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segunda-feira, 29 novembro, 2021

GOVERNANÇA E ESTRATÉGIA丨A lenda de Narows

Revista Mensal

O Democrácia, os Corsários Centrais e a investida de Alex Mors

O Barco

Em Tortugas, periodicamente, o povo selecionava uma grande embarcação com o objetivo de trazer riquezas e suprimentos para a subsistência da Ilha. Alto mar, ventos impetuosos, ondas de 15 metros, este cenário, de dar enjoo a qualquer um não acostumado, era o que aguardava aqueles que se aventurassem a bordo do Democrácia. Mesmo assim os numerosos candidatos se matavam por um posto no navio, que era um dos sustentados por contribuições do próprio povo.

A tentativa sempre dava errado. Uma ilha com muitos piratas e amigos de piratas, acabava selecionando uma grande parte de malfeitores (piratas também, é claro) para a nobre missão e o resultado era repetido: promessas vãs, mentiras descaradas e poucas riquezas retornadas a Tortugas, uma vez que a tripulação  utilizava os recursos investidos (geralmente o comandante comprava a fidelidade de cargos chave), como também os tesouros encontrados apenas em benefício próprio,  sobrando no final apenas migalhas para os tortuguenses.

O Capitão Narows

Após a queda de Dilra, a feiticeira do vento (jogada em alto mar pela tripulação) e o comando provisório do vice-capitão conhecido como vampiro, emergiu a figura de um capitão: Bult Strap Narows.

Originário dos paladinos verdes, Narows era um bom homem, cheio de boas ideias, de firmes e justas intenções, seguidor do código que há muito fora abandonado por seus antecessores e opositores. O capitão começou como nunca, designando homens de confiança para seus postos.

Nada de comprar lideranças para comandar o Democrácia, Narows decidiu fazer diferente: procurou na população não mais piratas, mas navegadores sábios aptos a contribuir com sua Terra.

Logicamente, teve que fazer um ajuste ou outro, conseguindo mudar apenas uma pequena parte da tripulação e estes novos selecionados assim distribuiu: os que sabiam de vela iriam para as velas, os que eram de canhões cuidariam de canhões, os de remo ficariam nos remos e seguiu na trilha desta lógica para a maioria das funções. Antes era uma bagunça, os de remo achavam que deveriam ganhar maior parte dos tesouros, assim como todos os outros. Tudo sempre terminava em roubalheira e confusão, sobretudo no período em que Palos, o curandeiro corrupto, cuidava das finanças.

Os corsários centrais e 1ª Maldição

Sabemos que toda embarcação precisa de estabilidade para navegar, ainda mais num mar revolto como este. Narows acreditava que com cada um exercendo sua função este equilíbrio viria naturalmente, através do trabalho de homens livres em prol do mesmo dever. Entretanto, o capitão pareceu não levar em consideração um detalhe: grande parte de sua tripulação era amaldiçoada pelo feitiço da ambição desmedida, que tinha por efeito uma desconexão com a realidade que crescia paralelamente a uma fome insaciável por riqueza e poder.

Mais óbvia que a divisão de funções feita pelo capitão era o fato que as eminências pardas sedentas não gostariam nem um pouco da nova forma de comando e durante a crise de abstinência, muitos amaldiçoados começaram a se vender para coroas próximas, sobretudo as coroas de OpenSoros e de Corona Mather, estabelecendo um corsariado dentro do navio, os chamados Corsários Centrais.

Ora, os corsários são aqueles que impulsionam a própria maldição patrocinados por estes governos exteriores. Ganharam licença das coroas a que se venderam para atacar e debilitar o Democrácia por dentro, e pouco se preocupavam com sua Pátria e sua gente.

Com o tempo, a maldição foi seduzindo mais marujos naquela embarcação, homens tidos como grandes heróis da população foram caindo nela de súbito e traindo Narows: o Juíz lavador de piratas foi um grande exemplo. Havia também os oportunistas que pegaram carona na ascensão do capitão, como John Dór, o de vestes justas; o Movimento Tortugas Libres (MTL); Maion hô, o adiposo e desonesto; Frutus, o lutador de espadas; Pepita, a senhora que assemelhava a um suíno (esta ficou completamente louca); todos estes e mais outros possivelmente já entraram no barco dominados pelo feitiço, mas esconderam os sintomas até onde conseguiram.

Muito rapidamente os corsários centrais, perceberam que já eram mais da metade da tripulação e que, unidos, tão somente com o peso de seus corpos (o adiposo desonesto liderava), desequilibrariam o barco direcionando este para onde quisessem. A coalizão estava de volta, mais forte, com aliados externos e Narows nada podia fazer.

De primeira, os corsários centrais exigiram que os mais fiéis e competentes aliados do capitão fossem lançados ao mar, o próprio comandante só não foi derrubado porque o povo não aceitaria e, na verdade, era mais cômodo deixa-lo como responsável por qualquer erro do Democrácia, sendo ele culpado ou não.

Os supra-corsários e a 2ª maldição

Como se não bastasse este grande problema, outra embarcação de Tortugas (que deveria buscar os interesses da ilha juntamente ao Democrácia) estava sob domínio de um encantamento parecido, porém pior. O Justiça da Rainha Ana padecia do feitiço da megalomania ditatorial. A embarcação era o braço operativo dos 11 supra-corsários, que dividiam as decisões jurídicas importantes da Ilha.

Havia apenas um detalhe: eles acreditavam realmente que eram deuses. Também pudera, o Justiça carregava ainda as habilidades de quando se chamava vingança, suas cordas eram controladas mentalmente pelo togado a bordo e através delas os opositores eram capturados; um poder quase incomparável, limitado talvez apenas pelo código.

Com este meio de ação nas mãos do supra-corsário Alex Mors, as coisas se complicaram.

Mors acreditava ser o deus que personificava tudo que era correto. Dentro de sua mente, qualquer um que falasse ou pensasse diferente dele ou de algum dos 11, fazia da justiça uma vítima, a própria justiça o acusaria e também  julgaria ( o que não é nada justo). Isto refletia diretamente nas ações do barco: quando menos se esperava, as cordas automaticamente capturavam o suposto “criminoso”, jogando-o ao mar.

Grande parte dos supra-corsários foi colocada no Justiça por ex-comandantes do Democrácia, a maioria por Inácio Polvo, o barba negra 9 dedos, e pela já citada feiticeira do vento. Alex Mors foi instituído um dos supra por integrantes dos corsários centrais, mas todos os 11 eram diferentes de Narows, que foi nomeado pelos tortuguenses.

Por estes e outros motivos, muitos cidadãos da ilha desconfiavam de um plano dos piratas antecessores para retomar o comando do Democrácia.

O ataque de Mors

Dominado cada vez mais pela maldição da megalomania ditatorial, as ações do Justiça da Rainha Ana foram perdendo o controle, as cordas começaram a se esticar além do que podiam, atingindo cidadãos comuns apenas por simpatia ao comandante do Democrácia, que se opunha veementemente às ações dos supra-corsários, principalmente as que desrespeitavam o código.

O tempo foi avançando, os 11 foram ficando mais desorientados, Alex foi o que mais se perdeu. Mors não conseguia entender o conflito da liberdade individual com seu próprio pensamento, entrou em colapso, esticou mais as cordas. O supra-corsário havia enlouquecido, a maldição o tomou por completo, se voltou contra Tortugas a toda vela e atacou sua própria cidade.

Narows, seus apoiadores embarcados e a massa de aliados em terra tentaram impedir o ataque do tirano. Saíam a cavalo em cargas expressivas, trajando as cores da bandeira tortuguense, mas não surtiu muito efeito; pouco a pouco a população de Tortugas foi sendo caçada por crimepensar, as cordas foram se esticando mais e mais, num dos ataques o código foi rasgado, o povo ficou perplexo, Mors levantou um outro código com os mesmos escritos, porém com seu retrato na capa, indicando que poderia interpretar tais letras a seu bel-prazer.

Em meio ao impasse, Borros o supra-corsário colorido, decidiu que o baú mágico das votações que selecionavam o chefe do Democrácia não poderia ter votos registrados de maneira escrita; em vez disso, cada cidadão deveria imaginar seu voto e jogar um copo d’água no baú. Borros garantia que o resultado era seguro, mágico e rápido. Narows poderia, na próxima aclamação, sofrer um golpe e ser lançado numa ilha deserta, com um arma e uma bala só. Parecia uma articulação do ardiloso 9 dedos, dos centrais e dos supra. Os que se opuseram a Borros foram aprisionados pelo Justiça, como era de se esperar.

A Invocação Necessária

Narows não tinha mais escolha, tentava reverter por meios naturais a situação de um Democrácia amaldiçoado. Todas suas tentativas pareciam vãs; insistia no código, na ordem, coisas que aprendeu quando era um dos paladinos verdes. Contra sua própria vontade, o capitão teve que recorrer a medidas extremas ainda que previstas no código. Uma delas era a invocação Impeachmus, um recurso que retira completamente os poderes de chefes que ultrapassam seus limites. Muitos não acreditavam que funcionaria, pois o comandante precisava da união da maioria de sua tripulação para a execução da invocação.

Sabendo que grande partes dos corsários centrais possuem acordos obscuros com os 11 supra-corsários, o ato parecia difícil de se concretizar, mas o povo de Narows cria contra a esperança.

Os paladinos verdes

Alguns acreditam numa profecia narrada em Tortugas sobre os paladinos verdes:

“Quando a aurora brotar

 A terra tremerá

 O chão se abrirá

 Com esperança surgirá

 O capitão do navio

 A mão amiga apertará

 O povo salvará

 Com braço forte a desmontar

 Todo aquele que o povo massacrar

 Todo aquele que o código pisar”.

Há muitas dúvidas sobre estes versos. Até mesmo os paladinos verdes têm muito cuidado ao tratar da profecia. Uns dizem que a profecia é somente para um inimigo externo ostensivo; outros procuram não tocar no assunto; outros até acreditam. Fato  é: não é papel dos paladinos verdes navegar, mas é dever defender a Ilha.

O problema reside no limite de atuação na interseção entre as duas coisas. Ocasionalmente, um ou outro se aventura nos mares. Uns acabam amaldiçoados e viram piratas ou corsários; outros se mantém no caminho da retidão. Caso a profecia se cumprisse, ninguém saberia como seria e cada passo dos paladinos deveria ser calculado, visto que é uma das poucas instituições que goza de respeito em Tortugas.

Eu gostaria de adiantar o fim desta aventura, mas seus capítulos por vezes me escapam. O que posso adiantar é que uma coisa os tortuguenses deveriam aprender: um homem com um timão, por mais forte que seja, não comanda uma embarcação sozinho. Se a tripulação é de piratas e corsários, fatalmente o barco será  carregado para águas distantes dos interesses do povo da Ilha.

A solução não é simples, mas de longo prazo. Diminuir a possibilidade de eleger piratas, ou homens inclinados a pirataria, implica mudar a mente dos próprios tortuguenses, para que seus filhos e os filhos de seus filhos possam conduzir o Democrácia a tesouros melhores, principalmente daqueles que as traças não corroem.

Este trabalho não depende de Narows, nem dos paladinos, nem da extinção do poder de Mors, depende principalmente da coragem de cada cidadão da ilha de ir além de si mesmo construindo uma nova Tortugas.

Até a próxima…


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7 COMENTÁRIOS

  1. Caraca véio!!!! Que texto muito bem elaborado e elucidativo! Só não pode entende quem não quer! Esse texto deve ter alcance nacional!! Meu filho de 12 anos leu um parágrafo e identificou os personagens facilmente!!! Parabéns

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