Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto (20 de agosto de 1889 – 10 de abril de 1985) foi uma mulher atemporal. Seus poemas começaram a ser publicados quando ela contava 75 anos. Dois de seus feitos coexistem: Cora fora doceira antes de ser poetisa e talvez seus dons tenham se misturado, resultando em tom lírico e doçura literária que escapam às regras ― Cora só cursou a escola até o 3º ano. 

Seus poemas evocam brandura diante da vida e a perspectiva de dias amenos.

Sua obra é carregada de parnasianismo, remetendo a uma aura bucólica na qual se visualiza a delicada doceira do fim da rua, com seu avental sujo da mais recente fornada, oferecendo um café e um punhado de palavras feitos para iluminar o dia.

Sua maneira intimista de escrever produz conforto: é como se ela desse conselhos pessoalmente, empregando com destreza o modo imperativo; impelindo cada um a tomar posse da própria vida e seguir em frente, como em Aninha e suas Pedras:

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Cora celebra, em poucas palavras, o poder do recomeço e da resiliência diante das intempéries da vida, aconselhando semear bons exemplos às gerações futuras. Em outro poema, Assim eu Vejo a Vida, Cora exalta o “ser mulher” e seu papel de guardiã de valores e princípios. É na beleza e na virtude feminina que o mundo encontra um norte diante do desmoronamento de valores e uma gerações de homens fracos. 

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa.
O passado foi duro
mas deixou o seu legado.
Saber viver é a grande sabedoria.
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
E delas me sirvo.
Aprendi a viver.

Existir é uma constante busca pelo aprimoramento, ainda que a sociedade moderna tente ferrenhamente desvirtuar esta missão. Não falo aqui de estética, e sim da busca pela elevação da alma e da bondade, da virtude e da inteligência, para saber viver num mundo que oferece perigos para o corpo e para a alma.

É no poema “Mãe” que Cora exalta a maior de todas as missões femininas:

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições…
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

Cora pareceu prever que a maternidade seria atacada por uma horda de mulheres afetivamente estéreis e deixou por firmamento literário uma obra repleta de ensinamentos sobre como ser filha, companheira e mãe, as três nuances do ofício da mulher que amparam o mundo e permeiam todas as vidas.

Ler Cora Coralina é um ato de amor próprio e elevação literária, coisas que só a simplicidade e a observação arguta do cotidiano proporcionam, percebam. Apenas uma alma eminente é capaz de extrair beleza de pedras e escombros, oferecendo colo em forma de palavras.

fim
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