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domingo, 19 setembro, 2021

SÉTIMA ARTE丨Roma revista pelas melhores lentes

Revista Mensal
Lobohttps://www.facebook.com/atocadolobomau
Autor e criador da página @atocadolobomau Uma página de ideias, pensamentos e um pouco de poesia.

O cinema italiano impressiona desde os tempos de  Rossellini, Visconti, Fellini e De Sica, e até hoje, vez por outra, joga em cena obras-primas. 

A capital italiana, Roma, já foi cenário de montagens históricas, romances, comédias, suspense, tornando-se, sempre, praticamente um personagem, já que sua grandeza é retratada nos filmes, sendo quase impossível não nota-la.

Eis aqui dez sugestões de filmes que contam histórias sobre Roma ou ambientadas na cidade. Separe um bom vinho, convide uma boa companhia e escolha a melhor opção do menu de filmes que separamos para você.

Quando o prato principal é cultura, mangia che ti fa bene! 

Para Roma com amor

Woody Allen sempre foi um fã declarado de Fellini, inclusive o homenageou em Stardust Memories, filme de 1980 que é praticamente uma versão de Allen para , do diretor italiano. Já em Para Roma com Amor, mais de trinta anos depois, Woody escolheu a Roma de Fellini para contar com maestria e bom humor os encontros, desencontros e fantasias que ocorrem na capital italiana. 

Roberto Benigni interpreta um nativo romano que se torna do dia pra noite, sem nenhuma explicação aparente, uma celebridade instantânea, ao melhor estilo BBB, contrariando o velho jargão de que “é melhor ser uma celebridade do que um desconhecido”. 

Woody Allen e Judi Davis formam um casal de americanos que voam para Roma para conhecer os sogros de sua filha, ocaisão em que a costumeira obsessão de Allen pela morte quase cria um desastre nacional. O pai do futuro genro do casal americano, um agente funerário, costuma cantar ópera no chuveiro, mas não consegue causar impacto à falta de sabão nas mãos. Porém para o showbusiness e para a mente criativa de Woody Allen, nada é impossível, o que imprime ao filme mais uma crítica divertida à febre de reality shows e famas imediatas.

O filme pode não ser a melhor safra de Woody Allen, mas funciona muito bem como mais uma versão cômica da morte e da negatividade, proporcionando diversão e nos fazendo focar nas alegrias mais simples da vida.

Alec Baldwin e Penélope Cruz (excelente em cena) também estão no elenco desta obra, cuja moderna fotografia presenteia o público com imagens mais parecendo afrescos da belíssima Roma. 

Bravo, bravíssimo, direttore!

Only You

Nesta clássica comédia romântica de Sessão da Tarde, Marisa Tomei, atriz que nunca envelhece, é Faith, uma garota que ao brincar com o tabuleiro Ouija descobre o nome de sua cara-metade e fica obcecada com a história. 

Após 14 anos, prestes a se casar, um antigo colega com o nome exato da profecia liga para desejar a ela felicidades. Faith cancela o casamento e viaja para a Itália atrás do “prometido”.

O filme se passa, em sua maior parte, na Itália, entre Veneza, Roma, e algumas outras cidades. Robert Downey Jr faz o par romântico de Tomei e a química entre o casal é fabulosa. 

O cenário italiano é incrível e faria qualquer pessoa se apaixonar pelo filme apenas por sua atmosfera romântica. Mas a história, típica de um romance escrito nas estrelas, também é deliciosa e leve, como uma boa massa caseira e italiana tem de ser.

A princesa e o Plebeu

Escrito pelo badalado Danton  Trumbo, roteirista de Hollywood perseguido pelos macarthistas, este divertido filme fez metade do mundo se apaixonar por Audrey Hepburn e a outra metade do mundo sonhar em comprar uma scooter Vespa. 

Um repórter americano (Gregory Peck), a serviço em Roma, encontra uma jovem embriagada e perdida na cidade e resolve dar abrigo a moça. A aventura o faz chegar atrasado a um compromisso e mentir para seu chefe, dizendo estar numa coletiva cancelada com a Princesa Ann (Audrey Hepburn), que ele descobre ser a moça “desabrigada” que foi parar em sua casa.

A princesa que fugiu de seu reino para viver um dia de plebeia acaba caindo nos encantos de seu “salvador”, que agora pretende uma exclusiva com sua alteza, sem que ela desconfie. Contudo, os dois acabam se envolvendo e a honra do jornalista pesa mais do que a necessidade do dinheiro e do trabalho.

Com uma fotografia extraordinária registrando quase todos os cenários turísticos e históricos de Roma, o filme venceu vários prêmios e inclusive rendeu a Audrey o Oscar de melhor atriz pelo trabalho.

Apesar de ser considerado uma comédia romântica, o filme é sólido; talvez pelos traços de Trumbo, que superam os elementos humorísticos típicos do gênero, retratando uma menina rica e poderosa prestes a virar uma mulher forte, apaixonada e pronta para lidar com seu verdadeiro destino, graças ao poder enobrecedor do amor e do sacrifício.

Esse é um subtexto mítico e ajuda muito a explicar o poder duradouro de “Roman Holiday”, nome original da obra, uma das poucas de Hollywood sem Happy End.

O melhor Lance

Se tem um diretor italiano de que sou muito fã, este é Giuseppe Tornatore. O sujeito dirigiu e escreveu obras impressionantes como o espetacular “A lenda do pianista do mar”, e os premiadíssimos “Cinema Paradiso” e “Malena”. 

“O melhor lance” foca no mundo dos leilões de arte e antiguidades de alta qualidade, e para isto o diretor convidou o brilhante ator Geoffrey Rush para viver Virgil Oldman, um gênio idoso, excêntrico e estimado dentro do mercado das artes,  que é contratado por uma jovem herdeira solitária para leiloar a grande coleção de arte e antiguidades deixada para ela por seus pais. A jovem, contudo, se recusa a ser vista pessoalmente. 

Se você ama arte, psicologia, suspense e romance, este filme irá lhe agradar e lhe surpreender completamente. 

Rico em simbolismo e significados,  o enigmático roteiro, escrito por Tornatore com um lápis de ouro, se passa boa parte em um restaurante em Roma, porém o final acontece em outra cidade, que na minha visão é a mais bela do mundo. Mas isto fica para quem assistir, pois dar spoiler, se me perdoem o trocadilho, não é e nem nunca foi um grande lance.

Gladiador

Gladiador é uma obra-prima épica baseada em um drama histórico da Roma Antiga. 

Esta obra-prima rica e com reconstituição de época meticulosa, dirigida por Ridley Scott, faturou 5 Oscars, incluindo melhor filme e melhor ator para Russell Crowe.

A trama narra a história de Maximus, general amado pelo povo e pelo idoso imperador, Marco Aurélio, que antes de morrer resolve torna-lo seu herdeiro, ignorando assim o próprio filho, Commodus, brilhantemente interpretado por Joaquin Phoenix.

O legítimo herdeiro, renegado pelo pai, dominado pela inveja e fúria condena o general e sua família à morte.

Incapaz de salvar sua própria família, Maximus é capturado e colocado nos jogos de gladiadores, até que morra, porém seu desejo de vingança é mais forte que a fúria dos tigres e leões e o embate contra Commodus nem os deuses conseguirão acalmar.

Com cenas extremas de ação, muita luta e longas batalhas, diálogos poderosos, um elenco extremamente afiado e uma trilha sonora hipnotizante, o coliseu nunca mais sairá de sua mente após esta viagem audiovisual de extrema grandeza. 

Talentoso Ripley

Baseado na obra vencedora do Prêmio Edgar Allan Poe, da escritora Patricia Highsmith, autora também do livro que inspirou “ Pacto Sinistro”, de Hitchcock, o ator Matt Damon é Tom Ripley, um jovem fracassado de NY que, no final da década de 1950, é enviado à Itália para resgatar Dickie Greenleaf, um playboy milionário rico e mimado, interpretado por Jude Law. 

A missão fracassa e Ripley acaba tomando medidas extremas dando início a uma trama que evoca das profundezas do classicismo que influenciou as grandes e pequenas cidades da Itália, como Napoli, San Remo e Veneza, a Roma, onde boa parte da história navega.

O elenco maravilhoso também inclui Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e o saudoso Philip Seymour Hoffman. A colorida trilha sonora vai do jazz à ópera, realçando cada cena da história do multifacetada camaleão Ripley

Um outro mundo tão cativante e belo, porém repleto de traição tão elegante, faz tremer Roma e sua atenção colocando sua mente em xeque sobre o que é ou não verdade. 

A Doce Vida

Impossível falar de Roma, sem citar o mais cultuado diretor italiano, Federico Fellini.

Em “A Doce Vida”, vencedor de diversos prêmios, incluindo um Oscar, Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) é um jornalista de tabloide ou paparazzo, que vive de perseguir celebridades em situações comprometedoras ou constrangedoras. Aliás, foi daí que surgiu o termo tão utilizado hoje em dia para descrever os caçadores de famosos. 

A divina Anita Ekberg interpreta uma atriz sueca  que teve um caso com o jornalista, o noivo de uma mulher pegajosa, insegura, irritante e melodramática que se envolve constantemente com estrelas e, ainda assim, se questiona sobre seu estilo de vida extravagante e hedonista.

A famosa cena de Ekberg na Fontana di Trevi já se tornou um marco sagrado na história mundial do cinema, assim como a incrível cena final que deixa bem claro porque Fellini é considerado um mestre em sua arte e um grande desenhista de sonhos, além de um brilhante provocador.

Dentre as centenas de frases marcantes do diretor, uma delas é sempre atual:

“A televisão é o espelho onde se reflete a derrota de todo o nosso sistema cultural.”

Spartacus

Um ainda jovem Stanley Kubrick, mas já fantástico, orquestrou, sob intensa pressão do astro e produtor Kirk Douglas, mais uma memorável obra de sua primorosa filmografia.  

Spartacus é um dos grandes épicos de Hollywood e definiu Kirk Douglas como astro absoluto de seu tempo, na pele do escravo que liderou uma violenta revolta contra a decadente República Romana.

O roteiro, mais um escrito por Trumbo, combina a luta pela liberdade com uma história de amor convincente em um cenário que retrata com precisão a corrupção do mundo romano. 

O filme também trouxe uma das mais marcantes cenas homossexuais do cinema. Laurence Olivier, como Crasso, ao tentar  impressionar um escravo, vivido por Tony Curtis, sobre a força da República Romana, diz ao rapaz: “Aí está Antoninus, o poder de Roma. Nada pode resistir a ele, quanto mais um mero menino.”

O trabalho de Kubrick, como sempre brilhante, merece atenção ao capricho nos detalhes do período, além da orquestração de dezenas de milhares de extras nas cenas de batalha num tempo onde nem se sonhava existir efeitos digitais.

Spartacus é tão sensível quanto convincente, uma obra prima sobre a história de Roma.

A grande beleza

Este filme já foi comparado à uma obra de Fellini, pois se trata de uma “La Dolce Vita” para o século XXI, onde é possível imaginar o personagem central do filme, Jeb, como um Marcello, mais velho, mais sábio, mas que não mudou muito. 

Contado como uma série de episódios da vida de Jeb nos dias que se seguiram ao seu 65º aniversário, a obra reflete uma crescente desilusão do protagonista com o estilo de vida a que se associou ao longo dos anos, e do qual reluta em desistir, divagando sobre Roma, sobre o amor verdadeiro, sobre a decadência da sociedade, sobre a dificuldade de comunicação e sobre valores.

Trata-se de um filme magnífico, composto quadro a quadro por um cineasta mestre, que domina a arte  de misturar som e imagens a ponto de tirar o fôlego do espectador. Tudo isto acrescido por grandes performances, diálogos superlativos e uma beleza sem igual.

 A grande beleza do filme, e talvez da própria cidade de Roma, é a própria vida que inspira a arte de como viver sem se arrepender.

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