MURALHA DE LIVROS | Lançamentos da Semana

Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Destaques

Nesta Semana da Pátria, o grande destaque é um romance pantagruélico que diz muito sobre a natureza a um tempo maldita e abençoada do Brasil: Deus e o Diabo nas bandas do Recôncavo, de Daniel Emer, lançamento da Danúbio.

Nazaré das Farinhas é uma cidadezinha do Recôncavo Baiano onde o tempo parece parado, até que Juca Ferrabrás, roceiro simplório alçado a prefeito-fantoche por forças vindas de muito longe, passa a governá-la por decretos, prometendo liberdades enquanto fabrica a obediência.

Em torno dele orbita uma galeria de tipos: um espião russo, um jornalista venal que negocia verdades, um bacharel charlatão, um poeta delirante que sonha redimir a terra pela palavra, bêbados profanadores, bispos revolucionários e beatos conservadores. No outro polo, uma velha enigmática, Inhazinha de Calcutá, arrebanha os humildes ao reviver a Santidade, religião proscrita do século XVI, enquanto um padre solitário se pergunta se a fé ainda exige luta.

Quando a alma da cidade parece condenada, é esse mesmo sacerdote quem lança um grupo improvável numa missão que beira o disparate: cruzar o país atrás dos fragmentos perdidos de uma imagem sagrada, símbolo fundador de uma nação, memória que muitos julgavam extinta.

Entre a farsa e a profecia, o cômico e o elegíaco, eis um romance sobre o que se perde quando um povo esquece quem é — e sobre o que, contra toda razão, ainda insiste em ser salvo.

Destaque também para os lançamentos da Texugo e da Edições Livre. Pela primeira, o nono volume das Aventuras de Caramelo: A Independência do Brasil, de Alexandre Soares Silva.

Todo mundo fala do Dom Pedro I. Ninguém fala de quem realmente resolveu a Independência do Brasil: um vira-lata caramelo. Pelo menos, é o que ele garante.
Nesta história dentro da História, enquanto Dom Pedro se disfarça de velhinho para escapar do palácio à noite e discute com o pai por carta, Caramelo está sempre por perto, farejando o momento certo pra entrar em ação.
Aventura, humor e um pedaço importante da história do Brasil, contados por quem estava lá — mesmo que ninguém tenha prestado atenção nele até agora.

Já pela Livre, em A História do Brasil ensinada pela biografia de seus heróis Sílvio Romero, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, mostra que amar a pátria exige conhecê-la, pois não se ama o que não se conhece.  Por isso, ele contou a história do Brasil não como uma lista de datas, mas como a biografia de quem a construiu: Tiradentes, Tomé de Sousa, Mem de Sá, José Bonifácio, Duque de Caxias.
Concebida com finalidade didática e cívica, a obra apresenta a formação do Brasil por meio das biografias daqueles que encarnaram seus ideais mais elevados.
Mais do que uma sucessão de fatos, o livro oferece uma narrativa formadora, que revela o Brasil como missão histórica, terra de encontro de raças e culturas, chamada a desempenhar um papel ilustre no progresso da humanidade.
Vigorosa e profundamente patriótica, esta obra convida o leitor — jovem ou adulto — a reconhecer-se na continuidade dessa história e a compreender que a grandeza nacional começa quando cada geração decide, consciente de seu passado, elevar ainda mais o ideal da pátria.

Outros lançamentos

Pela Vide, Operação Paperclip, de Annie Jacobsen.

Ao fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos fizeram uma escolha que ainda hoje incomoda: em vez de levar todos os cientistas de Hitler ao banco dos réus, contrataram os melhores deles.
Não foram poucos, nem foram figurantes. Mais de 1.600 especialistas alemães, muitos filiados ao Partido Nazista, alguns oriundos da SS, alguns julgados em Nuremberg, foram trazidos por meio de contratos militares secretos, com passados deliberadamente encobertos. A lógica era fria: se não os recrutássemos, a União Soviética o faria. Foram esses homens que ajudaram a construir o arsenal e o programa espacial americanos.
Em Operação Paperclip, a jornalista investigativa Annie Jacobsen reconstrói essa história com rigor documental, sem panfleto e sem simplificação, seguindo a trajetória de 21 protagonistas. O resultado é um retrato desconfortável de como um Estado democrático pode arquivar seus próprios princípios quando decide que o fim justifica o silêncio.
Uma leitura indispensável para quem quer entender a Guerra Fria, a ética da ciência e o poder que os governos têm de decidir qual verdade o público pode conhecer.

Pela Sétimo Selo, O grande pescador, de Lloyd Douglas.

Simão, filho de Jonas, era o maior pescador do lago de Genesaré — bruto, incrédulo, irreverente e sem nenhum pudor disso. Dono da frota mais respeitada da Galileia, havia pouca coisa no mundo que ele não soubesse conquistar com as próprias mãos. Até o amanhecer em que uma voz, suave e inevitável como o vento sobre o mar, o chamou pelo nome na praia — e Simão já não coube na vida que conhecia. Do lago à cidade santa, pelas estradas poeirentas da Galileia e pelas intrigas sombrias da corte de Herodes Antipas, o Grande Pescador seria levado por caminhos para os quais sua força não bastaria.

Com riqueza histórica e rara humanidade, Lloyd C. Douglas recria o primeiro século em toda a sua tensão: messias, soldados, palácios, multidões e o Carpinteiro de Nazaré; mobiliza uma imaginação poderosa para dar vida ao Evangelho com personagens de força e carne próprias. Depois de O manto de Cristo, esta é a história de como Simão, filho de Jonas, se tornou Pedro, a Rocha — pois o que acontece quando até o mais forte dos homens escuta uma voz da qual já não pode fugir?

E, pela Ecclesiae, História de uma alma, de Santa Teresinha do Menino Jesus.

Aos quinze anos, Teresa Martin entrou no Carmelo de Lisieux. Aos vinte e quatro, morreu de tuberculose. No intervalo, escreveu uma das obras espirituais mais lidas da história do cristianismo.
História de uma alma reúne os três manuscritos autobiográficos que Teresa redigiu entre 1895 e 1897 a pedido de suas irmãs carmelitas. Neles, com uma doçura e uma sensibilidade extraordinárias, a santa narra a própria infância, a vocação religiosa e, sobretudo, a descoberta daquilo que chamou de “pequena via”: um caminho espiritual fundado não nas grandes penitências e nos grandes feitos, mas sim na santificação dos gestos mais comuns da vida cotidiana.
Publicada em 1898, um ano após sua morte, a obra foi um fenômeno imediato. Teresa foi canonizada em 1925 e proclamada Doutora da Igreja em 1997 — uma das apenas quatro mulheres a receber esse título na história da Igreja Católica.


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