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terça-feira, 28 junho, 2022

ACERTO DE VISTA丨A guerra e a paz que o mundo dá 

Revista Mensal
Padre Bernardo Maria
Padre Bernardo Mariahttp://nazare.org.br/
Monge do Mosteiro Cisterciense Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Pardo - RS

Na madrugada do dia 24 de fevereiro de 2022, uma quinta-feira, enquanto o exército russo iniciava a invasão da Ucrânia, inicialmente pela região de Donbass, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, discursava, dirigindo-se às forças armadas da Ucrânia – “Exorto-vos a depor imediatamente as armas e irem para casa” –, aos cidadãos da Rússia – “tu e eu sabemos que a verdadeira força reside na justiça e na verdade, que está do nosso lado. E se assim é, então é difícil discordar do fato de que é a força e a prontidão para lutar que estão na base da independência e soberania, são os alicerces necessários sobre os quais se poderá construir o seu futuro de forma fiável, construir a sua casa, a sua família, a sua pátria” –, e ao resto do mundo – “Quem nos tentar impedir, e ainda mais para criar ameaças ao nosso país, ao nosso povo, deve saber que a resposta da Rússia será imediata e que levará a consequências de tal ordem que nunca experimentaram na sua história. Estamos prontos para qualquer desenvolvimento dos acontecimentos”. 

Enquanto escrevo estas linhas, completam-se 21 dias desde esse ataque russo. O mundo continua chocado, confuso e apreensivo com a guerra que se iniciou entre dois povos que são, por assim dizer, aparentados. A história da Ucrânia é muito complexa, repleta de detalhes sutis e de influências externas, sem falar na constante e irregular alteração de fronteiras. Assim, para apresentar ao leitor um mísero fragmento representativo dessa intrincada história, poderíamos tomar o fato de que, durante os séculos X e XI, o território da Ucrânia tornou-se o centro de um Estado poderoso e prestigiado na Europa, a chamada Rússia de Kiev, o que estabeleceu a base das identidades nacionais das nações eslavas orientais nos séculos subsequentes – por exemplo: russos, ucranianos e bielorussos. 

Em busca de luzes para um assunto tão desconhecido e obscuro para mim quanto a relação entre esses dois países – Rússia e Ucrânia – deparei-me com um conto do escritor Nikolai Gógol (nascido em 1º de abril de 1809 e falecido em 04 de março de 1852). Para minha surpresa, a pessoa do autor já traz à tona uma polêmica, pois, quando ele nasceu, sua cidade fazia parte do Império Russo, mas atualmente pertence à Ucrânia (Sorochyntsi, Domínio da Poltrávia, Império Russo; e hoje distrito de Myrhorod, oblast de Poltrava, Ucrânia). Como consequência, tanto a Rússia quanto a Ucrânia reivindicam a nacionalidade do senhor Gógol. Apesar de muitos de seus trabalhos terem sido influenciados pela tradição ucraniana, Nikolai Gógol escreveu em russo e sua obra é considerada por vários críticos como herança da literatura russa. O conto a que me refiro é parte de uma coleção de contos publicada pela primeira vez em 1835, sob o título de “Mírgorod”. O título “Mírgorod” é a pronúncia russa do nome da cidade ucraniana Myrhorod e significa – ironicamente, acreditem ou não – “cidade da paz” em ambas as línguas. É também o cenário da história do conto que finaliza a coleção, intitulado “O Conto de como Ivan Ivánovitch brigou com Ivan Nikíforovitch”, e que em Português tem sido traduzido como “A briga dos dois Ivans”. Essa foi a história que tive oportunidade de ler, e que é concomitantemente animada por um sentimento de alegria e de leveza, com momentos do mais puro pastelão, ao lado de um cinismo resignado sobre a condição humana. 

Em suma, Ivan Ivánovitch e Ivan Nikíforovitch são dois respeitáveis cidadãos de Mírgorod, nas primeiras décadas do século XIX. Apesar de muito diferentes um do outro, mantêm uma amizade que é objeto de admiração de toda a cidade. Vizinhos entre si, estão sempre a se frequentar para jogar conversa fora e cheirar rapé, além de irem à Missa juntos. A amizade de longa data chega ao fim por causa de uma discussão pueril, em que Ivan Nikíforovitch chama Ivan Ivánovitch de “galinha”, depois de se recusar a trocar sua cobiçada arma por uma porca e dois sacos de aveia. A desavença estende-se por anos a fio, agravada por depoimentos exagerados e mentirosos, que dificultam cada vez mais a reconciliação dos antigos amigos. 

Por insólito que pareça, esse conto lembrou-me, ainda que apenas sob alguns aspectos, uma passagem bíblica do Primeiro Livro de Reis que trata sobre a história da “Vinha de Nabot” (1Rs 21). Nessa história, Acab, rei de Samaria, deseja a vinha de Nabot, o jezraelita, e tenta tomá-la para si, valendo-se para isso de falsos testemunhos e, por fim, do assassinato de Nabot. É possível traçar ao menos três paralelos nas duas histórias entre si e depois com a guerra que estamos analisando, cada um desses paralelos com um tema específico: cobiça, conflito e mentira. Nas duas primeiras histórias claramente aparecem os objetos de cobiça (a arma e a vinha), o conflito (a briga entre os Ivans e o assassinato de Nabot), e a mentira (os depoimentos mentirosos dos dois Ivans diante do juiz da cidade, e os falsos testemunhos contra Nabot). 

Quanto à guerra Rússia-Ucrânia, de que estamos tratando, foi noticiado por vários meios de comunicação que o lado russo, durante várias semanas antes do conflito, vinha reiterando mais e mais categoricamente a sua decisão de não invadir a Ucrânia. Mentira! Vladimir Putin, em seu discurso do dia 22 de fevereiro, sobre a independência de Donetsk e Lugansk, afirmou: “a Ucrânia, para nós, não é só um país vizinho. É uma parte de nossa história e espaço espiritual que não se pode subtrair”. Cobiça! E o que tivemos como resultado? Conflito! 

Como sempre aconteceu na história das guerras, chegará o momento em que a guerra entre Rússia e Ucrânia terá o seu fim, mas há uma pergunta que não quer calar: um cessar fogo trará realmente a paz a esses povos e evitará uma escalada de violência em outras regiões do planeta? Há o sério risco de que o epílogo desse enfrentamento seja um simples armistício, como na realidade o foi o Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial, que violou flagrantemente os termos de paz apresentados como base para a rendição da Alemanha, num tal espírito de inconsequência que fez o diplomata inglês Harold Nicolson exclamar: “Chegamos convictos de que seria negociada uma paz de justiça e sabedoria. Partimos convictos de que os tratados impostos a nossos inimigos não foram justos nem sábios”. Consequência disso: a Segunda Guerra Mundial. 

Que paz poderá surgir de uma relação onde os corações estão inundados pela mentira e pela cobiça, sempre à beira do conflito? E não pensemos que só no governo russo há esse tipo de corações “privilegiados”. Dentre os apoiadores da Ucrânia estão muitos governantes e líderes pró-aborto, favoráveis à ideologia de gênero, defensores do fim da propriedade privada, promotores do marxismo cultural, arquitetos do transumanismo, praticantes do ativismo judicial, propagadores de psicoses ambientalistas, idealizadores de uma religião mundial que seja a simples soma de todas as crenças, contestadores do modelo judaico-cristão de família, executores do controle social através da tecnologia, entusiastas de uma moeda única global e de um governo único mundial, entre outras bizarrices. Esses governantes e líderes aprovam a guerra tanto quanto o Kremlin, porque também veem nela um catalisador para o processo que os leva à obtenção dos objetos de sua cobiça: a profunda mudança de poderes e de influência na economia, na cultura, na filosofia, etc. O verdadeiro e único plano é a destruição das bases que estruturam a Civilização do Ocidente. 

O que é então necessário para uma paz genuína? Vejamos como termina a história da vinha de Nabot: Acab, que promoveu o homicídio de Nabot, sofreu uma ameaça de Deus por causa de seu pecado, mas fez penitência e jejum, recebeu o perdão e alcançou a paz. Daí se conclui que a verdadeira paz só nasce de uma fé genuína e de uma mudança de vida, de valores, de interesses, de postura. Enfim, é necessária uma conversão. Um simples cessar de disparos de armas de fogo não é o mesmo que a conquista da paz. A história do fim da Primeira Guerra Mundial já nos provou isso. Assim, enquanto o consenso dos maus, que está subjacente a esse conflito de superfície, não for neutralizado haverá apenas o equivalente à “paz que o mundo dá” (Cf. Jo 14,27), sem méritos, sem progresso, sem beleza, sem sentimentos, sem vida, e, essencialmente, sem Deus. 

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