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domingo, 19 setembro, 2021

CONVERSAR É PENSAR JUNTO | Cristianismo à Brasileira

Revista Mensal
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Personagens: Alterina e Eunécio
Cenário: um escritório, com uma escrivaninha e uma cadeira; sobre a mesa há um computador; na cadeira, encontra-se Eunécio. Alterina entra na sala.

– CENA –

[Alterina] O que estás fazendo?
[Eunécio] Estou trabalhando nas colunas para a a revista.

[Alterina] Não estás atrasado com os textos?
[Eunécio] Três meses, para ser exato; mas o que passou, passou. Para esta edição, já enviei um. Estou trabalhando no segundo. Quero ver se publico dois desta vez e já volto ao normal.

[Alterina] Para quando é?
[Eunécio] Para hoje.

[Alterina] Eunécio! Tu não tens jeito…
[Eunécio] Eu sei… Estou correndo contra o tempo, mas vai ficar pronto.

[Alterina] Qual o tema?
[Eunécio] A tradição judaico-cristã. É a última edição de uma trilogia sobre as bases do Ocidente. Eu perdi de escrever sobre Grécia e Roma.

[Alterina] Vais escrever sobre o quê?
[Eunécio] Pensei em escrever sobre nossas conversas.

[Alterina] Tu vais me colocar na revista?
[Eunécio] Não, diretamente. Seria algo inspirado em nós. Nem se chamariam Eunécio e Alterina os personagens. Não te preocupes.

[Alterina] Tudo bem. Já escreveste algo?
[Eunécio] Estava começando agora. Pensei justamente em escrever sobre nossas conversas, mas com um foco na questão da “ausência de novidade”. O próprio Jesus é retratado na Bíblia afirmando não ter vindo “para destruir a Lei ou os profetas; mas para cumprir.” [Mt 5:17] Está no famoso Sermão da Montanha.

[Alterina] Mas por que tal ponto seria importante?
[Eunécio] Boa pergunta. Primeiro, por haver uma novidade. Soa contraditório, talvez seja, mas a novidade está na interpretação. Há um elemento de mudança, mas esse seria de restauração de algo que já estava presente, mas em mau estado de conservação. Segundo, pelo esforço de restauração, em si, tampouco ser algo novo. Sócrates, na Apologia, nega a acusação de impiedade. Aristóteles critica Platão na Política porque, segundo ele, não se deve promover novidades sem o alicerce da experiência concreta conhecida. Isso, para ficar apenas em dois exemplos gregos. Em suma, trata-se de algo humano.

[Alterina] Não te entendi.
[Eunécio] Ah… Não é culpa tua. Notei que não ficara claro já enquanto falava. Buenas, em resumo, é o seguinte. Entendo que Cristo não estaria trazendo uma novidade para os judeus e nem tampouco para os gentios. A “Lei” seria universal. Inclusive, essa seria a razão de ser possível se fazer comparações entre religiões.

[Alterina] Sim! Agora, te entendi. Realmente impressionam as semelhanças entre a Teogonia, o Gênesis, o mito de Gilgamesh, entre outros.
[Eunécio] Exatamente. E com tal realização vem a pergunta sobre o que Jesus se referia por “Lei”. Se limitaria apenas à Torá, ou seria possível extrapolar o sentido do Sermão (e demais ensinamentos) para outros contextos; lugares e épocas. Enfim, se Cristo teria vindo para cumprir uma lei específica, a dos judeus, ou se todas as leis – naquilo que elas têm de comum, humano, e universal.

[Alterina] Tu falas historicamente?
[Eunécio] Não. A existência histórica de Cristo não me é importante. Sendo verdadeiro, o fato d’Ele ter ou não existido é indiferente.

[Alterina] Mas tu acreditas que seja um fato?
[Eunécio] Isso não importa; mas, sim, eu creio.

[Alterina] Bom, e qual a verdade que Jesus representaria?
[Eunécio] A Verdade, com ‘V’ maiúscula; mas isso tem implicações em diversas verdades, com ‘v’ minúscula e no plural. É o que estava tentando dizer – haveria uma mudança de interpretação não apenas no Judaísmo, mas em todas as fés; sem, no entanto, revogar necessariamente nenhuma.

[Alterina] Mas qual seria essa nova interpretação correta?
[Eunécio] Essa é A pergunta. Olha, Cristo seria “todos os homens”, mas nós não somos Cristo; não, em ato, ao menos. Nós O somos em potência – o que significa sermos humanos em falta. Cristo é o ser humano perfeito. Aos demais, temos que descobrir aquilo que nos completa; que nos humaniza. Falando em “cristianês”, temos que descobrir Cristo – o que implica descobrir a interpretação que Ele nos trouxe.

[Alterina] Tudo bem, mas tu disseste que nenhuma fé seria abolida. As outras fés não procuram Cristo.
[Eunécio] Aí é que está. Um cristão precisa admitir que sim; procuram. A diferença é de nome, pois O chamam de maneira diferente. Não nos esqueçamos que “Caminho”, “Verdade”, e “Vida” seriam sinônimos de “Cristo” [Jo 14:6]; termos equivalentes, também.

[Alterina] Mas se todas as fés seriam cristãs, qual a necessidade da Igreja?
[Eunécio] São diversas; desde simbólicas a práticas.

[Alterina] Poderias dar exemplos?
[Eunécio] Talvez… A Igreja não teria sido criada para substituir, mas para liderar. A Igreja é feita de homens e, portanto, falível. A liderança não é apenas prática, mas principalmente simbólica. “Religião” significa “reconectar”. Desconectar, desviar, seria natural. Temos uma necessidade constante de retornar ao Caminho, e os próprios desvios da Igreja são evidência disso. De certa forma, os erros e problemas da Igreja a justificam. Além disso, a Igreja, por ser fundada por Cristo, serve de referência para a Verdadeira Igreja, da qual a Igreja, terrena, apenas é parte. Aliás, todos nós fazemos parte; e a existência da Igreja tornaria isso mais simples de ver.

[Alterina] Mas a Igreja não se entende assim.
[Eunécio] Se entende. Tanto que isso seria um belo resumo do papado do Francisco, por exemplo.

[Alterina] Agora, mas nem sempre se entendeu assim.
[Eunécio] O desafio de conhecer-se é humano e interminável, mas a Verdade está sempre presente. Nós que não percebemos, nos esquecemos, nos desviamos, ignoramos… Mas é sempre possível reconectar. Ficar se remoendo com o que passou não resolve nada. Reconhece-se o erro, aprende-se, e segue-se adiante. Isso serve para a própria Igreja também. Se a Igreja entendeu-se ou não é menos relevante que o fato de tal verdade estar sempre presente com ela.

[Alterina] Vou fingir que entendi. Depois eu te pergunto sobre isso. Queria saber se tu achas que a Igreja está certa agora.
[Eunécio] Não acho. Acho estar parcialmente certa, como sempre. Cristo mostra como a tradição, ao mesmo tempo que preserva verdades, também causa desvios. [Mc 7:9] É preciso estar constantemente se reajustando. Como Sísifo, nós nunca chegamos no fim. É por isso que não podemos nos importar muito com isso.

[Alterina] Com a Igreja?
[Eunécio] Com nossos fracassos! É preciso buscar o Bem, o Belo, o Justo, e o Verdadeiro; mas temos que aceitar nossas limitações. A viagem é mais importante que a chegada, até porque não se chegará no fim. Então, é melhor fazer a jornada relaxados e com bom humor. Não é verdade?

[Alterina] Mas é difícil!
[Eunécio] Claro que é difícil, mas é melhor, não?

[Alterina] Sim. Melhor é.
[Eunécio] Outra coisa. Aquilo que temos em comum é mais relevante que nossas diferenças. Estamos todos juntos nessa. Não há um “fora da Igreja” porque não há um “fora de Cristo” – acreditemos nele ou não. É por isso que se deve tolerar as diferenças, pois carregam algo de verdadeiro, belo, justo, e bom. Essa tolerância é também herança cristã. É uma tolerância direcionada. Quando descrevem a miscigenação brasileira e/ou a nossa riqueza de credos, estão falando da maneira como o Cristianismo manifesta-se concretamente no Brasil. Isso é o que fizemos com a herança judaico-cristã que recebemos.

[Alterina] Não sei se estou convencida disso.
[Eunécio] Tudo bem. Não te falo isso para te convencer. Estava respondendo tuas perguntas da melhor forma que consigo. Se estou errado, e seguramente estou errado nalgum ponto ou vários, espero que tu me ajudes a me mostrar onde. Eu não sei.

[Alterina] Eu teria que pensar sobre o assunto.
[Eunécio] Claro. Vamos fazer o seguinte. Eu termino de escrever para a revista. Enquanto isso, tu pensas. Quando eu terminar, podemos voltar a conversar.

[Alterina] Gostei. Talvez precise de mais tempo, mas está bem. Vou te deixar trabalhar. O silêncio das crianças está ensurdecedor. Vou dar uma olhada neles antes de fazer minhas coisas.
[Eunécio] Vai lá. Te amo.

[Alterina] Também. Até daqui a pouco. Não demora…
[Eunécio] Não. Nem posso. Tenho que terminar isto logo.

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1 COMENTÁRIO

  1. MINHA FÉ: O CRIADOR É ONIPOTENTE, ONISCIENTE E ONIPRESENTE… ONIPRESENTE = ESTAMOS “DENTRO” DA VERDADEIRA IGREJA. MUITOS ESTÃO COM OS OUVIDOS E OLHOS CERRADOS, EMBAÇADOS E SUBVERTIDOS PELA PROMESSA DIABÓLICA: “SE ME ADORARES TUDO ISTO SERÁ TEU”.

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