A deputada que diz não ser oposição ao presidente afirma : “Não vou continuar ligada com quem não cumpre a palavra. Quem não cumpre a palavra que deu em pé, não merece o meu crédito”

Em 1971, com apenas 28 anos de idade, Joni Mitchell – então, o maior nome do folk canadense – registrou em seu diário uma reflexão digna dos mais conceituados filósofos: “Você nunca está pronta para derrubar alguém até conhecer a pessoa dos pés à cabeça – de dentro para fora. Ainda, assim, é muito complicado fazê-lo. Quando descobrir, você apenas irá sentir – rir ou chorar”.

Quando se trata de política – e de política de “gente grande” – essas palavras, de quase 49 anos, poderiam muito bem ser aplicadas a uma crônica atualizada sobre a deputada federal Joice Cristina Hasselmann. Neste instante, a parlamentar (nascida Joice Cristina Bejuska, em 29/1/78, em Ponta Grossa, Paraná) mais votada das eleições 2018, graças ao seu combate à esquerda e ao poderoso apoio do ultra carismático candidato Jair Bolsonaro, está numa encruzilhada que divide seu próprio eleitorado.

Tudo porque o rompimento público com o presidente – seu “padrinho político”, carinhosamente chamado antes por ela Zero Um – fez com que a aspirante à prefeitura de São Paulo em outubro virasse alvo de duras críticas dos apoiadores de Bolsonaro e do governo.

Você deve perguntar: Mas o que pode ter dado errado com essa parceria? Por que Joice e o presidente – antes, tão unidos – agora parecem ter optado pelo “divórcio”?

Nesses primeiros dias de 2020, a deputada concordou em conversar de forma exclusiva com a Revista Esmeril, gravando áudios em meio a seus deslocamentos aéreos pelo Brasil. Na entrevista, Joice garantiu que “combate hoje tanto a esquerda como a direita”, e que “não pode compactuar com quem não cumpre o que promete”.

Revista Esmeril – Você começou seu trabalho na comunicação como jornalista na CBN e logo foi reconhecida com prêmios até mesmo antes de se graduar. A política sempre foi uma aspiração em sua carreira?

Joice Hasselmann – Não, na verdade nunca tive pretensão de entrar na política… nem local, nem estadual, muito menos nacional.  Os partidos me convidavam. Vários deles. À exceção da extrema-esquerda. Os primeiros convites vieram para que eu fosse candidata à deputada estadual. Depois, vieram para que eu fosse candidata à deputada federal – isso, no Paraná ainda. E chegou ao ponto que um partido insistiu muito para que eu fosse candidata ao governo do Paraná, disputando à época com a petista Gleisi Hoffman e o tucano Beto Richa…e à época, também o Roberto Requião.

Mas eu fugia da política porque eu queria fazer uma política sem ligação a partidos, com total independência – para eu poder fazer o que realmente quero, o que realmente sinto. Uma política séria – porém não partidária. Minha tribuna era a dos microfones, tanto do rádio como da TV. E assim foi. Passei pela CBN, Bandnews, Record, Band, Veja, Jovem Pan…

Mas, quanto mais eu corria da política, a política corria atrás de mim. Até que chegou o momento que era óbvio que eu tinha o sangue para a política. Na verdade, porque abominava e continuo abominando alguns métodos da política – uma política mofada – que continua passando a mão da cabeça da imoralidade, da ilegalidade… Mas quando entendi que, se eu não me envolvesse – e algumas pessoas que querem bem do País não se envolvessem – tudo iria ficar como estava.

Então, foi muito sofrido. Passei por um conflito muito, muito intenso. Porque era deixar uma carreira bem-sucedida como escritora e jornalista para entrar nessa política partidária, para entrar numa parte que é muito suja e você tem de ser muito firme para se manter limpa, como tenho me mantido. E entrei para me manter a diferença.

Revista Esmeril – Sim, mas não há como negar que seu combate à esquerda brasileira, em especial seu duelo com o PT, lhe trouxeram destaque no cenário nacional. Inclusive, o próprio PT esteve envolvido em sua saída da Veja…

Joice Hasselmann – De fato, minhas opiniões críticas me trouxeram alguns dissabores. Com o PT foi a guerra mais emblemática, porque tive um enfrentamento muito grande com a ex-presidente Dilma e antes dela, com o Lula. E esse enfrentamento com o Lula continuou. Nós tivemos audiências, brigas, e eu derrotei Lula na justiça antes de ele ser preso – então, eu coloco isso no meu currículo.

Na minha saída da Veja, não houve somente o dedo, mas o dedo, braço, as mãos do PT para me tirar da Veja. Naquele momento, ela mudou totalmente a linha editorial, se avassalando naquele momento para o Partido dos Trabalhadores, que tinha voltado à presidência através do poste da Dilma.

Claro que nos momentos de maior tensão sempre é preciso fazer uma reflexão: Será que eu continuo…será que eu aguento? E cada vez que eu fazia essa reflexão eu pensava: vou para cima com mais força. Porque não foi só com o PT o meu enfrentamento. O meu “cacetete sempre foi democrático.” No Paraná, quem fez a denúncia contra o Tucano Beto Richa, cinco anos antes de ele ir para a cadeia, fui eu. Ele só foi preso depois que perdeu o foro privilegiado, porque isso é uma desgraça no país. Eu denunciei integrantes do antigo PMDB no Paraná. Denunciei o Requião, os irmãos do Requião. Uma das minhas denúncias gerou a operação Dallas, no porto de Paranaguá, que inclusive gerou no pedido de prisão do irmão do governador, que na época administrava o porto.

Então, a questão não é só a denúncia do partido, mas a denúncia de um corrupto. Porque eles se travestem de direita, de esquerda, de centro… mas nem sempre eles têm ideologia. Mas minha briga política é mais antiga, que vem antes dessa luta contra o PT, que tomou de assalto nosso país.

Revista Esmeril – Embora você tenha combatido outros partidos políticos, você diria que sua forte cruzada contra o PT e a esquerda foram os fatores que levaram a aceitar ser candidata à deputada federal?

Joice Hasselmann – Não, minhas críticas à esquerda não foram um gatilho para eu tentar ser uma parlamentar. Como já disse, não fui eu quem busquei a política partidária. Relutei muito. Foram muitos anos dizendo não a todos os partidos. Mas no momento em que derrubamos a Dilma Rousseff do poder – conseguimos o impeachment de Dilma Rousseff – e havia a possibilidade de entrar alguém como o Haddad, por exemplo, ou um Ciro Gomes – essa corja ligada à esquerda – e depois de um pedido textual, olhando nos meus olhos, depois público, gravado em público do então candidato pouco conhecido, Jair Bolsonaro, para que eu viesse com ele, para que eu o ajudasse com as mulheres… Ele foi à minha casa, conversou comigo. Depois fez um vídeo público para que eu assumisse essa responsabilidade pelo Brasil – só depois disso que aceitei disputar as eleições.

Revista Esmeril – Durante sua campanha, você contou com o apoio do eleitorado de Jair Bolsonaro, mas o que você diria que pesou de sua parte para se tornar a deputada mais votada do Brasil (1.078.659 de votos, segundo o TSE)?

Joice Hasselmann – O fator primordial para ser a deputada mais bem votada foi a franqueza. É dar o nome das coisas que as coisas têm. Nunca prometi trazer a lua para dentro do congresso, nem deixar as pessoas milionárias, e que tudo seria lindo e que toda a violência, miséria e escória iria acabar.

Isso seria um sonho, mas, nesse momento, não possível. Prometi, sim, ao meu eleitor, enfrentar os corruptos, e estou fazendo isso. Enfrentei os corruptos da esquerda e agora estou enfrentando os corruptos que se dizem da direita –uma direita falsa e nacionalista. E não uma direita decente, liberal e conservadora. Então, não tenho político de estimação. A receita é falar a verdade – e a verdade tem som diferente.

Revista Esmeril – Você chegou a publicar muitos vídeos no YouTube, os quais chamou de “Caravana da Previdência”. Como essas caravanas funcionaram na prática? Você diria que elas atuaram efetivamente para a aprovação do projeto na câmara?

Joice Hasselmann – Eu era líder do congresso e montei um gabinete de inteligência da previdência, com especialistas que trabalharam junto com Paulo Guedes e Rogério Marinho para construir o projeto. Eles praticamente moravam lá, das 7h até meia-noite, se fosse preciso, trazendo todas as informações. Também montamos uma equipe de comunicação, com jornalistas especializados na área econômica para que eu pegasse as informações do “economês” e transformasse numa linguagem mais simples para mostrar para o povo brasileiro.

Assim, eu pude rodar o país para mostrar ao povo o que de fato era a reforma, e porque de fato era tão importante. Porque, naquele momento, estávamos perdendo a narrativa – aquela usada pelo PT na época do Michel Temer de que a previdência iria tirar os direitos dos mais pobres, e ninguém iria mais se aposentar – uma grande mentira, uma grande falácia.

Cheguei a fazer em alguns estados caravanas em até 8 cidades, falando com jovens e representantes de movimentos democráticos, transformando essas pessoas em disseminadores das informações de verdade para combater a narrativa e vencer a esquerda. E conseguimos vencer, com 379 votos dentro do plenário – algo que nem mesmo o presidente à época acreditava que fosse possível. Mas foi possível, graças à narrativa construída através da comunicação.

Revista EsmerilVocê citou que o presidente Jair Bolsonaroa convidou pessoalmente para participar das eleições. Porém, em menos de um ano, vocês romperam publicamente. Em recente entrevista ao UOL, você chegou a afirmar que Bolsonaro se “encaminha para se tornar Dilma de sinal trocado”. O que saiu fora do tom?

 Joice Hasselmann – Sim, é verdade, ele me convidou. O que saiu do tom? Bem…o que o Jair Bolsonaro me prometeu como candidato, deixou de cumprir depois de eleito. Não foi o que prometeu a mim, como deputada Joice. Foi ao povo brasileiro. Uma parte, como foi vendida para o povo, não foi cumprida. E como disse: não compactuo com a mentira. Meu compromisso é com a verdade. Não tenho nenhum tipo de bandido, calhorda, enganador de estimação… não posso compactuar com a república da rachadinha – com filho de presidente tomando dinheiro de funcionários – isso chama-se roubo de dinheiro público. E quando me pediram para começar a defender o Flávio Bolsonaro nessas denúncias e eu me neguei, a coisa começou a ficar bastante tensa. O que defendi, ainda como líder do governo, indicam que ele tenha culpa e culpa grande no cartório – é o que indicam as investigações.

Além disso, tem outros problemas. Tem o outro filho do presidente (Carlos Bolsonaro) – totalmente transtornado, que tem claramente problemas psiquiátricos e vive se intrometendo dentro do governo. Isso veio deixando as relações muito complicadas. Por que diferente da maioria dos outros assessores, eu sempre dizia: você está errado – e está prejudicando o povo brasileiro em prol desses meninos.

Confira trecho da entrevista com Joice Hasselmann

Para coroar tudo isso, as tentativas constantes para arrumar uma boquinha para o outro filho, em qualquer outra coisa que seja. Primeiro, embaixador nos Estado Unidos. Depois, liderança do partido… ele conseguiu desmontar o único partido que era base do governo, o PSL. Então, todas as burrices políticas, não dá para compactuar com isso. Não vou mentir. Essa sucessão de erros, alguns propositais, outros não. Esse “gabinete de ódio” que vive inflamando o presidente para brigar com todo mundo – ele brigou com o governador do Rio, com o governador de São Paulo…

Eu não quero ficar gastando meu tempo. Eu quero brigar pelo País. Então, pela falta de compromisso com o Brasil, que houve esse afastamento. Não vou continuar ligada com quem não cumpre a palavra. Quem não cumpre a palavra que deu em pé, não merece o meu crédito.

……..

Dois dias após a conclusão desta entrevista, Joice Hasselmann viria a público ratificar sua opinião sobre o presidente Bolsonaro & família:

Não faço oposição ao presidente, mas às lambanças do presidente. Mas eu sou oposição declarada aos filhos dele.

fim

Revista Esmeril – 2020 – todos os direitos reservados

5 Comments

  1. Parabéns ao jornalista Claudio. Joice continua com um ego maior q sua cintura porém senti Pepa murchinha e descomposta perder o poder para a 06 foi um choque!

  2. Meus queridos amigos Esmerilanos, até agora tudo que li nas páginas dessa revista foi simplesmente apetitoso e estimulante. Porém agora vocês me submeteram a um verdadeiro pesadelo. Discorrer sobre as “fortes razões” apresentadas pela Pepa papa/sabe/tudo/ que ainda imagina que os brasileiros são um amontuado de ignorantes, foi realmente para mim uma dolorosa via crucis.
    De qualquer maneira foi uma iniciativa necessária porque expôs claramente a pequenez intelectual e a mente doentia de sede pelo poder que ela demonstrou claramente em suas palavras, muito embora imagine o contrário. Isso só pode trazer benefícios à educação de milhares de brasisleiros, os quais precisam compreender quão profundo é o fosso em que ainda se chafurda essa grande massa de plíticos inescrupulosos, novos e velhos, que deveriam ser nossos legítimos representantes.
    Acompanhei as bravatas dessa criatura nas redes sociais por alguns anos e confesso que não cheguei apenas a me empolgar por elas, como até fiz propaganda dela para muitos dos meus amigos. Hoje não consigo sentir mais nada por ela, apenas tenho PENA e lamento profundamente suas escolhas.

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