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terça-feira, 19 outubro, 2021

ACERTO DE VISTA丨O Velho Oeste e seus pacificadores

Revista Mensal
Marco Frenette
A ordem das coisas: amor, família, trabalho, amigos, golfe, literatura, cinema e natação. Nomes permanentes em meu imaginário: Tom Waits, Roger Scruton, The Clash, Fat Boy Slim, Marianne Faithfull, Van Gogh, Pedro Nava e John Fante.

As armas de fogo exercem fascínio sobre as pessoas por um motivo muito simples: todos sabem, de modo racional ou instintivo, que elas são os únicos equalizadores de força. Um projétil disparado por uma senhora pequena e frágil fará o mesmo estrago daquele disparado por um homem grande e forte. Arma não discrimina ninguém, e o fogo queima para além das convicções.

O fascínio das armas é ligado ao instinto de autodefesa e ao prazer comum, embora pouco assumido, de ver vagabundo se dar mal. São por esses dois motivos que incontáveis filmes, séries e HQs fazem sucesso mundial e geram novas fortunas e novos ícones da cultura pop.

Embora existam gêneros consagrados como o policial e o de espionagem, é o do faroeste que ainda continua a ser o gênero por excelência do uso da arma de fogo como instrumento da proteção da vida e da geração de morte.

O faroeste não existiria sem suas armas icônicas e mundialmente famosas. Por exemplo, até o mais obtuso dos desarmamentistas, até o mais tapado dos esquerdistas, sabe o que é um revólver Colt Peacemaker. Lançado no calibre .45, o “pacificador” tornou-se a arma mais usada no Velho Oeste. Entre os anos 1870 e 1880, ela estava na cintura de pessoas como Buffalo Bill, Wyatt Earp, Jesse James, Billy the Kid e Theodore Roosevelt.

Colt Peacemaker

Foi para a venda do “pacificador” que a empresa Colt lançou o melhor slogan de toda a história do marketing armamentístico:

“God made men, but Sam Colt made men equal”

Deus criou os homens, e Sam Colt os igualou. 

Como todos os revólveres da época, o “pacificador” era de ação simples; ou seja, para cada disparo era preciso recuar o cão da arma para só depois acionar o gatilho. Dessa singularidade mecânica nasceu a cena clássica do herói que corre por ruas poeirentas e, com a mão espalmada recuando o cão repetidas vezes, e com o rosto contorcido pela fúria e concentração, atira até esvaziar o tambor, livrando a cidade de seus piores detritos.    

Spencer, modelo original

Outro grande clássico do Velho Oeste foi o rifle Spencer .50, lançado em 1860. Com um design arrojado para a época e também excelente precisão, tornou-se o rifle preferido de muitos grandes nomes, a exemplo do General Custer; e é com um Spencer que o matador Will Munny sacrifica o xerife Littler Bill na cena final de “Os Imperdoáveis”, o western de 1992, dirigido e protagonizado por Clint Eastwood, e que renovou o gênero.

William Munny, protagonista de “Os Imperdoáveis”

Seis anos depois do surgimento do Spencer, nasceu outra lenda, o “Yellow Boy” calibre .44. Os americanos chamaram o rifle Winchester de o “cara amarelo” por conta de uma parte da arma ter essa cor. Não há um western digno desse nome, seja os de Sam Peckinpah, os de John Ford ou os de Sérgio Leone, que não tenha uma cena do protagonista guardando sua Winchester pouco antes da viagem sem destino ou de vingança; ou correndo com ela para se esconder atrás de uma rocha e sapecar fogo nos inimigos. 

“Yellow Boy” calibre .44

E tinha a arma dos traiçoeiros, a Derringer, uma pequena pistola com dois canos sobrepostos, sempre surgindo nas horas mais inesperadas para reverter uma situação que todos já davam por consumada. Os olhos do surpreendido sempre estalavam de medo, pois apesar de  pequena, trazia sempre dois projéteis de bom calibre. 

São muitas as cenas clássicas com a Derringer. Humphrey Bogart, no papel de um fora da lei mexicano, empunha uma em “Virginia City”; e em “Rio Bravo” um jogador trapaceiro perde a sua antes de poder usá-la dentro do saloon. Na verdade, um faroeste sem uma cena com uma Derringer não é exatamente completo. E na vida real foi com uma arma dessas que o presidente Abraham Lincoln foi assassinado.     

No Velho Oeste, a arma era vista como se deve: um instrumento imprescindível para que a justiça prevaleça. Onde quer que existam pessoas, é preciso existir armas para equalizar as forças, porque os mais fortes sempre tentarão se aproveitar dos mais fracos – e não há cultura, leis ou fé que extirpe por completo os males da injustiça e da violência. 

Os belos Colts, os alongados Remingtons, as pequenas Derringers, as populares Winchesters e os refinados Spencers são os símbolos da liberdade metálica que construiu a grande América, a mesma que agora ameaça apodrecer e ruir por obra de vermes desarmados.  

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