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quinta-feira, 21 outubro, 2021

CRÔNICA丨Perda

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Afrânio era um aprendiz de tipógrafo na Corte que, depois do trabalho nas oficinas da Rua da Guarda Velha, ainda tinha disposição para anunciar os pregões dos jornais no Paço. O rapaz era órfão, aprendeu a lidar com as vicissitudes da vida nas ruas da capital do Império. Ser testemunha do movimento no Paço, no centro nevrálgico da política nacional era, para o jovem Afrânio, a experiência de amadurecimento que lhe infundia patriotismo e amor pelo seu país.

Não só.

Afrânio passou a nutrir um vivo interesse pela política também. Talvez o rapaz, naqueles idos de 1889, não tivesse suficiente poder de expressão para os sentimentos complexos que se apossavam de si sempre que avistava a carruagem que trazia, quase diariamente, o Imperador ao Paço. Afrânio podia dizer que sentia orgulho e uma estranha sensação de proteção, pois ver o Monarca o fazia lembrar de seu pai. O zelo do velho D. Pedro II pelos negócios do país era conhecido por todos; era do conhecimento geral que o Imperador nutria pelo trabalho uma verdadeira devoção. 

Naquele ano, Afrânio contava dezesseis anos, mas já demonstrava ter alguma experiência da vida para saber medir corretamente as proporções de uma grande perda. Seus pais, donos de uma modesta casa de livros numa das travessas da Rua do Ouvidor, morreram. Eles foram vítimas de uma epidemia de febre amarela, uma das muitas que assolaram aquele fin du siècle nos trópicos. O órfão passou a viver então na casa de um tio, nos campos de São Cristóvão, região dominada pela imponência neoclássica do Palácio da Quinta da Boa Vista. O aprendiz de tipógrafo habituou-se a ver as carruagens que iam e vinham do palácio transportando os augustos membros da Família Imperial. Do Imperador, contudo, quando muito se via, era apenas o branco das barbas. 

Um dia, depois de deixar a suntuosidade neogótica da Tipografia Nacional, na Rua da Guarda Velha, Afrânio, com um calhamaço de jornais debaixo do braço, se pôs a caminho do Largo do Paço. Era uma tarde de sexta-feira, 15 de novembro. 

Sabia-se que, nessa época do ano, o Imperador despachava de Petrópolis; o calor carioca era insuportável. O rapaz não tinha, portanto, a pretensão de ver algo interessante. Do ponto onde habitualmente anunciava os seus pregões, Afrânio passou a contemplar o Largo do Paço, a observar os transeuntes: as moças recatadas, protegidas do sol sob sombrinhas de renda à francesa; os homens de casaca, bengala e cartola; as crianças serelepes; os oficiais a cavalo; os recém-libertos que, ao aproximarem-se da entrada principal do prédio do Paço, não resistiam ao íntimo impulso de gritar um “viva a Princesa Isabel!”. Tudo isso provocava uma profunda impressão no rapaz. 

O Brasil era uma jovem nação; jovem como Afrânio. Mas contrastava com a jovialidade da nação a velhice precoce do Imperador, aquela figura austera dominada pela barba branca e pela profundeza dos olhos azuis. Afrânio, rapaz curioso, na companhia do seu tio presenciou certa vez a cerimônia de abertura das Câmaras, no Senado do Império. A figura do Monarca em trajes majestáticos, ostentando a coroa e o cetro enquanto proferia o “augustos e digníssimos senhores representantes da nação (…)”, o marcaria definitivamente, exercendo sempre, como em reminiscências, um fascínio pelos ritos da monarquia. Mas não era só isso; o jovem Afrânio sentia que ali, naquela figura humana simbolicamente adornada, estava presente não só a síntese de uma tradição, mas uma promessa, um vislumbre de paz e prosperidade para o futuro. 

Afrânio amava o Imperador. 

Depois de algumas horas no Paço, conseguiu vender todos os jornais que trouxera consigo. Exausto, dirigiu-se para o cais, a poucos passos dali, e ficou observando os contornos do castelo neogótico da Ilha Fiscal. Lembrou-se do baile ali celebrado no último sábado, das luzes magníficas, da música distante, das silhuetas das damas e dos cavalheiros dançando sob o pôr-do-sol. Por um momento, riu-se lembrando também das reportagens dos jornais sobre o evento. 

Anoiteceu. 

Afrânio seguiu para apanhar um bonde de volta para casa, em São Cristóvão. Antes de alcançar o ponto dos bondes, porém, teve uma vaga consciência do vergalhão irregular de ferro em sua nuca. Os bandidos, estudantes bêbados, levaram seus poucos pertences: um relógio de latão e uma pequena bolsa de couro contendo o montante das vendas dos jornais. Arrastaram o corpo inerte do rapaz para um canto mal iluminado do local. A guarda do Paço, que habitualmente fazia a segurança do largo, fora deslocada para outro ponto da cidade naquela noite. Afrânio permaneceu desacordado por longas horas. 

Por volta da meia-noite, um estranho movimento de tropas invadiu o largo do Paço Imperial. Homens a cavalo e a pé marchavam e faziam formação defronte da entrada principal do prédio. Antes, porém, enquanto o pobre Afrânio jazia desmaiado num canto escuro do largo, uma carruagem, oriunda da Estação D. Pedro II em missão extraordinária, trouxera a Família Imperial. 

Enquanto as imagens da injustiça que sofrera começavam a ganhar forma, Afrânio fora recobrando a consciência. O rapaz via, sepultados sob estranho nevoeiro, os vultos dos seus algozes, ouvia-os dar gargalhadas enquanto o roubavam. Banhado em suor, sentia-se mal, em estado de agonia. Subitamente, as imagens em sua mente se confundiram num emaranhado de lembranças longínquas. O pobre rapaz via cenas do velório dos seus pais, podia ouvir o choro convulsivo das mulheres e sentir o peso das mãos que depositavam condolências sobre os seus ombros. Afrânio quis chorar, pensava em tudo o que perdera na vida, em todas as dificuldades que enfrentara. 

Escorando-se na parede do prédio do Paço Imperial, conseguiu recompor-se e colocar-se de pé, percebendo, em ato contínuo, uma estranha movimentação na entrada: guardas batendo continência e apresentando armas. Ele conseguiu distinguir a figura de um senhor de barbas brancas, casaca e cartola acompanhado de uma senhora baixa. Eram o Imperador e a Imperatriz. Em seguida, outro casal surgiu, o Conde d’Eu e a Princesa Isabel. Todos foram conduzidos pelos guardas até uma carruagem que partiu dali sob escolta. Afrânio achou tudo aquilo muito estranho. Como não houvesse mais bondes àquela hora, decidiu partir, ainda que não fosse para casa. Varou a noite caminhando pelas ruas da Corte, pensando em tudo o que perdera. 

Charge da Revista Argentina El Mosquito, publicada em 24 de Novembro de 1889, sobre o Banimento da Família Imperial após a Proclamação da República no Brasil.

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