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terça-feira, 28 junho, 2022

HUMOR丨E agora, você vai rir de quê?

Revista Mensal
Lobo
Lobohttps://www.facebook.com/atocadolobomau
Autor e criador da página @atocadolobomau Uma página de ideias, pensamentos e um pouco de poesia.

Neste ano de 2022 se completam dez anos da morte de um dos maiores gênios do entretenimento que o Brasil produziu: Chico Anysio. A morte do consagrado humorista foi uma catástrofe, pois não ceifou a vida de um único homem, como levou junto outras 209 criaturas que também deixam muita saudade. 

Nascido na cidade de Maranguape, município da região metropolitana de Fortaleza, no Ceará, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, vulgo Chico Anysio, mudou-se para o Rio de Janeiro com sua família, ainda quando criança, após a empresa de ônibus de seu pai ter sido completamente destruída em um incêndio.

O menino que sonhava em ser advogado, acabou descobrindo na escola sua habilidade natural para o humor, especialmente na arte de imitar professores, colegas e figuras da cidade.

A brincadeira foi ficando séria e então, aos 17 anos de idade, foi  trabalhar nas rádios como locutor, após ter ido excepcionalmente bem em um teste, no qual pegou o segundo lugar, perdendo para ninguém menos que Silvio Santos, por quem, aliás, Chico, até o fim de sua vida, sempre teceu os mais entusiasmados elogios. 

Um fato bastante curioso é que num teste para ator de rádio, Chico tirou o sétimo lugar, enquanto a vencedora foi Fernanda Montenegro. 

Chico Anysio e Nancy Wanderley, 1957. Créditos da imagem: Arquivo Nacional

Com o sucesso nas rádios, Chico passou de ator/locutor a comentarista esportivo, além de escrever roteiros de programas de humor para a TV e diálogos para filmes, chegando inclusive a atuar em alguns.

O primeiro personagem criado foi o Professor Raimundo, que surgiu em 1952 na  Rádio Mayrink Veiga, chegando na TV só cinco anos depois como escada para a comediante Ema D’Ávila em “Aí Vem Dona Isaura”, na TV Rio. 

Tamanha habilidade levou Chico a tornar-se diretor e criador de programas de humor da emissora, como  “O Riso é o Limite” e “Praça da Alegria”, no tempo em que toda a programação da TV era feita ao vivo. 

Foi Carlos Manga, diretor com quem Chico havia trabalhado como roteirista de 18 chanchadas para a Atlântida, quem teve a ideia de fazer um programa com Chico e seus personagens, já que naquele momento havia surgido o “videotape”, o que facilitaria o “dom da multiplicação”, juntando num único programa todos os diversos personagens do multifacetado ator comediante. 

Chico Anysio foi contratado pela Globo em 1969 e no ano seguinte estreava na emissora “Chico Anysio Especial”, o programa mensal dirigido por Daniel Filho. O sucesso foi tão grande que pouco tempo depois nascia o “Chico City”, desta vez um programa semanal responsável por tornar Chico uma das estrelas mais famosas e respeitadas da então poderosa emissora. 

Exibido às sextas feiras, o programa com quadros e esquetes ambientados numa pequena cidade imaginária durou até 1980 e consagrou personagens icônicos como o ator canastrão Alberto Roberto, o mitômano coronel Pantaleão, o velho ranzinza Popó, o alcóolatra Tavares, o locutor Roberval Taylor, e tantos outros que ainda vivem no imaginário popular do brasileiro.

Como se não bastasse ser um ótimo locutor, redator e também ator e humorista, Chico alçou outros voos lançando livros, pintando quadros, fazendo shows de stand up (inclusive no Carnegie Hall em Nova York) e até compondo músicas de sucesso, como o “Hino dos músicos”, composição em parceria com Chocolate e que acabou também se tornando o tema dos programas de Chico Anysio.

Mas como todo gênio que se preza, o humorista pensador e contestador não fazia duras críticas à sociedade apenas através de seus mágicos e eficientes personagens, mas também era provocador nas entrevistas, sempre deixando bem claro seu ponto de vista, independentemente de seguir na contramão do mainstream do qual ele fazia parte, algo raro de se ver nos dias de hoje, onde a lei é lacrar e fazer de tudo para se tornar parte da “beautiful people”, inclusive deixar de pensar através de sua própria mente. 

Talvez por isto Chico nunca tenha sido muito bem tratado pela imprensa, que sempre o incluía em confusões homéricas e mal entendidos, inclusive com colegas de profissão, como quando ao fazer uma crítica construtiva a Jô Soares, a imprensa deturpou a fala e causou um mal estar entre a dupla de comediantes, que se seguiu de longos anos de distanciamento entre ambos.

Talvez por isto Chico também nunca tenha se rendido ao quarto poder e sempre tratou jornalistas com elegância, mas nunca sendo submisso às vontades dos microfones e canetas ardilosas, tendo em vista uma das célebres declarações do humorista sobre a imprensa que o criticava:

“Quando eles passaram anos me chamando de gênio, tive a genialidade de não levar isso a sério, portanto não é agora que me chamam de idiota, que vou cometer a idiotice de acreditar.”

Ouso dizer que Chico não foi o maior humorista do país, e sim um dos maiores atores que o mundo já conheceu.

De extrema generosidade para com os seus, Chico foi talvez o homem de TV que mais empregou e deu oportunidades a comediantes novatos e veteranos, transformando alguns em fenômenos, vide o caso de Tom Cavalcante.

Para se ter uma ideia, a “Escolinha do Professor Raimundo” foi um dos programas mais duradouros da TV brasileira e entre as décadas de 1990 e boa parte de 2000 foi considerada o maior programa de humor do mundo ocidental, deixando até o poderoso Bill Cosby para trás.  A Escolinha era diária e batia 40 pontos no IBOPE, atingindo dezenas de milhões de espectadores, ultrapassando a audiência do famoso programa americano.

Professor Raimundo, a maior escada para os humoristas dos programas da TV brasileira, revelou e empregou dezenas de atores e grandes comediantes, até mesmo o lendário Mussum dos Trapalhões, descoberto por Chico e inclusive por este incentivado a criar a “linguagem” original repleta de forevis, cacildis, ironicamente hoje confundida com a tal linguagem de gênero neutro, possivelmente criada pelo catedrático “Mumu da Mangueira”, que já se mostrava anos luz à frente de seu tempo. 

Olha aí ABL, depois de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil, creio que Mussum também venha merecer uma cadeira de imortal por sua contribuição à língua, certo?

Apesar de toda relevância e genialidade, Chico Anysio viveu seus últimos anos atuando discretamente em novelas e programas de TV.  Um dos últimos e brilhantes trabalhos de Chico foi dublando o carismático velhinho Carl Fredricksen, da animação “Up – Altas Aventuras”, da Pixar, assim como coincidentemente, o último trabalho do galã Paul Newman foi dando voz ao personagem Duc Hudson em “Carros”, animação também da Pixar.

Créditos da Imagem: Guto Costa (divulgação).

A gigantesca criatura, agora com 210 cabeças, urrava de dentro da jaula da submissão e do esquecimento, mas com a certeza de uma história admirável e ter feito escola.

Quantos Chicos não estão ainda hoje por aí buscando sua oportunidade longe dos likes das redes sociais, tão prostituídas, mas perto do coração, da mente e do riso gostoso, saudável e que ainda nos faz pensar? 

No final, o que mais se destacam hoje são os discípulos de Pantaleão e de Bozó, onde o que vale é o exagero da mentira e a “carteirada” fajuta para impressionar o público ingênuo que se satisfaz com o sonho da celebridade.

Chico Anysio, como um Shakespeare abrasileirado, descreveu tão bem a alma de nosso povo com seu olhar tão preciso e poderoso.

Suas criações eram diferentes umas das outras e você nunca via Chico, mas sim os 209 cidadãos nascidos da mente deste brilhante homem. 

O mau caráter Justo Veríssimo está ainda estampado nitidamente na face de grande parte de nossa política, assim como não faltam Tim Tones, o retrato fiel dos falsos religiosos sempre com a sacolinha (e a busca por votos) à frente da fé e do amor.

O machismo escarrado e agressivo de Nazareno escancara com a estúpida e patética imagem do homem grosseiro, enquanto o irresistível Silva ainda prova que beleza não põe à mesa, quando se tem o talento e a sabedoria de compreender e tratar com elegância e respeito uma mulher. 

Nossa CBF continua dirigida por Coalhadas e nossa mídia dominada por Haroldos, que longe das câmeras querem morder você todinho em troca de uma chance e caso você não aceite, ele lhe rotula como homofóbico. Talvez pelo medo do cancelamento ou ânsia pela ambição surjam tantos Albertos Robertos invadindo o dia a dia das donas de casa e trabalhadores cansados, que tentam apenas relaxar na frente do aparelho sugador de almas.

As mensagens implícitas do véio Zuza e as explícitas de um velho Profeta nos dão a esperança de que isto ainda vai melhorar, tenhamos fé. 

Enquanto isto, nós, eternos Bentos Carneiros, vampiros brasileiros, agradecemos por Chico ter nos dado praticamente todo seu sangue.

Num universo talvez não muito distante, o imortal Professor Raimundo deve estar ao lado de seus mais notáveis alunos, como Costinha, Grande Otelo, Rogério Cardoso, Orlando Drummond, Walter D’Ávila, Zezé Macedo, Rony Cócegas, Brandão Filho, José Vasconcelos, Zilda Cardoso e tantos outros, sempre pronto para uma nova temporada de lições. 

O que muitos de nós, dez anos atrás, não esperávamos, é que poucos dias depois do Professor Raimundo ser escalado pro andar de cima, o diretor geral da escola do humor, o mestre prolífico Millôr Fernandes, também seria convocado.

O céu vai continuar sorrindo, enquanto nós por aqui ficamos na utópica espera de um mundo novo com mais Chicos e Millores. 

E a saudade ó! 

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