificação superiores aos ideogramas das pedrinhas reunidas em seus contatos com outras culturas. A Ágora hodierna, a praça da feira ampliou-se de tal modo que chegamos à zoeira universal… Toda gente filosofando pela internet ao mesmo tempo sobre virtudes e vícios… Heresias e guerras. Nem os novos cruzados em defesa da fé parecem estar unidos.

– Uai! É mesmo. Os arranha céus não lembram a Torre de Babel? E as práticas do prazer ilimitado não lembra Sodoma e Gamorra? Abraão nem poude encontras “dez pessoas justas” numa população de dez mil? Agora piorou! Tô lembrando do cínico Diógenes, andando com uma lâmpada, (iluminando a escuridão dos dias?) procurando um homem feliz, um homem vivendo em harmonia com sua verdade natural.  

– Eita pêga! As mentiras naturais continuam superando a verdade natural, a essência eterna. A Sodoma com bilhões de habitantes está parada no tempo! O Caminho, a Verdade e a Vida brilham, mas a cegueira   dos homens causa a estupefação dos que pretendem alcançar o cume do saber.  

– Basta! Vamos refrescar os pés na beira daquele riacho.

– Você pensa que a água lava tudo?   “Você notou que eu estou tão diferente (…) A água lava, lava, lava tudo /A água só não lava a língua dessa gente!” Parece que nem lava os pés da alma para livrar-se deste atoleiro. Bem, hora de comer que “barriga cheia pensa melhor.”

– Boa! Tamo junto, viu… Mesmo tomando injeção e usando máscara. Inté mais ver! 

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