O cerne da segurança pública é a estabilidade política. O pilar desta, a legitimidade. Marco Aurélio foi filósofo, político e guerreiro. Sob seu governo, o império romano foi próspero e pacífico. Onde esteve a maior parte do tempo? À frente das tropas; no limiar das fronteiras; em defesa de Roma em campo de batalha.

O poder do crime organizado hoje é tamanho e tem efeitos tão destrutivos em nossa paz privada que esquecemos de pensar o horizonte político por trás da insegurança; o cenário que coíbe ou induz a expansão lucrativa da criminalidade. O crime organizado é um poder paralelo que não reconhece a lei que rege a todos como limite às suas ações. Por isso gera profunda instabilidade no corpo social. Poderes paralelos e ilegítimos são sempre ameaças a um ordenamento social.

A segurança pública, assim como a estabilidade política, depende do exercício vigoroso e pontual de um poder legítimo contra toda espécie de usurpadores. Recordar a vida e o legado do príncipe que legitimou a fundação do Brasil como nação independente ilustra como a força do exemplo coíbe o avanço de poderes paralelos ilegítimos sobre uma sociedade.

Ameaça exterior e poderes paralelos

Ainda criança, Pedro sentiu em sua terra natal o exaspero da invasão napoleônica. Um império expansionista movido pela sede em anexar territórios é uma máquina de produzir instabilidade política em nações vizinhas. Napoleão estremeceu a Europa no início do século XIX. Para preservar a independência de seu reino, D. João VI transferiu a capital para o Brasil, golpe de mestre que salvaguardou a soberania de Portugal.

“Foi o único que me enganou”, diria do então regente, herdeiro da rainha D. Maria, a encarnação da estratégia militar que foi Napoleão Bonaparte.

D. Pedro chegou à terra que adotaria como sua em consequência de atos essencialmente políticos: a defesa da soberania e a recusa da dizimação e violência, que fatalmente se dariam em caso de enfrentamento direto entre portugueses e tropas napoleônicas.

Esses atos políticos que redefiniram a vida do filho de D. João VI, o garoto nascido para herdar o reino português, serão revividos por ele em sua trajetória.

Espírito liberal e independência do Brasil

Em 1808, portanto, a família real chega ao Brasil, fazendo da então colônia a capital do reino. O dinheiro passa a circular internamente, em vez de ser enviado à Europa, sendo investido em instituições culturais, políticas e científicas. A futura nação assiste ao processo de estruturação, cujo efeito imprevisto seria também o espírito de independência não tardar a surgir.

No entretempo, Portugal tropeça economicamente e se vê agitado pelo entusiasmo constitucionalista que marca a época. A Inglaterra atravessara o século XVIII consolidando a moldura política constitucional. Durante o XIX, a ideia liberal associada a mecanismo de freios e contrapesos ecoa positivamente pela Europa. Surge em Portugal um movimento forte em prol de uma Constituição.

Essa agitação inspirada pelo sucesso do modelo inglês alcança o Brasil, cujas cidades mais ricas pressionam igualmente o monarca pela adesão à Constituição portuguesa. A certa altura, D. João VI é pressionado a retornar à Europa, deixando seu filho Pedro como regente no Brasil.

Naquele momento crítico, de grande instabilidade política, a responsabilidade primeira do regente foi corresponder aos anseios liberais da sociedade organizada, que primeiro pressionaria a coroa até obter um acordo de adesão à carta constitucional portuguesa; depois, pressionaria D. Pedro, o regente, por uma Constituição local que correspondesse ao interesse dos brasileiros.

A réplica política a esta segunda exigência seria o grito da independência em 1822. Contudo, o gesto que marca o nascimento da soberania brasileira foi o ato final de um trabalho sistemático para evitar a separação das porções do vasto território em nações independentes. Evitar que o Brasil se retalhasse em repúblicas instáveis e insignificantes.

D. Pedro I compõe o hino da Independência

Separatismo radical e diplomacia aristocrática

As anedotas sobre D. Pedro às vezes se sobrepõe, no imaginário popular, à energia política com que percorreu cidades agitadas por movimentos separatistas fortes. Imbuído de legitimidade, pois encarnava a autoridade máxima, conteve muitos motins ao percorrer o país e ouvir lideranças locais. Enquanto colecionava conquistas e angariava, Brasil adentro, a adesão de grupos inclinados à rebeldia, D. Pedro I valeu-se da educação política para entender que seria inviável manter o Brasil unido à Portugal à base da força militar.

Já a 23 de janeiro de 1822, escreve ao pai:

“Tropa sem disciplina não serve para nada, muito menos para fazer unir duas partes tão diferentes em tudo, e desunidas fisicamente, e que só a força moral (que é a verdadeira força para sustentar a ordem das nações) as pode unir… com força armada é impossível unir Brasil e Portugal.”

O final da história se deu às margens do Ipiranga. O que D. João fizera por sua pátria em 1808, recorrendo à estratégia política para conter uma guerra iminente, ou violência e dizimação da soberania e do povo português, fez D. Pedro à sua vez pela pátria adotiva.

Diante da exigência irredutível do povo por independência, vontade esta que inclinava muitos à rebelião e ao separatismo, D. Pedro I funda o Império, evitando que fosse o Brasil retalhado em espírito, corpo e grandeza. Prudência movida por nobreza, cujo resultado foi a nação forte, rica e grande onde vivemos agora.

Abdicação e regresso às origens

O papel de José Bonifácio de Andrada e Silva (das maiores inteligências que se testemunha na história política do século XIX) no desenho da independência é tão crucial que D. Pedro começa a tropicar quando o afasta de seu convívio para confiar no conselho em gente menor, depois de ter vencido a dificuldade principal de manter o Brasil unido.

A imperatriz Leopoldina, princesa educada para agir em prol da nação que governava, teve durante e após a independência o desinteresse a habilidade dos quais foi incapaz a Domitila (a “marquesa” de Santos), ambiciosa e ligada a grupos de nenhuma educação política e muita cobiça imediatista. Leopoldina pensava como José Bonifácio. Domitila trabalhava para o grupo que cobiçava o estatuto dos Andradas junto ao poder imperial.

Quando D. Pedro I cedeu à influência da paixão violenta pela marquesa de araque, perdeu o pé. Afasta os Andradas da escritura da Constituição; perde pouco a pouco o vínculo que constituíra com o povo anteriormente; vê a imperatriz e aliada política maior, definhar e morrer; percebe-se completamente desprestigiado e testemunha como o declínio da legitimidade anda ao lado da insegurança.

O Brasil recém fundado corria o risco de desintegrar-se, caso ele insistisse em manter a coroa. Ao dar-se conta do que deixara ocorrer, põe a mão na consciência e trabalha para manter o que a duras penas conquistara para o país.

Reconcilia-se com Bonifácio e o elege tutor do herdeiro da Coroa. Foi como devolver ao povo brasileiro o poder sobre o próprio destino. Caberia ao patriarca da independência educar o próximo imperador, cujo traço mais marcante foi a inteligência brilhante herdada da imperatriz. D. Pedro II encarnava a inteligência de Leopoldina, acrescida da sabedoria política de Bonifácio e da legitimidade de D. Pedro I.

D. Pedro I abdica do poder para devolver legitimidade à coroa a que deu nascimento independente. Como gesto complementar, regressa a Portugal para libertar o povo do absolutismo anacrônico que o irmão Miguel, usurpador do trono pertencente à primeira filha de D. Pedro I, impunha ao reino.

Guerra de libertação em solo pátrio

D. Pedro I viveu 33 anos. Com essa idade liderou uma guerra civil em terra natal, conflito conhecido como Guerras liberais ou Guerra miguelina por tratar-se de uma disputa do povo português, animado por um espírito liberal e constitucionalista, contra o restabelecimento forçado do absolutismo por D. Miguel, o filho mais novo de D. João VI e Carlota Joaquina.

Se no Brasil angariou antipatias por concentrar poder, temeroso da instabilidade política comum num estado em fase de consolidação, chega a Portugal para liderar os liberais inconformados com o golpe de estado de D. Miguel.

Em 1808, Pedro parte ao Brasil para evitar que Napoleão sequestrasse a soberania do país. Em 1831, desembarca em Portugal para devolver-lhe a soberania ao defender a legitimidade de sua filha D. Maria II e da Carta Constitucional que havia jurado ao povo em 1826.

A guerra civil ardilosamente evitada no Brasil, foi obrigado a levá-la a Portugal para assegurar ao país estabilidade e liberdade política, semelhantes àquelas que garantira ao imperio tropical. Se sua força moral foi suficiente para evitar que ele se retalhasse, provavelmente seria suficiente para devolver ao reino português sua integridade.

Conciliação

As pessoas esquecem que nem todos os seres-humanos nascem para escalar montanhas cheias de brasas candentes. Algumas nascem exatamente para isso. E não saberiam o que fazer por aqui, se não precisássemos desesperadamente de alguém apto a escalar essas montanhas inóspitas eventualmente.

Almeida Garret e Alexandre Herculano, que viriam a ser os maiores literatos do XIX português, estiveram entre os voluntários que se apresentaram para integrar o pequeno grupo liderado por Pedro, cuja missão era combater um exército de 75 mil homens, que teria a vantagem de só se defender.

A guerra se prolongou por um ano, obteve apoio inglês no momento oportuno, os liberais conquistaram o Porto e Lisboa, Miguel foi exilado na Alemanha, Portugal viu-se livre, D. Maria II foi trazida de volta e coroada e D. Pedro, bem, extenuado da intensa vida e conciliado com o espírito de liberdade que sempre o moveu, D. Pedro I adoeceu e pereceu logo depois.

Quer dizer, não exatamente, segundo disse a seus filhos José Bonifácio…

“D. Pedro não morreu. Só morrem os homens vulgares, e não os heróis”.

fim

3 Comments

  1. Muito boa essa resenha!!! Como monarquista que sou só posso agradecer e parabenizar esse trabalho tão esclarecedor sobre o poder não só objeitvo, mas sobretudo subjetivo do Monarca!
    Fugirei um pouco do assunto sem sair realmente desse assunto, o exemplo do mito, da figura arquetípica!
    Nos EUA não houve essa figura arquetípica, até porque lá o povo foi contra a realeza britânica e a igreja católica que buscava submetê-los.
    Assim, eles acabaram criando mitos republicanos, o que é muito mal, são mitos pueris e ilegítimos. Mas também graças a esse viés “desmitologizado”, forma obrigados a criar heróis mitológicos ao modelo grego, para hércules, zeus, mercúrios e todos, inclusive os bacantes, eles criaram herois márveis, super homens, homens de aço e ferro, flash tão rápido quanto Hermes! Chegaram ao ponto de criar Shazan com seus poderes de deuses gregos!
    Mas curiosamente também se sentiram ameaçados pelo intelecto e demonização a inteligencia, algo que foi gerado por uma razão simples: o intelecto não sustenta divindades aqruetípicas típicamente infantis! E aí, nasceu o abominável doutor Silvana, O Brainiac (cerebro maníaco, brain + maniac), até lex lutor, doutor destino, o caveira vermelha já foi algo mais comuna por razões óbvias contra o capitão américa!
    Mas de qualquer forma vemos que o cérebro, a capacidade intelectual foi demonizada de qualquer forma, e isso mostra que a proposta arquetípica adotada pelas plagas nortistas é baseada não no intelecto, mas na força bruta e por conta disso, embora superiores em armas e disposição para a guerra, sempre dependeram de operações paperclip para angariar cérebros pensantes, vide todos os gênios por lá sempre foram alienígenas de Nikola Tesla a Von braum!
    O próprio Thomas Édison não passava de um ladrão, um esperteleco explorador dos cérebros alheios!
    Em um cenário mais amplo, mais longo, se percebe a fragilidade da proposta arquetípica deles, e uma necessária reviravolta de forma que o intelecto nacional, prata da casa, se faça existente.
    E eles estão nesse momento, e curiosamente tanto lá como cá, esse fenômeno se faz notar, a necessidade do resgate arquetípico, aqui se manifesta com Bolsonaro com um perfil militar estrategista, e lá com o Trump, com um perfil astuto, também estrategista. Aqui o Bolsonaro teve sua escola nas casernas congressais e lá o Trump teve seu estudo nos bancos imobiliários da vida e até jogos de war!
    O curiso em ambos os casos é que em ambas nações continentais, se faz necessário o alavancar do líder carismático, seja pela coroa, seja pela mitologia!
    Já o canadá, sem uma figura de impacto e com um conceito já longe do arquetípico da coroa britãnica se apaga me meio a gestão sabotatória de um dandi medíocre, mas afeito ao politicamente correto, uma espécie de arremedo de macron. Que não por mero acaso está no país que maotu a monarquia para alavancar a torpe república, mas que tendo um povo já bastante deteriorado moral e eticamente acalenta o que hgá de mais abjeto como governante!
    Se percebe essa dinãmica em todas as nações do mundo, os que alavancam conceitos arquetípicos de monarcas, mesmo que da plebe e os que se permitem diluir em conceitos abstratos amorfos de lideranças apagadas!
    O que me pergunto é qual dos dois modelos irá prosperar, um deles é a defesa do estado dominante, e o outro é a defesa do individualismo dominante!
    Se o primeiro ganhar a AI (inteligencia artificial) vai anular o ser humano e no outro ela vai upgradear o ser humano.
    No segundo caso há chance da espécie humana sobreviver, no primeiro, o ser humano acaba e o transumano (homo fecalis lobotômicus) vira a nova espécie dominante!
    Quem viver, verá!
    E se for vitória da primeira, o melhor é não viver para não ver!

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