SANTO CONTO | João

Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Aqueles três últimos meses dentro do útero foram especialmente felizes para o menino. O pai, ainda que mudo, estava sempre por perto, uma presença amorosa que lhe dava segurança. Também lhe agradava a companhia da jovem tia Maria, querida e cuja voz sempre soava para ele como a mais linda das melodias. E havia, claro, o primo, seis meses mais novo, lá no ventre da tia. O primo querido, que o fazia pular de alegria e volta e meia dar sustos na mãe; o primo que ele podia ver dali de dentro e que era pura luz; o primo que lhe concedera a maior das graças quando se conheceram; o primo que era o próprio Deus. Não havia como desejar melhores companhias. Foram meses abençoados.

Enfim, chegou o seu dia. Um parto tranquilo, apesar da idade avançada de sua mãe. Em torno, criados, vizinhos, amigos, conhecidos, a tia e seu pai, ainda mudo. Muitos felicitações, muita alegria, muitos sorrisos. Quando o puseram no colo da tia, ele pôde sentir bem perto seu coração, e também o do primo amado. Aquilo o enlevava, e ele sorria como a criança mais feliz do mundo. E também sentiu um conforto todo especial quando o puseram no colo do tio José, quase tão calado como seu pai, e cujo coração inspirava uma profunda piedade. Ficou triste quando aqueles tios e o primo foram embora, mas cada um tinha seu caminho a seguir, e o deles, naquele momento, era de volta para casa.

Oito dias depois foi sua circuncisão, e aconteceu de quererem dar a ele o nome de seu pai, Zacarias, que continuava sem conseguir falar. Mas sua mãe interveio, enérgica:

– De modo algum. Ele será chamado João!

Perguntaram então ao pai do menino, por gestos, como ele queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu assim: “O seu nome é João”. Todos acederam, admirados. E ainda mais espantados ficaram porque, naquele momento, a língua de Zacarias se desprendeu e, depois de meses, ele pôde falar novamente. Inspirado pelo Espírito Santo, o velho pai tomou João no colo, bendisse a Deus e profetizou o futuro do filho:

Tu, menino, serás chamado filho do Altíssimo, porque irás diante da face do Senhor, a preparar os Seus caminhos; para dar ao Seu povo o conhecimento da Salvação, pela remissão dos seus pecados, graças à terna misericórdia do nosso Deus, que nos trará do alto a vista do sol nascente, para alumiar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte; para dirigir os nosso pés no caminho a paz.

E assim foi. João, assim como o primo, cresceu em graça e sabedoria, e se fortificou no espírito. Quando deixou a casa dos pais, foi morar no deserto, até o dia de sua manifestação a Israel. Mas essa é uma outra história.  

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2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigado Sr. Leônidas, pelo ótimo conto sobre o nascimento de João Batista. Por falar em João já escreveu algum conto sobre o Evangelista? Marcos também era João correto?
    Grande abraço

    • Olá, Marcos, muito obrigado! Para São João Evangelista, por enquanto, escrevi apenas poemas. Mas um conto sobre ele com certeza ainda será escrito!

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