Ou sobre a permanente associação entre sexo feminino e exercício da inteligência

O aspecto mais cansativo das pessoas limitadas é sua certeza absoluta quanto ao valor das bobagens que repete aos quatro ventos. Pessoas limitadas têm uma inclinação incorrigível para abraçar seitas, que defino aqui como receita contendo ideias discutíveis com valor de premissas indiscutíveis. O que torna uma pessoa intelectualmente limitada é a preguiça, escorada numa enérgica disposição em defender ideias fixas, em vez de examiná-las detidamente para descobrir se elas realmente têm valor, e com base em que fundamentos. 

O movimento feminista, nesse sentido, é uma seita. Uma das idéias fixas que as sectárias têm por premissa indiscutível é que as sufragistas do século XIX (primeira onda do feminismo) e suas herdeiras foram as responsáveis pelo maravilhoso “advento recente” da intelectualidade feminina. Elas têm plena certeza de que, se não fosse o movimento feminista, mulheres como eu nunca teriam tido chances de estudar, por exemplo.

O erro desta premissa está na suposição que ela abriga: o cultivo de saberes, segundo elas, teria sido uma invenção necessariamente masculina, portanto, as mulheres só tiveram chances de participar dela após as reivindicações dos movimentos sociais inaugurados no século XIX.

Esta suposição é falsa; fruto da visível falta de conhecimento sobre o imaginário associado à sabedoria. A única coisa que essa premissa revela é que as feministas, como os demais sectários, caracterizam-se por uma gritante preguiça mental e evidente falta de cultura. 

Contudo, o sectarismo dos preguiçosos têm a virtude da sombra nas pinturas barrocas: funcionam como cenário para acentuar a expressão da luz. A insistência com que repetem essa bobagem me auxilia a trazer à tona o nexo antigo, milenar e essencial entre as mulheres e a variedade de aspectos da inteligência, cuja matriz é a deusa Métis, mãe de Palas Atena, símbolo máximo da veneração à sabedoria entre os gregos.

Dedico a seção “Vida e Legado” deste número não a uma  personalidade, mas a um atributo comum às mulheres porque seria injusto escolher uma pessoa de carne e osso, quando é este atributo o que evidencia, há milênios, nosso papel na vida, ressurgindo em fatos ao longo da história do mundo. 

Imaginário antigo

Diferentemente de nós, contemporâneos de uma fase do mundo em que a amplitude material é elevada a símbolo de dignidade, os gregos reverenciavam a sabedoria, esta capacidade espiritual humana de atribuir aos assuntos cotidianos ligados à manutenção do corpo menos importância que à compreensão da vida como um todo.

As habilidades de moldar objetos, produzir alimentos, fazer comércio, enriquecer, convencer multidões, erigir cidades, destruir adversários, proteger o estado e organizar a vida em comum eram todas entendidas como frutos de uma árvore maior, o saber. A profunda reverência dos gregos pelo valor intrínseco da sabedoria fez que ali nascesse o cultivo puro do saber (puro no sentido de dissociado de um interesse específico), batizado Filosofia.

No imaginário grego, a inteligência que inspira a busca por soluções, ampara o homem no enfrentamento de problemas, está associado à deusa Métis, uma oceânide, ou deusa ligada à água, símbolo da síntese entre constância e mutação perpétua. A água é essencialmente una e superficialmente múltipla. Como a verdade, é única mas aparece em diferentes formas. 

A Filosofia é o permanente desejo humano de estabilizar no cárcere provisório chamado linguagem uma forma como surge a verdade diante de nós. Tolo aquele que confunde a forma múltipla da verdade com sua essência una. Tolo aquele que confunde Métis e seus disfarces. 

Métis

Esta deusa foi a primeira esposa de Zeus. Mas o aspirante a todo-poderoso ouviu o oráculo, segundo o qual Métis conceberia um deus maior que o pai, destinado a governar o universo. Quando a esposa estava grávida, sugeriu-lhe brincar de transformar-se. Quando a deusa fez-se mosca, prontamente a engoliu. 

Sim, a fábula do gato de botas que adoramos contar às crianças tem neste mito uma origem. Clássicos são repetições de verdades eternas. Como roubar para si um poder que se deseja superar? Trazendo-o para dentro de si; ou devorando-o. 

Mas Zeus não é a inteligência. Métis, no estômago do ambicioso deus, fabricou para a filha que gerava um capacete de metal. As marteladas empenhadas na confecção da armadura produziram nele tamanha dor de cabeça que pediu ao filho Hefesto, o deus engenheiro-metalúrgico, que lhe abrisse o crânio com um machado de duplo gume.

Foi assim que veio à luz Atena, adulta e encouraçada, fazendo até Hélio, o deus responsável pelo percurso do sol ao longo do dia, parar sua trajetória a admirar o surgimento da deusa, nascida para inspirar a astúcia e garantir aos homens prosperidade.

Métis, engolida por Zeus, duplica seu impacto: é a matriz de Atena, deusa associada à astúcia, à estratégia, à prudência e à inteligência, aspectos de uma sabedoria bem acabada; e, ao mesmo tempo, permanece martelando a mente de Zeus, sendo identificada, portanto, à voz da consciência.

Atena

A história da disputa entre Atena e Posêidon (o temível deus dos mares) pelo patronato da cidade-estado mais altiva da Grécia é boa. Os habitantes prometeram escolher por patrono o deus que lhes oferecesse o melhor presente. Posêidon fez jorrar água do mar e um cavalo. Atena fez nascer uma oliveira.

Quantos presentes uma oliveira agrega? Quantos usos os gregos extraíram da árvore? A base de sua economia era ela, simplesmente. Enquanto Poseidon ofereceu portentos maravilhosos pouco versáteis e de uso restrito, Atena deu aos gregos a semente da prosperidade.

Ler a Odisséia é bom e belo. Para mulheres, um exercício perene de dignidade. O clássico dos clássicos tematiza o árduo retorno de Ulisses para casa, após o herói ter desafiado a fúria do velho Poséidon. Atena o conduz de volta a Ítaca por mil artifícios, os quais empresta ao homem cujo apelido é “industrioso”, ou “polifacetado”.

Polifacetados, ou multitalentosos, são os homens protegidos pela deusa das artes e da sabedoria, ou os maridos atentos aos conselhos de (suas) mulheres, cujo talento nato é agregar habilidades. Foi o caso do príncipe que anunciou a indendência do Brasil.

Leopoldina da Áustria

Maria Leopoldina, princesa do Brasil, é uma das tantas mulheres que encarnaram a imagem de Métis no mundo. Curiosamente, até seu destino recorda o mito. Pois D. Pedro, dizem, a matou de tristeza, engolindo sua vida em virtude de paixões desregradas. Contudo, antecedeu sua morte a independência do Brasil, cujo desenho tem sua caligrafia.

Primeiro, ao lado de José Bonifácio, a princesa de elevada inteligência e múltiplas habilidades concebeu a liberdade na pátria de adoção. Mas antes de morrer fez o que Métis não pôde: concebeu um filho que superaria (de longe) o pai em poder e capacidade de realização.

As pessoas costumam recordar a inteligência polifacetada de D. Pedro II, esquecendo, às vezes, que sua matriz foi pródiga em talentos. O amor de mãe e filho pela geologia é o exemplo mais notório. Pois Leopoldina já o cultivava. As habilidades linguísticas, igualmente. E outras mais.

Mal se conheceram, como Métis tampouco criou Atena. Contudo, Leopoldina, soterrada pelo temperamento impetuoso de Pedro I, foi a brilhante inteligência a conceber o homem que forjou a grandeza do Brasil. O amarelo da bandeira é a cor dos Habsburgo 一 e lembra ainda o sinal de sua distinção essencial: luz interna, ou amor pelo saber.

Imaginário e inteligência

Seria infinito continuar. Ulisses encarna a prudência e a astúcia por ter Atena como voz da consciência. Penélope, esposa de Ulisses, também protegida de Atena, trama sua escapatória nas linhas de um tear; nas barbas dos brutamontes que esperavam enganá-la.

Na consciência de cada homem que foi capaz de superar covardias e orgulhos passageiros, bate como um martelo a voz que aconselha bem,movida sempre por uma inexplicável intuição.

O saber lidar com o mundo (traço espiritual sem o qual nenhum conhecimento conduz a boas coisas), que se multiplica em formas variadas de inteligência, é a matriz de todos os saberes. E matriz, como se sabe, é coisa de mulher.

Se tantos são os homens, portanto, que amaram e amam o conhecimento (fazendo disso filosofias), não estranha que, a um só tempo, cobicem com a mesma gana e o mesmo fascínio aquelas que o trazem dentro de si.

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

3 Comments

  1. Voce realmente nao frequenta qq noticiario, mas é um genio, um orgulho de Mulher, carissima Bruna. Desde que por primeira vez assisti um bate papo com voce, imediatamente assinei sua revista, porque ve-se, de longe, que voce é incomum, extraordinaria.
    Parabens minha querida e linda! Adorei e me emocionei com sua materia.
    Sigamos em frente, com as bençaos Divinas sobre nos.
    Nani

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