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quarta-feira, 22 setembro, 2021

CRÔNICA丨Vênus

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Em Atenas há três linhas de metrô, não mais do que isso. Apesar dos esforços da propaganda política que alardeiam a promessa de que, dentro em pouco, os cidadãos da capital da Grécia e os turistas — principalmente os turistas — poderão se embrenhar por todos os becos da cidade milenar por alguns centavos de Euro, o fato é que isso só existe no mundo das ideias. Ir à Acrópole não é mais difícil do que escapar dos trombadinhas da Luz, da Júlio Prestes ou da Barra Funda.

Vi duas garotas que desembarcavam duma balsa oriunda da Ilha de Lesbos. Uma era alta e bastante magra; seria completamente pobre de carnes se não fosse pela fartura que ela exibia, com orgulho, circunscrita pelo tecido púrpura da parte de cima da camisa. A outra era absolutamente insignificante, tão completamente sem graça que me esqueci da sua aparência. Lembro-me vagamente que a moça bonita estava acompanhada por uma baixinha risonha. Na fila do metrô percebi, pelo flagrante sotaque britânico, que ambas eram turistas.

 Estávamos na estação Dafni, na linha vermelha de Atenas, e eu não conseguia esquecer a Consolação, na verde de São Paulo. Meu consolo foi constatar que não há barafunda na capital da Grécia; tudo é de uma organização exemplar. As garotas viajavam no mesmo vagão de metrô que eu. Observando-as não pude escapar da lembrança dos manuais turísticos e dos livros de arte da Antiguidade que eu lera, meses antes da viagem. O valor objetivo da beleza das estátuas gregas, aliás, é coisa que sempre me fascinou, desde tenra idade; desde as aulas da segunda série quando, de castigo num canto obscuro da sala de aula, eu me punha a folhear os livros esquecidos na estante da classe. Mas aquelas garotas não eram gregas. A baixinha, com certeza, não era. Enquanto viajava sentado confortavelmente no metrô de Atenas, eu me surpreendi, numa reflexão autobiográfica, pensando no fato de que sempre associei as mulheres bonitas à Grécia. “Linda como uma filha de Vênus“. A doce voz feminina que anunciava, em grego e em inglês, a chegada da estação Akropoli despertou-me do meu devaneio.

Eu, as turistas britânicas e mais uma dúzia de outras pessoas no vagão descemos e seguimos rumo à Acrópole, no topo da colina. Ouvia-se agora um burburinho crescente, comentários em inglês (nosso Latim moderno. Como decaímos!) que faziam alusão à beleza do lugar, à vista da cidade que crescia à medida que subíamos, ao surpreendente estado de conservação de alguns monumentos a despeito dos milênios. Foi como viver um sonho. Desejei estar ali tantas e tantas vezes que agora, no exato momento em que aqui me encontro, sinto como se o sonho persistisse. Aquela realidade objetiva, de tão desejada, parece ter sido sepultada pela atmosfera etérea do mundo onírico. Sempre sofri de pressão baixa. Senti a cabeça girar, ia mesmo perdendo o equilíbrio. Fui acudido por um prestativo turista português que me conduziu até um canto no qual pude me sentar. Perdi as turistas de vista.

Acho que somente o turista de Portugal fora testemunha do meu mal-estar, porque só ele me ajudara. Os outros turistas prosseguiram com a escalada até o cimo da colina, onde jazia o milenar complexo da Acrópole. A minha convalescença veio acompanhada pelo restabelecimento também da sensação de maravilhamento. Eu não chegara ainda ao topo da colina mas, do ponto onde me encontrava, pude contemplar uma vasta porção da cidade de Atenas, dos entornos da colina, no centro milenar da histórica cidade.

Nesta parte do mundo os homens, movidos pelo culto da razão, pelo amor à filosofia, pela necessidade de responderem às constantes indagações que a existência lhes apresentou, edificaram o berço de uma civilização. Eu só me dei conta de que essa civilização ainda existia quando percebi, atônito, que a moça bonita da Ilha de Lesbos descia, sozinha, da Acrópole. O grupo de turistas conversava alto em todos os sotaques cabíveis ao inglês, lá no cimo da colina. Não subi até lá, não vi o Partenon de Phideas, mas deliciei-me com os mistérios de Vênus. Descobri que na Grécia, se você leva alguém para o seu quarto no hotel, o serviço encarece numa progressão geométrica proporcional às horas de um culto à deusa do amor e da beleza.

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