Precursores

John Wycliffe e John Huss ganharam fama por terem desafiado a autoridade da Igreja Católica em tempos de Inquisição do Tribunal do Santo Ofício. O primeiro foi excomungado, e o segundo queimado vivo. 

Cem anos depois da execução de Huss, um monge agostiniano denunciou de forma escandalosa os abusos e blasfêmias cometidos pelo clero. O nome deste monge era Martinho Lutero e, por contestar a autoridade política e religiosa mais sólida de seu tempo (o Papa), cativou os corações de muita gente que pensava o mesmo, mas temia reviver o destino de John Huss. 

O Papa Leão X, visando silenciar a voz de mais uma liderança que protestava contra as altas autoridades da Igreja e do clero, excomungou Lutero. Esta decisão marcou o início da primeira Igreja cristã não católica de que se tem notícia: a Igreja Luterana.

Em suma, as divergências centrais entre protestantes e católicos passavam por três pontos: A) a igualdade entre os homens, e sua igual subordinação a Deus; B) a Bíblia ― e somente a Bíblia ― como o veículo de acesso a Deus e; C) a graça divina como operadora da salvação da alma, disponível de forma imediata e direta a todos os homens pela bondade de Deus.

De reforma interna à dissidência

Os protestantes buscaram fundamentos teológicos para afirmar uma horizontalidade de poder entre todos os cristãos perante Deus, ambicionando o esvaziamento da autoridade papal e o fim dos abusos praticados por membros do clero contra leigos “em nome de Deus”.

O plano inicial de Lutero era mudar a Igreja católica por dentro, promovendo a partir das próprias estruturas da Igreja o combate à corrupção clerical, a aproximação dos leigos à palavra de Deus e a expansão do Evangelho por meio da educação do povo e a leitura da Bíblia em sua língua materna. Uma mudança conduzida de dentro na Igreja Católica era o objetivo da Reforma. Como Lutero foi excomungado e suas propostas rechaçadas, a Reforma se tornou dissidência.

O debate entre Lutero e as autoridades católicas de seu tempo teve o mérito de abordar questões extremamente profundas do ponto de vista filosófico, ontológico e teológico. Entre os temas abordados naquele tempo, podem ser mencionados a via para a salvação da alma, se por meio da graça incondicional de Deus (como defendia Lutero), ou se por meio do mérito humano e das boas obras em vida ( como acreditavam os católicos); outro tema no debate do século XVI era se os ensinamentos de Jesus deviam ser aprendidos exclusivamente pela Bíblia (Lutero), ou se tradições magisteriais/episcopais também podiam conribuir para que os homens se aproximassem de Deus (católicos).

Martinho Lutero: Desenho de Gustavo Ruiz (2019)

Igreja católica hoje

Na segunda década do século XXI, tudo está muito diferente. O Papa que nos é contemporâneo tem ganho notório destaque na opinião pública por se apresentar como um religioso “moderno”, solto da rigidez característica de pontífices que o precederam e disposto a estabelecer um diálogo “inclusivo” com a sociedade.

Para conquistar seu espaço na mídia ― digamos ―  “progressista”, que não possui nenhum traço de cristianismo, Francisco aceitou inserir a Igreja Católica em debates que ― convenhamos ― não têm muito a ver com catolicismo.

É evidente que o mundo do século XXI é bem diferente do mundo que Lutero e Leão X conheceram. Costumes mudaram, as sociedades mudaram, a Igreja Católica mudou, e o significado da autoridade do Papa também mudou.

Os valores cristãos já não são a referência moral universal, e o anseio pela salvação da alma ― a questão mais importante para um ser vivente no século XVI ― se tornou irrelevante para boa parte dos que vivem nos dias de hoje. 

Igreja refém da ordem do dia

Nesse sentido, é evidente que o Papa faz parte de um movimento interno ao catolicismo que entendeu que é necessário modernizar a Igreja para que ela não morra. Francisco é o retrato perfeito de um cristianismo que está encurralado dentro de uma sociedade que é vã. E materialista. E fútil. E consumista. E adúltera. E imoral. É uma sociedade que vive de aparências, muito mais do que de essências; e de corpo, muito mais que de alma. Em tal sociedade, qualquer catolicismo que se leve razoavelmente a sério cheira a museu.

Afinal de contas, alguém ainda cogita manter uma vida celibatária em tempos de Tinder? Alguém ainda se recusa a fazer um trabalho imoral, se este pagar R$50.000,00/mês? Alguém deixa de escarnecer os pecados alheios nas redes sociais porque também se reconhece como pecador?

A resposta correta para as três perguntas acima é: sim, os cristãos.

Pois são os cristãos aqueles que se esforçam para manterem-se morais em um mundo imoral. São eles os que privilegiam os cuidados com o espírito e com a alma em um mundo que só reconhece o que é corpo. São eles os que, mesmo estando em uma sociedade que faz apologia à blasfêmia, ousam posicionar-se para honrar a Jesus Cristo.

Neste cenário, é muito triste que o representante da linha cristã com mais seguidores no mundo (o Papa, que representa os católicos) esteja disposto a colocar os princípios ensinados por Cristo em negociação por interesses da ordem do dia. 

Fundamentos da crise interna

A crise da Igreja Católica se deve à concepção de “Igreja” mantida por seus líderes. Desde séculos antes de Leão X, os líderes católicos partem do pressuposto que a Igreja ― e, consequentemente, o clero ― não é uma entidade “integrável” ao povo; pelo contrário, líderes católicos partem do pressuposto que leigos devem pagar seu dízimo e fechar os olhos para todo o tipo de absurdo cometido pelas autoridades eclesiásticas, afinal de contas estas possuem um grau de santidade muito superior ao daqueles. Autoridades católicas, em geral, entendem que devem ser servidas pelo povo, e não servir ao povo.

A estrutura interna da Igreja católica é tão avessa à inclusão dos leigos que, até hoje, os membros de uma paróquia não possuem absolutamente nenhum poder para retirar um padre de sua posição de poder, ainda que este seja absolutamente inapto para o cargo, ou mesmo corrupto: o povo só tem o direito de obedecer.

Esta divisão de tarefas (e.g.: Papas mandam, padres executam, povo obedece) funcionou bem até os tempos da Santa Inquisição e do Tribunal do Santo Ofício. No período pós-Lutero, ficou um pouco mais inviável. No mundo digital, ficou impossível.

Espaço político

No âmbito político, os evangélicos estão mais organizados para a defesa dos valores cristãos do que os católicos. Candidatos evangélicos estão presentes em todos os níveis legislativos, e em todos os cantos do país. Herdeiros da tradição luterana, evangélicos não têm medo de posicionar-se politicamente contra tudo aquilo que acreditam ser contrário aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Os católicos, por outro lado, dependem que a autoridade internacional a quem estão submetidos ― o Papa ― assuma tal ou qual posicionamento para que, em cascata, possam posicionar-se também; enquanto o Papa faz política da boa-vizinhança com progressistas e cria sofismas para enquadrar Jesus Cristo nas narrativas mais convenientes àqueles, os evangélicos estão livres para adotar, por contra própria, posicionamentos firmes contra os ditames do progressismo.

A despreocupação dos líderes católicos em ouvir seus fiéis é o fator responsável pelo êxodo de seguidores da Igreja Católica nas últimas décadas, que pode ser conferido no gráfico abaixo.

Hegemônica desde o Império Romano, a Igreja Católica passa pela maior crise de sua história. Ironicamente, a Igreja cujos líderes passados lutaram para aniquilar dissidências pode ser engolida por essas mesmas dissidências. Não só uma delas, mas todas juntas: a tendência do cristianismo é a fragmentação. A Reforma promovida por Lutero foi só o primeiro passo para a aproximação da Igreja ao povo. Rompido o monopólio papal/clerical sobre a Bíblia, não há mais limites para a busca do ser humano por Deus.

A inércia católica a tornará estatisticamente minoritária em uma década, e irrelevante em um século. A alternativa a isso é reformar a Igreja agora, cinco séculos depois de Lutero ter feito 95 teses sobre o que deveria ser o cristianismo sob um papado genuinamente cristão.

Seja por dentro, seja por fora da estrutura de poder da Igreja, Lutero e a Reforma sairão vencedores. No xadrez da História, o xeque-mate dos reformadores sobre o Papa Leão X (e todos os que o sucederam no cargo) será notado com cinco – ou mais – séculos de atraso.



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