31 C
São Paulo
quinta-feira, 27 janeiro, 2022

A Quadrilha

Revista Mensal
Eduardo Vieirahttps://www.apoia.se/professoreduardovieira
Pai de duas meninas, professor de robótica, matemática, física e ciências. Presidente da Associação Brasileira de Pais pela Educação. Palestrante e organizador de eventos culturais.

Quando o teco-teco pousou Jorjão tratou logo de se certificar que o mesmo estava completamente limpo

Caminhando pela trilha daquela pequena instalação no meio da selva amazônica, Jorjão estava de mau humor. Não que esse não fosse o estado natural de um homem no ofício a que ele se dedicava mas naquele dia estava ainda mais aborrecido. Enquanto rumava para a pequena pista de pouso numa reserva florestal da Colômbia o gerente operacional da produção de cocaína do consórcio “NarcoSul” resmungava sobre a perda de tempo em se deslocar até São Paulo apenas para uma rápida reunião com o chefe.

Quando o teco-teco pousou Jorjão tratou logo de se certificar que o mesmo estava completamente limpo. Ameaçou o piloto e sua família em caso de qualquer problema e embarcou para São Gabriel da Cachoeira, de onde pegaria outro avião para Manaus e dali seguiria para São Paulo em avião de carreira. Detestava voar em aviões de carreira e detestava ficar fora de sua base. Lá ele era a lei, matava quem o desagradava, tinha farta verba para fazer atender seus prazeres e era temido e respeitado. Num avião comercial, se agredisse alguém perderia um tempão e ainda daria dor de cabeça para o chefe, coisa sempre arriscada.

Jorjão era um sujeito pragmático. Limitado intelectualmente como todo pragmático, evidentemente. Há muitos anos percebeu que o tráfico de drogas era algo lucrativo e que subir na hierarquia dependia apenas de ser leal e se deixar humilhar pelos superiores ao mesmo tempo que escorraçava e matava os inferiores, especialmente os que chamavam a atenção dos chefes. Assim fez sua carreira, matando, traindo e lambendo botas, até que chegou ao lugar de seus sonhos.

Um pequeno feudo no meio da mata, oculto de tudo e de todos e protegido pelas forças armadas colombianas. Ali ele era rei absoluto em pleno século XXI. Rei Jorge, o Forte, imaginaria ele se tivesse a mínima noção do que seria imaginação. Mas não tinha. Jorjão era pragmático e para ele valia apenas o máximo de dinheiro, poder e prazer que conseguisse atingir a cada dia. E aquele seria um dia perdido.

Chegando em São Paulo ficou aliviado por ser a reunião no escritório da Faria Lima e não na mansão do chefe no Morumbi. Isso significava uma reunião curta, sem as intermináveis palestras intelectuais do chefe, que sempre terminavam o deixando com uma sensação incômoda que uma pessoa de mente menos doentia já teria há muito identificado como medo.

Av. Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo/SP

Teve a porta aberta pela beldade que estava hoje no posto de secretária particular do chefe. Já havia se esquecido mas houve um tempo em que tal beldade o faria salivar internamente. Mas depois de três anos de total liberdade em seu feudo tal cenário já não o interessava mais. Havia deixado esses prazeres infantilescos para trás.

O chefe estava ao telefone e gesticulou para que sentasse. Em breve desligou o telefone e o encarou em silêncio por alguns segundos. Jorjão já conhecia esse gosto do chefe por jogos psicológicos. Houve um período que o chefe o recebia com a sala numa temperatura polar e oferecia água geladíssima. Outras ocasiões ele o fazia sentar de frente para a luz ofuscante do sol da tarde. Coisa chata mas esse era o chefe, tinha que aturar. Já havia pensado várias vezes no que aconteceria se simplesmente o matasse ali mesmo, mas tinha certeza de que não duraria nem dois minutos após isso e então perderia seu feudo para sempre.

O chefe então começou a se queixar. Disse que seus negócios não são simples como o Jorginho poderia imaginar. Tinha que negociar com gente complicada o tempo todo, sobre assuntos difíceis e intrincados, seja lá o que isso signifique. Agora mesmo, disse o chefe, estava mandando dinheiro para financiar um estudo encomendado em Manaus. Precisava que Jorjão cuidasse disso por uns dias. Tinha feito um acordo milionário com empresas de medicamentos que envolvia senadores, deputados e até ministros do Supremo. Jorginho teria que levar duas malas de dinheiro de volta com ele.

Chegando em Manaus levaria as malas para um hospital onde as entregaria para um sujeito que chefiava uma equipe de cientistas. O dinheiro serviria para convencer todos os envolvidos a fazer o que eles definiram e comprar o silêncio dos que acabassem por saber dos detalhes. Jorjão compreendia isso muito bem. Pagar costuma ser bem mais barato que matar, a não ser no seu feudo. Mas ele detestava a hipótese de andar com malas de dinheiro. Era dor de cabeça certa se fosse parado pela polícia.

Lendo o desconforto em seus olhos, o chefe o informou que ele voaria direto no jatinho particular de um dono de editora seu amigo. A secretária passaria os detalhes. Agora precisava ir pois muita gente estava esperando essa grana. Fundações, senadores, diretores e todo tipo de dor de cabeça. E ele tinha outra reunião. Jrojão se levantou, pegou as malas e virou-se para ver uma figura conhecida abrindo a porta.

Jorjão tinha desenvolvido um instinto para leitura de posturas, ainda que não soubesse disso. Viu entrar um homem subserviente, levemente encurvado, com um sorriso débil nos lábios. Ao vê-lo, o homem imediatamente ajustou a postura, removeu o sorrisinho e deu um “boa tarde” grave e sério.

Jorjão sentiu um impulso forte de asco mas respondeu rapidamente e tratou de sair. Já tinha visto aquela careca em algum lugar mas não tinha tempo de pensar nisso agora. Tinha uma missão em Manaus antes de voltar para seu precioso cantinho na selva, onde era rei.


Todos temos por onde sermos desprezíveis

— Fernando Pessoa

Assine Esmeril e tenha acesso a conteúdo de Alta Cultura. Assine!
- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

A Quadrilha

Quando o teco-teco pousou Jorjão tratou logo de se certificar que o mesmo estava completamente limpo
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img