Como o barulho matou a harmonia e os surdos ressuscitaram a visão correta do mundo

O moldar da alma é a essência do mundo. Mas há quem sonhe que a essência da alma seja moldar o mundo. Escutar e compreender é diferente de proclamar e impor. Uma atitude gera laço e produz diálogo. A outra nos amarra e finda em incomunicabilidade. Uma ideia importante, mas difícil de explicar às crianças. Quando ela me ocorreu, fiz uma fábula.

Ficou assim:

“O mundo já foi moldado. Secou. Endureceu. Cada alma é o mesmo mundo que ressurge úmido, como dádiva para o pequeno artífice brincar. Mas uns secam informes e feios; e de inconformados com a desarmonia entre a beleza do todo e a feiúra de si, passam a cinzelar a marteladas a obra acabada que os emoldura. 

Ao martelar as curvas polidas do mundo, machucam o silêncio em que almas em processo de auto-polimento se alisam, aparam, recurvam. O charivari interrompe a jardinagem comum e separada; geral e irredutível de todos ali, que param seus trabalhos até que o martelador se canse, ou tenha o instrumento confiscado. 

A origem do estado é a ânsia de fazer-se bem que têm os bons; enquanto os maus aspiram perturbá-los. 

Inventaram milhões de teorias. Todas vãs. Muitas, martelos. Algumas, foices ceifadoras da paz mais inofensiva. Quando o teórico da foice uniu-se ao do martelo, um barulho ensurdecedor interrompeu longamente a serenidade em que os bons se perfaziam. Foi amplo o processo e inúmeros morreram.

Quando as almas deformadas por preguiça de auto-cultivo se deram conta que era exequível fazer o próximo à sua imagem e semelhança, interrompendo a harmonia entre as almas úmidas e a criação, puseram-se a trabalhar com furor. 

Não sabiam dar-se forma. Mas podiam fazer com que a feiúra, a deformidade, prevalecesse. A foice decepava e o martelo batia contra o mármore do mundo, a todos ensurdecendo. 

Proibidos de usufruir do silêncio, não mais se ouviam. O diálogo evaporou. A música se esvaiu. A elocução foi reduzida a músculos da boca se mexendo, sem vínculo com o som―inexistente. 

Pernas eram arrancadas aqui; cabeças, acolá; genitálias, mais à frente; cabelos, mais ao lado. O que importava era deformar e obstruir as almas de aperfeiçoar o barro úmido. Para fazer com que secassem logo, confeccionaram um grande sol, uma máquina de endurecer o barro informe precocemente. Até a batizaram. Seu nome foi mídia. 

Longamente, o plano funcionou. Lúcifer reverberava alegria. Enfim o purgatório era como os círculos mais quentes do inferno. 

Não contavam, é claro, com os surdos. Certa casta passou incólume pela grande balbúrdia. Inaptos a ouvir sons e curiosos diante do que havia, aprenderam a ver e a tocar o que pela escuta não acediam. Viram tudo aquilo acontecer vacinados contra o barulho ensurdecedor das marteladas. 

Descreveram um código-fonte. Ensinaram os filhos a decifrá-lo. Então, cavaram trincheiras ocultas e deu-se início à guerra que você nasceu para testemunhar”.

fim
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