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domingo, 5 dezembro, 2021

Stephen King quer o ‘descancelamento’ de “Y: The Last Man,” série que prometeu matar os homens do planeta

Revista Mensal
Aldir Gracindo
Aldir Gracindo é professor, escritor de artigos, palestrante, ativista político, realista esperançoso, nerd orgulhoso, nacionalista e violoncelista amador.

Por que a série foi cancelada? E onde os produtores estavam com a cabeça ao assumir um projeto tão difícil?

Stephen King, o maior escritor de terror de todos os tempos e origem de vários filmes e séries do gênero (Carrie, O iluminado, Dr. Sono, Cemitério Maldito e muito mais), parece não ter se conformado com o cancelamento de “Y: The last man”. Pelo Twitter, ele se uniu aos que querem a continuação da série:


Y THE LAST MAN está mesmo cancelada? Por favor, digam que não. Embora longe de perfeita (e algumas cenas são tão sombrias que você não consegue saber quem fala), é um dos programas mais interessantes da TV. Vamos, Hulu… ou alguém… Não me deixem na mão

— Stephen King |Tradução Livre

A série, em desenvolvimento desde 2015, é baseada no best-seller dos quadrinhos da editora Vertigo, assinada por Brian C. Vaughan (roteiro) e Pia Guerra (arte). A trama pós-apocalíptica segue o artista de escape Yorick Brown e seu macaco-prego, Ampersand, que inexplicavelmente são os únicos sobreviventes de um misterioso androcídio, ou masculinicídio, global – ou, traduzindo, todos os seres com cromossomo Y no planeta morrem repentinamente. Produzida pela FX para a Hulu, estreou no Brasil pela Star+.

Os quadrinhos foram inspirados nos romances Herland, da feminista Charlotte Perkins Gilmann (1915), e The last man, de Mary Shelley (1826). Herland mostra uma sociedade isolada utópica só de mulheres e, portanto, livre de guerras e opressões. The last man de Mary Shelley (a criadora de Frankenstein) traz uma epidemia que mata todos os homens.

A série de TV prometia, já que a dos quadrinhos foi um sucesso, e não desagradou a audiência. Apesar de a Hulu, como outras empresas de streamming, não revelar os números da audiência, as informações (inclusive avaliações de critica e público) mostram a boa recepção de “Y.” Mesmo assim, ela foi cancelada após o 7º dos pretendidos 10 episódios, ainda na 1ª temporada, o que, de acordo com The Hollywood Reporter, é incomum.

O Hollywood Reporter diz que o cancelamento foi causado por uma série de atrasos devidos a dificuldades da produção, com “divergências criativas” dentre a equipe, troca de elenco e até pela pandemia de Covid-19; que – infelizmente ou não – mata mais homens que mulheres, mas não todos eles.

Após anos de contratempos, executivos decidiram não continuar a arcar com os custos, mesmo após os primeiros episódios irem ao ar. Aliás, diz The Hollywood Reporter, cada episódio custou US$ 8,5 milhões.

As dificuldades de Y: The last man são muitas e uma delas é como abordar, de forma politicamente correta, um material de origem tão complexo. À equipe cabe a missão de:

  • Inserir na narrativa a condenação da “masculinidade tóxica”;
  • Deixar claro que cromossomos não importam mais, em 2021, no que define homens e mulheres;
  • Ao mesmo tempo, eliminar todos os portadores de cromossomo Y;
  • Deixar clara a condenação dos “sistemas de opressão” reproduzidos também por mulheres, mas do qual elas são vítimas;
  • Ao mostrar a importância da liderança e protagonismo das mulheres, deixar claro que os cromossomos das mesmas não importa nisso;
  • Defender que os homens são desnecessários, mas sem conectar, nem desconectar, o cromossomo Y do que é ser homem, para não alienar os trans-homens;
  • Tudo isso em uma ficção pós-apocalíptica que, originalmente, tem como protagonista principal um homem hétero cisgênero branco.

Convenhamos: por muitos motivos, Y: The last man é difícil em 2021, porque o masculinicídio da ‘igualdade’ de antes ficou bem melhor na versão atualizada, melhorada, “equitativa” e “interseccional”. Na verdade, no admirável mundo de 2021, estamos mais próximos de compreender que não só a masculinidade em si é ‘tóxica’, como a humanidade em si é uma ‘praga‘. Uma adaptação mais atual poderia ser “Z: X últimx humanx.”

Sarcasmo à parte (mesmo porque, dizem, humor politicamente não-alinhado “mata”), não é impossível que a série seja retomada. A chance mais próxima é que seja encampada pela HBO Max, que faz parte do grupo WarnerMedia, proprietário dos direitos da DC, à qual pertence a Vertigo. Assim teríamos a oportunidade de ver o des-protagonismo de Yorick e o macaco Ampersand pelas possíveis 5 temporadas e 50 episódios da série.

Não falta disposição, pelo que disse Eliza Clark, uma das produtoras (e especialista em “masculinidade tóxica”) em entrevista à TV’s Top 5, segundo The Hollywood Reporter:


Eu nunca estive, em minha vida, mais comprometida com uma estória, e ainda há muito mais a contar.

Y: The last man é sobre gênero, sobre como sistemas opressivos informam identidade. Nós tivemos um time gênero-diverso de artistas brilhantes, liderado por mulheres, em quase cada canto da nossa produção. Produtoras, escritoras, diretoras, cinematógrafas, designers de produção, designers de figurino, coordenação de dublês e mais. É a coisa mais colaborativa, realizadora e linda da qual eu já fui parte. Nós não queremos que isso acabe

— Eliza Clark

Bem, agora você sabe mais sobre Y: The last man, o porquê de ter sido cancelada e onde os realizadores estão com a cabeça.

Com informações de Twitter, WTW e The Hollywood Reporter


Meu coração fora tomado de angústia e desespero. Dentro de mim, sentia um inferno, que nada podia aplacar

— Mary Shelley

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1 COMENTÁRIO

  1. Mais coisas para irem acostumando quem tem acesso à conteúdo e consequentemente um pouco de grana, tratar tudo como normal. Usando um termo musical: um “leitmotiv”. Nem posso dizer que seja parte do plano. Já é o plano.

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