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domingo, 5 dezembro, 2021

A “Morte” de James Bond e as mitologias que o 007 representa [Spoilers!]

Revista Mensal
Aldir Gracindo
Aldir Gracindo é professor, escritor de artigos, palestrante, ativista político, realista esperançoso, nerd orgulhoso, nacionalista e violoncelista amador.

Todos os filmes de 007 e o arquétipo do heroi romântico e trágico em ”tempos pós-modernos”

Não nos odeie: A notícia de que tinham matado James Bond vazou antes mesmo da estreia do novo filme da franquia nos cinemas. E como se viu por todo lado, os fãs detestaram. Eis um dos muitos comentários negativos do público:

Muita gente esnoba a cultura pop. Herois imaginários, histórias fictícias recheadas de feitos absurdos; fora da realidade, escapismo. Essas pessoas ignoram a importância das narrativas: Nós não somente consumimos histórias. Seres humanos sempre criaram e contaram histórias. Como psicólogos já disseram, as pessoas vivem com histórias – e morrem sem elas.

Relembremos

Créditos da Imagem | Divulgação

James Bond, o agente 007, foi a criação de sucesso estrondoso do militar, jornalista e romancista Ian Fleming (1908-1964). Para criar o protagonista da série de livros, Fleming se baseou em ao menos um agente secreto real que atuava disfarçado como diplomata. Já nos cinemas, a franquia, com 25 filmes (incluído este último), refletiu artisticamente momentos históricos como a guerra fria, teorias conspirativas, liberação sexual, arquétipos e imaginário masculino e feminino.

Podemos correr o risco calculado de dizer que, para quem acompanhou todos os filmes, o primeiro Bond, o de Sean Connery, foi o mais icônico. Elegante, inabalável, implacável e sarcástico. Foi dessa atitude que surgiu a famosa autoapresentação: “Meu nome é Bond. James Bond.” Bond estava fazendo um deboche sutil com uma mulher importante que tinha se apresentado a ele dizendo primeiro o nome da família dela.

O Bond de Sean Connery enfrentava todos os perigos como se significassem nada. Enquanto servia os interesses de Sua Majestade e salvava o mundo, tinha envolvimentos puramente circunstanciais com belas mulheres, fumava e degustava sua bebida favorita, o Dry Martini – sempre “batido, não mexido” (porque muda o sabor, sabe como é).

Connery fez os primeiros 5 filmes

Sean Connery como James Bond no filme “007 Contra Goldfinger”, de 1964 | Créditos da Imagem | Reprodução
  • 007 Contra o Satânico Dr. No (Dr. No, o título em inglês), de 1962;
  • Moscou contra 007 (From Russia with love), 1963;
  • 007 contra Goldfinger (Goldfinger), 1964;
  • 007 Contra chantagem atômica (Thunderball), 1965;
  • Com 007 só se vive duas vezes (You Only Live Twice), 1967.

Cru como ator, o modelo australiano George Lazenby fez um único filme como Bond: 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service), em 1969.

Connery voltou por mais um filme: 007 – Os diamantes são eternos (Diamonds are forever), 1971.

Sir Roger Moore fez o maior número de filmes (7) e, para alguns, foi o Bond mais frio e letal

Créditos da Imagem | Reprodução
  • Com 007 viva e deixe morrer (Live and let die), 1973;
  • 007 contra o jomem com a pistola de ouro (The man with the golden pistol), 1974;
  • 007 – O Espião que me amava (The spy who loved me), 1977;
  • 007 Contra o foguete da morte (Moonraker), 1979;
  • 007 – Somente para os seus slhos (For your eyes only), 1981;
  • 007 contra Octopussy (Octopussy), 1983; e
  • 007 – Na mira dos assassinos (A view to kill), 1985;

Os anos 80 acabaram trazendo Timothy Dalton, o único Bond casado, monogâmico. Foram os tempos da AIDS, afinal, e quando os produtores começaram a “fazer média” com movimentos feministas, que reclamaram muito tempo das Bond Girls.

Dalton atuou em 2 filmes

Créditos da Imagem | Getty Imagens
  • 007 – Marcado para a morte (The living daylights), 1987; e
  • 007 – Permissão para matar (License to kill), 1989.

Então veio Pierce Brosnan, por mais 4 filmes

Créditos da Imagem | O Vício
  • 007 – Contra Golden Eye (Golden Eye), 1995;
  • 007 – O amanhã nunca morre (Tomorrow never dies), 1997;
  • 007 – O Mundo não é o bastante (The world is not enough), 1999; e
  • 007 – Um novo dia para morrer (Die another day), 2002.

E chegou a era do Bond de Daniel Craig, com o reboot da história do espião. Agora, James Bond tinha um passado. Ele vinha de uma família destruída (ou duas?). Atormentado, órfão, recrutado e condicionado para ser um assassino, sem a suavidade dos anteriores, descartável, este Bond é um musculoso kamikaze pronto para resolver tudo na porrada e explodir – ou implodir.

Também foi o Bond “sensível”, apaixonado e obcecado por uma mulher que o traiu, traiu seu país e morreu dolorosamente. James Bond com Craig é o heroi romântico por ser trágico e, por consequência, trágico por ser romântico.

Ao ser escolhido para o papel, Craig não foi bem recebido pelo público. Mas conquistou seu lugar se entregando intensamente nas cenas de ação desde o primeiro filme, à custa de alguns ferimentos bem reais, físicos, para o ator. Até que, este ano, chegou sua hora de dizer tchau ao 007.

Vamos à lista completa para Craig

 Créditos da Imagem | AP Photo | Matt Dunham
  • 007 – Cassino Royale (Casino Royale), 2006;
  • 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace), 2008;
  • 007 – Operação Skyfall (Skyfall), 2012;
  • 007 contra Spectre (Spectre), 2015; e finalmente,
  • 007 – Sem tempo para morrer (No time to die), 2021.

Os filmes de James Bond são escapismo, sem dúvida, como provam as cenas absurdas como atravessar um lago pisando em uma fileira de crocodilos, saltar sobre um rio de carro em espiral e várias outras. E são um escape masculino, onde, cada um é o charmoso, irresistível e aventureiro 007, a enfrentar os perigos com habilidade e indiferença, salvar o mundo e ficar com a moça linda no final. E também porque os herois cinematográficos hoje são mitos e titãs, como na antiguidade. “Ah, não acertam uma bala nele?” Não, idiota, e Aquiles só era vulnerável no calcanhar.

Também é um retrato artístico da masculinidade saindo da 2ª Guerra Mundial para a Guerra Fria e, o fim dela, a ascensão da China, megaempresas, tecnologia, armas de destruição em massa.

‘Sacralização do feminismo’

Créditos da Imagem | Reprodução | Internet

E da relação de homem com mulheres. Porque os homens estão para as mulheres, como as mulheres para os homens, como os governos para todos nós: os governos sempre estão aí e temos de lidar com eles (e com elas) de alguma forma. Entra o James Bond “sensível” de Daniel Craig, o heroi romântico, trágico, desesperado e ‘moderno’ – uma combinação interessante, porque não se espera feminismo e cavalheirismo juntos. Mas, só superficialmente.

Um James Bond mulherengo focava na liberação sexual – que desconstruidores defenderam sob a desculpa de que os homens “des-sexualizaram” as mulheres – para depois acusarem os homens as “sexualizaram”, “objetificaram” e… Cary Fukunaga, diretor de Sem Tempo para morrer já disse, o James Bond antes de Craig era um estuprador.

O Bond (não o do Craig), além de aderente ao sexo banal que desconstruidores exigiram, também foi a recriação século-vintesca do cavaleiro, com L: O soldado, o guerreiro a serviço de seu país e nada era mais importante para ele.

Hoje se fala em “romantismo” como significando só amor e carinho, mas isso é só porque nos esquecemos até do que aprendemos no ensino médio. No romantismo (século XVIII), a mulher é venerada – ela é o início, o fim, o centro e fonte de tudo, o Sol brilha, as flores desabrocham, a chuva cai só por ela. O romantismo foi uma desconstrução de valores anteriores, também.

Já o cavalheirismo, como o conhecemos, nasceu de um movimento medieval, chamado na época de ”movimento do amor”, ou “do amor cortês” – uma história mais longa, quase esquecida. Foi somente com “o amor” (ou melhor, o “amor cortês) que o ideal do cavaleiro passou a ser lutar pela sua “Lady”, sua paixão romântica, em vez de pelo país, clã, Deus, glória, e se transformou em cavalheiro.

Ou seja, como já dizia G.K. Chesterton, as ‘feministas’ de hoje lutam contra o ‘feminismo’ de ontem.

Pois as feministas de agora querem a morte dos homens, como feministas de antes já quiseram. A morte moral na cultura e nas artes, como descrevem Sócrates Nolasco e Nathanson e Young, como aconteceu com o Odin (de conquistador violento que se torna sábio a usurpador, traidor, mentiroso e morto) e Thor (de jovem que amadurece a moleque eterno que abdica e dá o lugar no trono à Valquíria, “diversa e inclusiva”) e muitos outros.

Assassinato cinematográfico da masculinidade

Créditos da Imagem | Adoro Cinema

E a morte do protagonista, como Luke Skywalker, sacrificado para a ascensão da Mary Sue Ray; Wolverine, que se sacrifica pela Wolverininha, Piccard, que se sacrifica pela Data menina, Homem de Ferro, para abrir caminho para uma Mulher e Menininha de Ferro e, desta vez, Bond. Por que? Porque o desconstrucionismo de hoje é o da “equidade”! Ué!

Bond Craig tinha que passar o bastão para a substituta “inclusiva e diversa” Nomi (interpretada por Lashana Lynch) e morrer. Tinham deixado claro que Bond Craig apareceria como obsoleto, incapaz (comparado a Nomi) e esquecido. Os fãs reagiram e o filme foi recauchutado durante um ano de atraso da pandemia até a estreia – os produtores negam, claro. Bond Craig, então, foi morto mais “respeitosamente.” Ele até mesmo teve a chance de descobrir que era pai.

Nomi, a supercapaz, vai embora com a filha de Bond Craig (Mathilda, interpretada por Lisa-Dorah Sonnet) e sua mãe, Madeleine Swan (Léa Seydoux) – porque heroína e mulheres não morrem em filme feminista, seus machistas. Bond Craig é infectado pelos nanobots programados para matar a filha e Madeleine, por isso ele resolve morrer. O bombardeio é só da base de Safin, mas ele não se salva. Ele tem um relógio com pulso eletronagnético, talvez aniquilasse ou parasse a ação dos nanobots, mas pra que, quando se pode apenas morrer? Alguns gostaram, outros detestaram. E Hollywood não quer fazer outro Bond “machista, patriarcal, dinossauro, relíquia da guerra fria” (sim, estou citando a M).

Não significa que Bond nunca mais vá ressuscitar. O próprio Bond Craig foi uma recriação do Bond antes dele. Dizem até que a masculinidade ressucita.

O heroi romântico

Créditos da Imagem | Medium

Bond Craig foi o Bond da era da “masculinidade em desconstrução” atual que, não por coincidência, é também romântico e trágico. Saído de família(s) destruída(s), Bond Craig detestava a si, sua vida, seu trabalho, a fleuma britânica e finalmente encontrou a paz na morte. Seu vazio, criado pela desestruturação familiar originária, era somente preenchido pelo vazio da ausência da falecida Vesper: romântico por ser trágico, por causa da sua história de vida. E trágico por ser romântico.

Todo herói romântico é trágico, desde Lancelot com Guinevere e Tristão e Isolda até Romeu com Julieta, Don Quixote e Dulcineia, Werther e Charlotte, Heatcliff e Catherine. Ora, até o mito de Rama e Sita é trágico.

Família, aliás – ou melhor, a falta e/ou destruição dela – é parte importante da trama de ”Sem tempo para Morrer”. Stavro (Christoff Waltz), arquiinimigo de Bond, é seu irmão adotivo, de sua segunda família desintegrada. Safin (Rami Malek), tudo faz porque sua família foi assassinada pelo pai de Madeleine, Mr. White (Jesper Christensen), a mando de Stavros – que também matou Vesper Lynd (Eva Green). Safen sequestra Madeleine e Mathilde Bond porque queria ter uma família.

Moral inescapável da História, meninos e meninas: Não seja um herói romântico, nem feminista, não “desconstrua a masculinidade,” assegure-se de dar a seus filhos e filhas uma família estável, leia bons livros e aproveite para maratonar os filmes de James Bond desde o saudoso Sean Connery.


As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado

— Nelson Rodrigues

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