Claudio Dirani abre a caixa preta (cheia de gel) de 1985 para mostrar como a mulher tinha mais liberdade para seguir o seu próprio caminho

Vamos brincar de jogos mentais? Então, imagine que você está em 1985 e aceitou o convite para viajar em uma geringonça estrambótica, que um visionário inglês chamado Herbert George Wells, 90 anos antes de nossa aventura, batizou de “A Máquina do Tempo”.

Só que o equipamento usado nesta fábula fora concebido bastante a caráter: com painéis, rebimbocas, botões e joysticks decorados com cores berrantes verde-limão, magenta e laranja lembra do new wave? Se você lembrou… Parabéns, a idade chegou!

Com tudo pronto, você subitamente adormece e perde a noção de espaço-tempo. De repente, ao despertar, a porta se abre e você está em 2020 – época em que o politicamente correto predomina de forma impiedosa. Sim. Quase tudo aqui é uma ofensa.

Mais sobre a era do mi mi mi adiante…

Prólogo

Antes de entrar naquela máquina, você estava em casa. Ah, sim. Você era daquele tipo que não perdia um capítulo de novela. Nada de TV por assinatura. Muito menos Wi Fi – não se esqueça!

Por este e muitos outros motivos, tratava logo de ficar com os olhos grudados na telinha para conferir os episódios de A Gata Comeu – um dos maiores hits nacionais até hoje.

Pare e pense: como seria bom poder descrever como era toda essa diversão há 35 anos, antes de retornamos aos dias em que dizer “Oi, tudo bem?” pode ser considerado um caso de grave assédio. Bem, na verdade, não viajei ao passado, mas estive lá, na colorida década de 80. Portanto… Partiu 85?

Tabefes na cara

A novela A Gata Comeu, exibida pela rede Globo entre abril e outubro de 1985, é na verdade um remake de outra produção chamada Barba Azul (1974-75) – ambas assinadas pela consagrada autora Ivani Ribeiro (A atração já foi reexibida em 1989, 2001 e 2017, sempre com ótima audiência).

 Jô Penteado (Christiane Torloni) – a protagonista da novela – é uma dondoca, filha de um rico empresário, acostumada a colecionar noivos. Tudo começa a mudar quando ela conhece, numa excursão malfadada, Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia) – professor casca-grossa que não pensa duas vezes em revidar tabefes na cara, mesmo quando aplicados por mulheres. Pesado?

NOTA IMPORTANTE: Não se esqueça: estamos falando sobre uma mulher, não um homem escrevendo sobre mulheres. Isso afasta logo acusações de que o texto é a representação de um olhar masculino. Apenas uma sátira, pura e simples.  

Azul x Rosa

Tetê e Gugu: quebra-pau sem ideologia

Nem faz tanto tempo, a ministra Damares Alves foi praticamente destroçada pela opinião pública por fazer um “gravíssimo” comentário de costumes, relembrando que meninos costumavam usar azul, enquanto as meninas vestiam cor-de-rosa.

Antes de o mundo cair sobre sua cabeça “por tal vil afirmação” (referindo-se, claro, ao mundo infantil – nunca aos adultos), retomemos os capítulos hilariantes de nosso folhetim A Gata Comeu e do bate-boca entre o empresário Gugu (Claudio Correa e Castro) e sua dondoca-mulher, Tetê (Marilu Bueno) – dois de seus personagens mais cômicos. Quando Tetê descobre estar grávida, uma batalha começa:

Gugu – O quarto do RODRIGO será AZULLLLLLLLLL porque será um HOMEM, UM MACHO, compreende?

Tetê – Não senhor, seu Gugu! Vai ser RRRRRRROSA, porque é a minha Débora. UMA MENINA!

Essa guerra dos sexos duraria pelo menos uns 20 capítulos, sem economizar em piadas e em suas resultantes gargalhadas.

As mulheres de A Gata Comeu

Nos sombrios dias em que arriscar um ordinário “bom dia” a uma desconhecida pode ser usado como provas contra um homem no tribunal, as feministas bradam que “Ser mulher é ser aquilo que ela quiser”… Contanto, claro, que essa mulher siga a cartilha feminazi.

Em outras palavras, caso a leitora de Esmeril sonhe um dia em se casar e ter filhos, pode estar neste instante cometendo “crime de lesa pátria”. Isso, claro, de acordo com o “Sacro Evangelho das Axilas Felpudas”.

De volta às cenas de A Gata Comeu, claro que tínhamos em cena mulheres fortes, decididas e modernas. Contudo, as mesmas não temiam ser o que desejavam. Elas seguiam o seu coração.

Jô Penteado, nossa anti-heroína que eventualmente se transformará em heroína no decorrer do roteiro, traz o sonho de um dia se apaixonar de verdade. Simples assim. Nada de se tornar uma presidANTA, muito menos uma neurocirurgiã para derrotar os “homens opressores”.

Na história, ela não busca sequer uma profissão, mas repete diversas vezes que pretende ser uma ótima esposa e cuidar dos filhos do professor Fábio. Não vê crime nisso. E haveria algum, por acaso?

Epílogo

Ao tocarmos a linha de chegada de mais um episódio desta CrossRoads, trago aqui duas notícias. Uma boa e outra péssima. OK. Vou dar a péssima primeiro. A máquina do tempo – aquela super colorida, do início da história – quebrou mesmo aqui em 2020. Sim, ao menos por enquanto, não será possível voltar para aquele momento em que éramos mais livres – sem o policiamento de ideias.

A boa notícia é que você pode retornar à nossa coluna o quanto quiser e rever A Gata Comeu em canais alternativos na web. Diversão politicamente incorreta garantida.

fim

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