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quinta-feira, 28 outubro, 2021

POLÍTICA E SOCIEDADE丨Daniel Batista e o Projeto Igreja sem Política

Revista Mensal
Bruna Torlay
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.

Na obra Falso Testemunho, Rodney Stark discerne na história da igreja registros paralelos permeados de antagonismo: a igreja da piedade e a igreja do poder, que remontam, ambas, à conversão do imperador romano Constantino à fé cristã e subsequente absorção da religião de Cristo por Roma. A contraposição é inerente à longa história da Instituição e está na raiz de conflitos internos permanentes. Segundo Stark:

A igreja do poder era o corpo principal da Igreja, que evoluiu em resposta ao imenso status e riqueza outorgados ao clero por Constantino. Ela encerrava a grande maioria dos sacerdotes, bispos, cardeais e Papas que governaram a Igreja pela maior parte do tempo até o começo da Contra-Reforma, durante o século XVI. A maior parte do clero da Igreja do Poder era composto por homens sensatos e temperados, mas tendiam a ser mundanos em ambos os sentidos do termo: práticos e moralmente laxos.

Em contraste, a Igreja da Piedade esforçava-se pela primazia da virtude sobre a mundanidade, e constantemente tentava reformar a Igreja do Poder.

Rodney Stark. Falso Testemunho: desmascarando séculos de história anticatólica. Ecclesiae, 2021, p. 204

Ao ter notícia do projeto Igreja sem política, fundado pelo pastor Daniel Batista, líder do Ministério Cenáculo da Fé, seria possível cogitar tratar-se de manifestação de tal oposição, inerente à igreja católica, no universo das inúmeras denominações protestantes Brasil afora. Afinal, não é segredo que nomes como Edir Macedo ou Silas Malafaia tenham em suas igrejas bases eleitorais extensas, e façam do ministério um palanque permanente para acomodar lideranças nas câmaras das três instâncias do país.

Mas o Projeto Igreja sem Política exprime uma radicalidade sem precedentes. Se a bancada evangélica é alvo evidente de críticas acerbas, tampouco teólogos do quilate de Lutero saem ilesos da análise de Daniel Batista, para quem todo rastro de fusão entre fé e registros seculares (da filosofia à política) evidencia esquemas deletérios ao sentido pleno da Igreja.

“Cristo nunca foi político”, reitera o teólogo, recusando até mesmo a infiltração das escolas filosóficas no monasticismo, assim como o termo “cristianismo”, mais um fruto, segundo ele, do sequestro da fé cristã por todos os esquemas humanos gestados em consonância com a política.

A radicalidade da reflexão de Daniel Batista nos conduz, por um lado, a entrever a vida cristã como um compromisso apartado dos registros civilizacionais que marcam a formação do ocidente, tais o judaísmo, a filosofia grega e o direito romano. Por outro, nos obriga a refletir o quanto o purismo exigido pela revisão preconizada é realmente viável, considerando a fusão de tradições díspares, e a permanente tentativa de harmonizá-las, como o aspecto fundamental da religião chave do ocidente.

Se a entrevista nos confronta com raciocínios imprevisíveis e muitas vezes incômodos, ela é também uma oportunidade única de refletir com profundidade sobre o papel da fé na vida humana, e todas as formas por meio das quais ela acaba relegada a segundo plano.

Esmeril Editora e Cultura. Todos os direitos reservados. 2021
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