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domingo, 19 setembro, 2021

A bandeirinha

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Crônica da Independência

A bandeirinha verde-amarela pendia do bolso traseiro da calça jeans da mulher à minha frente. Subimos a escada rolante eu, ela e a multidão. A Avenida Paulista é larga, ampla, generosa de espaço; na ausência dos carros, a via torna-se um imenso palco onde as pessoas encenam, inconscientes, as idealizações do Brasil. Ouvi dizer que o Brasil contemporâneo congrega o povo mais politicamente desperto do mundo. Não duvido. O sétimo de setembro, desde há, pelo menos, sete ou oito anos — pelo que me lembro — cresceu, tomou outras proporções, tem densidade, massa, peso.

Antes deste período de tempo de que eu me lembrara, não era assim: numa substituição descabida — e enormemente ridícula –, no lugar das marchas civis e militares nas quais o espaço da república era sepultado pelas cores dos Bragança e Habsburgo, e os acordes do “Brava gente brasileira” ressoavam emocionantes, musiquinhas bregas e bandeiras vermelhas tomavam de assalto o espírito da celebração. Há sete ou oito anos o sétimo de setembro parecia uma confraternização de sindicalistas do PT, desgraçadamente.

Se é verdade que o senso patriótico está contido no primeiro mandamento com promessa, então não pode haver sanha ideológica capaz de destruí-lo, porque aqui há uma evidente desproporção de forças. Os laços familiares sob a religião são mais fortes do que os laços ideológicos que unem os sindicalistas, os militantes, os jornalistas, os universitários, os “artistas” e tutti quanti. A paciência do povo felizmente conhece limites. Quando os símbolos que representam a nação são manchados pela lama ideológica, há revolta, indignação, manifestações sinceras de desaprovação.

Quem quer que tenha interesse em transformar a Terra de Santa Cruz num satélite da subversão sabe que urge tirar estes que se vestem de verde-amarelo do caminho. Os símbolos da nação antagonizam com os símbolos da revolução, porque aqueles pregam a religião, a família, a moral; estes achincalham tudo, porque é necessário romper com a tradição. Destruir é preciso.

A prova mais bem-acabada da legitimidade e da força das manifestações está nas mãos, sobre os ombros, nas bandanas nas testas e nas bandeiras pendentes das costas das pessoas: eu vi o brasão imperial; o brasão do Vaticano; rosários; faixas com palavras de ordem, de justiça, de moral… Desde que os revolucionários banharam-se no sangue de Luís XVI e o novo governo passou a repudiar as crenças do povo como se repudia o sumo repulsivo de uma barata esmagada, a sociedade vive sob a angústia de dar a César mais, muito mais do que lhe é devido.

Dizem que D. Pedro I, em viagem a São Paulo com finalidade política, planejava visitar Domitila depois de arrefecer os ânimos de alguns revoltosos. A duas semanas da primavera, o frio da madrugada nos campos de Piratininga ainda incomodava, o calor dos braços da Marquesa acolhera o Imperador. A São Paulo de 1822 não tinha arranha-céus, vias impermeabilizadas por asfalto ou metrô; bandeirinhas verde-amarelas não pendiam dos bolsos traseiros das calças jeans, mas o espírito era o mesmo.

Viva o Brasil!

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