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domingo, 5 dezembro, 2021

E O POVO COM ISSO? | A Liberdade dos Gaúchos

Revista Mensal
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Como o feriado gaúcho de Vinte de Setembro tem tudo a ver com esta edição da revista [Set./2021], Paulo Sanchotene escreveu uma conversa diferente daquelas em que normalmente se lê na seção “Conversar é Pensar Junto” – até por isso que veio parar aqui, na “E o Povo com Isso?“. Trata-se mais de uma aula sobre o que seria “liberdade” para os gaúchos do que um diálogo sobre o assunto. De quebra, ele ainda colocou na epígrafe um poema pertinente daquele considerado o principal poeta da cultura gaúcha: Jayme Caetano Braun. Caro leitor, aproveita!


GAÚCHOS

Jayme Caetano Braun (1994)

Venho dos anseios grandes,
das três pátrias maldomadas
que empurraram a trompadas
os rios – as pampas e os andes,
na gesta dos quatro sangues,
onde nasceu o gaudério,
irmanando o “Tio Lautério”,
ao “Martin Fierro de Hernandes”!

Trago na genealogia,
índios – negros – lusitanos,
mestiços e castelhanos,
brotados da geografia
que à hora em que me paria,
livre de mal e quebranto,
parou para ouvir o meu canto,
mesclando com ventania!

Me alargaram as retinas,
de tanto bombear distâncias,
no vai e vem das estâncias
das pampas continentinas;
herdei a cruz das batinas,
mas sou dos mesmos sinuelos,
dos “lusiadas” de pêlos
e os “dom quixotes” de clinas!


Talvez daí – a rebeldia,
baguala – que norteia,
eu que nasci da peleia,
pra andar no mundo – “a la cria”,
era meu, tudo o que havia,
na terra que já foi séria,
onde exploram a miséria
e comem a geografia!

Apesar disso – mantenho
aquelas glórias que herdei,
escravo que já foi rei,
conservo as baldas que tenho,
sempre no melhor empenho,
sem nunca perder o jeito,
no sacrossanto direito
de me orgulhar de onde venho!

Gaúcho – gaúcho – que encerra
a própria ancestralidade!
mataram-me a identidade
que foi bandeira de guerra;
o vento xucro que berra,
atesta essa realidade:
das léguas de liberdade,
não resta um palmo de terra!


– CENA –

[Saulo] Venha cá, Gaudêncio. Estou há horas para lhe perguntar isto, mas agora que chegou setembro não consigo mais adiar. Me explique uma coisa, por favor. Por que gaúcho gosta tanto de ser gaúcho? Por que vocês acham que são tão especiais? O que fazem de vocês melhores que os outros?

[Gaudêncio] Hahahahahaha!!! Mas, bah!, o que te faz ter essa impressão da gente?

[Saulo] Ah! Nem vem… Em plena São Paulo, você mesmo passou o mês com roupa de gaúcho. Ainda, como se não bastasse estar sempre com o chimarrão para cima e para baixo, você sempre defende o Rio Grande do Sul intensamente.

[Gaudêncio] Tudo bem. Admito tudo isso. Mas e por que essas coisas fariam eu me achar melhor que os outros por ser gaúcho?

[Saulo]
Se você defende e não quer mudar é porque acha bom.

[Gaudêncio] E tu, queres mudar? Se passasses a morar no Rio Grande, tu farias questão de te tornar gaúcho?

[Saulo] Não, mas eu não veria razão em celebrar o 9 de Julho, por exemplo.

[Gaudêncio] Ah! Te entendi. É uma pena. Realmente há algo de especial do lugar em que viemos. Faz parte daquilo que somos. Acredito que não defina quem sejamos, mas ajuda a formar nossa identidade. Não veria razão, como não vejo para mim, de tu teres vergonha de celebrar tua paulinidade em Porto Alegre, por exemplo. Afinal, isso faria parte de quem tu és. Há certamente pontos positivos em São Paulo – eu ainda estou tentando descobri-los, verdade, mas…

[Saulo] Pô, Gaudêncio!!

[Gaudêncio] Hahahaha! Perdão, não resisti!

[Saulo] Só você mesmo…

[Gaudêncio] Falando sério, eu gosto de ti também por seres paulista. É libertador, sabias?

[Saulo] Não entendi.

[Gaudêncio] É por haver paulistas que eu não preciso ser um. Tenho liberdade para ser gaúcho!

[Saulo] Não sei por que pergunto coisas para você. Começa com “falando sério” e termina assim…

[Gaudêncio] Eu estou falando sério, ainda que com pitadas de humor, meu caro. O contrário de engraçado não é “sério”, mas “sem graça”.

[Saulo] Eh… Sei… Tudo bem! Mas você ainda não respondeu o que há de tão especial em ser gaúcho.

[Gaudêncio] De especial, tem tudo e nada.

[Saulo] Típico… Uma resposta direta, nem pensar?!

[Gaudêncio] Mas é direta! Não tem nada de especial, pois cada comunidade é especial do seu jeito. Não tem nada de especial porque não é uma cultura única, mas é compartilhada com comunidades de outros países. Não tem nada de especial, porque povos de fronteira tendem a ser assim, misturados. Mas é especial por ser a minha comunidade, por ser uma mistura única de brasilidade e…

[Saulo] Argentinidade!

[Gaudêncio] NUNCA!

[Saulo] Hahahahahahahahaha!!!! Admita, vá!

[Gaudêncio] Jamais! Argentino é gaúcho ocidental. Eu sou gaúcho oriental. O rio Uruguai divide ambos. Somos bem diferentes!

[Saulo] “Claro”…

[Gaudêncio] Exato! Uruguaianidade seria mais apropriado. Seríamos norte-uruguaios. Se queres um termo mais amplo, que englobe os argentinos, esse seria gauchidade, mesmo.

[Saulo] Certo, certo… Me responde, então, o que vocês comemoram em setembro.

[Gaudêncio] A data é uma alusão à proclamação da República Rio-Grandense em 1835, mas seria mais apropriado chamar de “Dia do Gaúcho”. Inclusive, no Uruguai, o departamento de Rivera faz feriado no mesmo dia, mas chama de “Dia da Cultura Gaúcha”. No fundo, celebramos o Rio Grande do Sul – nossa história, nossa cultura, nossa gente… Tudo aquilo que faz de nós, gaúchos, gaúchos. O dia é mais acidental que qualquer outra coisa.

[Saulo] Por quê?

[Gaudêncio] Os farroupilhas nunca conseguiram separar o estado inteiro. O Rio Grande tem como que três partes distintas: o Sul, que é o Pampa, a Campanha; o Norte, que são as serras, as montanhas; e o Nordeste, com as regiões de Porto Alegre e do Litoral Norte. Quem se separou foi o Sul, que depois conquistou parte das montanhas, mas jamais conseguiu tomar a parte Nordeste e a capital. Porto Alegre é a “mui leal e valorosa cidade de Porto Alegre” por ter se mantido fiel ao Império. Porém, quando se fala em “gaúcho”, a referência é a cultura do Pampa, do Sul, dos farroupilhas.

[Saulo] Mas, se é assim, por que seria “acidental”?

[Gaudêncio] Tem a ver com a proclamação da República. Com a queda do Império, as províncias viraram estados. Era preciso criar símbolos que marcassem o novo estatuto. As lideranças gaúchas da época resolveram ligar-se à República Rio-Grandense de 1835. De 1845 a 1889, mal se falava na revolução no Rio Grande do Sul. Até porque se havia perdido o conflito e naquele tempo se emendava uma guerra na outra. Mas a consolidação, mesmo, veio na década de 1930. Getúlio proibira os símbolos estaduais. Só que isso criou um problema no estado dele, por causa do Centenário da Revolução em 1935. A festa seguiu adiante com a chancela presidencial, para que a oposição não se apoderasse dos festejos. Depois disso, não havia como tirar o Vinte de Setembro do imaginário político gaúcho.

[Saulo] Interessante isso.

[Gaudêncio] Eu acho. Mas isso não quer dizer que o Rio Grande não tenha identidade própria. “Liberdade” é algo muito enraizado no gaúcho. “Gaúcho” é um termo para descrever o andarilho, o nômade, o vagabundo, que perambulava pelas fartas terras do Sul sem ser servo de ninguém. É alguém que não reconhece fronteiras, que pertence ao seu próprio mundo.

[Saulo] Mas o gaúcho é tão vinculado ao chão…

[Gaudêncio] Mais ou menos. Eu me mudei, não me mudei?

[Saulo] Se mudou.

[Gaudêncio] E continuo gaúcho, não continuo?

[Saulo] Até demais!

[Gaudêncio] Obrigado! Mas nem vou falar mais para não parecer que esteja me gabando.

[Saulo] Hahahahaha!

[Gaudêncio] O ponto era “liberdade”. O gaúcho é forjado em terra sem lei. Nós fazemos a nossa vida. Portanto, não são os pedaços de chão do Rio Grande quem faz o gaúcho, mas o gaúcho é quem faz do pedaço de chão o Rio Grande. Nós levamos o Rio Grande conosco onde formos. Por exemplo, há uma música famosa cujo refrão diz assim: “Enquanto o gaúcho for visto no pampa/ Enquanto essa raça teimar em viver/ O ‘Grito dos Livres’ ecoará nesses montes/ Buscando horizontes libertos na paz.” Ilustra perfeitamente o que afirmo, não? “Buscar horizontes” inclusive descreve bem a diáspora gaúcha ou, como chamo, a metástase…

[Saulo] Hahahahahahahaha!!!!

[Gaudêncio] Amo, mas reconheço o câncer…

[Saulo] Nah! Não… Não sei o que faço contigo!

[Gaudêncio] Tu me provocaste. Só estou te contando…

[Saulo] Hahahaha! Sim, eu sou culpado. Siga, por favor.

[Gaudêncio] Buenas, a metástase criou colônias gaúchas pelo Brasil a fora. Essas terão identidades próprias, se é que já não as têm, mas essas serão variações do gauchismo. Aliás, que é herdeiro dos povos guaranis: “Esta terra tem dono”. Isso também entrou no imaginário gaúcho.

[Saulo]
Esta terra tem dono”?

[Gaudêncio] Sim, era o lema dos guaranis quando entraram em conflito com Portugal e Espanha por independência no século XVIII. A Revolução Farroupilha não foi a primeira guerra de independência dos gaúchos. Com o Tratado de Madri, os Sete Povos das Missões orientais passariam a ser território português, ao passo que Colônia do Sacramento seria espanhola. Os jesuítas espanhóis e os índios mandaram os nobres imperadores do Velho Mundo enrolarem o tratado bem enroladinho e enfiar onde não bate o sol. Aí, armou-se o entrevero. Os principais impérios do mundo à época sofreram um pouco, mas venceram as tropas lideradas por Sepé Tiaraju – o Tiradentes gaúcho. Aliás, diga-se, são essas missões que fazem os gaúchos “odiarmos” os bandeirantes; pois os paulistas invadiam o nosso território para matar os padres e escravizar os índios.

[Saulo] Sim, sim… Você gosta de falar nisso sempre que pode.

[Gaudêncio] Tu me conheces, mesmo! É importante que se siga fazendo esse registro! Mas, voltando, essas histórias é que vão formando as contradições que ultimamente conferem a identidade ao gaúcho: o nômade enraizado; o pacifista aguerrido; o tradicionalista-progressista; o separatista-nacionalista; o xenófobo-acolhedor… Essas coisas que fazem sentido para nós, mas que enlouquecem aqueles forasteiros que tentam nos entender. Mas é que a raiz comum a todas essas contradições é a “liberdade”. Não é uma liberdade caótica, mas ordenada no caos. É uma liberdade que permite que se encontre ordem em pleno caos. Porque o “gaúcho” é uma identidade forjada em terras em que nada perdura: o inimigo de ontem é o aliado de amanhã; as linhas de fronteira são demarcadas e remarcadas… Só aquilo que permanece constante são a liberdade e a busca por ordem – o que celebramos no Vinte de Setembro.

[Saulo] Te entendi. Mas e a questão do “escravo” no hino de vocês. Vi que começou uma polêmica sobre isso.

[Gaudêncio] Ah! Bobagem. Não entendem os versos “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo” e aí acabam nisso. Acham que significa que os africanos não eram virtuosos. Ridículo!

[Saulo] E o que significa?

[Gaudêncio] Não vou dizer que eu sei, pois seria mentira. Porém, eu tenho uma hipótese. Me parece fazer mais sentido que essa interpretação absurda que andam fazendo.

[Saulo] Não me enrole. Qual é a sua hipótese?

[Gaudêncio] É simples. A “virtude” da letra deve ser entendida no sentido maquiavélico de virtù. O sentido seria “povo incapaz de agir por sua própria vontade, sem depender do acaso, acaba por ser escravo“. O hino clama à comunidade política para que essa assuma as rédeas do seu próprio destino. Escravos por definição não tem controle sobre isso. Para tanto, é preciso ser livre.

[Saulo] Até que parece fazer sentido.

[Gaudêncio] Não é?! E é exatamente por ter se tomado de virtù ao proclamar a independência que o Rio Grande do Sul passou a servir “de modelo a toda Terra.” Não é preciso se submeter à tirania; é possível sair da servidão. O Rio Grande é prova.

[Saulo] Mas vocês perderam a guerra!

[Gaudêncio] Mais uma razão de o porquê aquela interpretação ser uma asneira gigante. Trata-se de uma questão universal e imorredoura. As façanhas referidas no hino servem de exemplo até para os próprios gaúchos.

[Saulo] Certo. Acho que entendi o imbróglio.

[Gaudêncio] É óbvio que o Rio Grande do Sul tem milhões de defeitos. Nossa história é escrita com sangue. Meus antepassados cometeram atrocidades. Faz-se coisas erradas até hoje. Mas quem não é assim? Na hora de celebrar-se algo, no entanto, foca-se naquilo que se tem de bom. Aí, nessas horas, sempre há quem pergunte: “Por que vós vos achais melhores que os outros?

[Saulo] Hahahahahaha!!!! Eu deveria estar preparado. Foi só eu me distrair que veio a paulada!

[Gaudêncio] Gaúcho é animal de rinha! Hahahahaha! Tchê, não se celebra o Vinte por sermos melhores do que ninguém, mas por sermos quem somos. Se nós não gostarmos de nós mesmos, quem irá gostar? Serve para quaisquer pessoas, individuais e coletivas. Ademais, quer-se compartilhar com os outros o que se tem de melhor. Já basto eu com os meus defeitos.

[Saulo] Boa!

[Gaudêncio] Te respondi agora?

[Saulo] Respondeu bem, sim. Mas vou continuar lhe incomodando por ser gaúcho.

[Gaudêncio] Hahahahaha! Faz parte. A gente cansou de querer separar. Quem quis a gente dentro da comunidade foram vocês. Nós temos contribuições positivas para fazer, mas essas vêm com um preço. Pois que agora nos aguentem. É recíproco!

[Saulo] Dá-lhe, gaúcho!

[Gaudêncio] Não precisa puxar meu saco. Já gosto de ti.

[Saulo] Sai para lá que não sou chegado nessas gauchices.

[Gaudêncio] Chê, sou gaúcho, mas nem tanto.

[Saulo] Hahahahahahha! Está certo. Faz bem! Mas, deixemos de bobagens por ora. Agora que vi que estou atrasado. Tenho que ir. Obrigado pela aula.

[Gaudêncio] Paulistas, sempre correndo!

[Saulo] É verdade.

[Gaudêncio] Vai lá. Podes colocar a culpa em mim.

[Saulo] A culpa é sempre do gaúcho!

[Gaudêncio] Sempre. Já estou acostumado. Tudo bem que normalmente é, mas o pessoal exagera…

[Saulo] Hahahahaha!!! Tchau, Gaudêncio. Até breve.

[Gaudêncio] Tchau, meu amigo. Até a próxima.

– FIM –

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