19.4 C
São Paulo
quinta-feira, 28 outubro, 2021

CRÔNICA丨À altura

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Nasci em meados dos anos 1990, não me lembro se fui testemunha dos últimos comerciais de cigarros na tevê, mas o quadro pitoresco do atrito entre aqueles corpos ensaboados em disputa frenética pelo sabonete que caíra no fundo da piscina ainda reverbera na minha memória. Da minha percepção infantil, eu tinha a profunda e estranha sensação de que aqueles corpos molhados faiscavam no frêmito do atrito; a água parecia ferver, ebulir. A piscina do Gugu, aquela imoralidade fascinante, era o terror das famílias. Sobretudo das famílias súditas do moralismo fingido.

Na escola, durante um longo período, a era do ensino fundamental, fui vítima de uma implacável perseguição. Um garotinho, um grumete de sete, oito anos que não sabia defender-se das constantes investidas dos outros garotos, todos mais velhos, do ginásio. A gênese das perseguições era o gozo que os algozes sentiam ao bulir com um crentinho, um certinho incapaz de revidar à altura, de contrapor os ataques com a atitude necessária. Não. Revidar com chutes, socos, pontapés, mordidas, cusparadas e impropérios de deixar vovós moralistas escandalizadas era uma realidade que só existia como abstração — deliciosa abstração — na minha mente infantil.

Esta lição tomada em tenra infância revelou-me algo fundamental sobre a dinâmica das perseguições: elas só se mantêm até que o perseguido tome uma resolução. O ataque não é a melhor defesa, é a única defesa possível. Apesar da venda fácil do estereótipo dos cristãos dos primeiros séculos como os cordeirinhos facilmente conduzíveis para o fio do machado, eu não acredito nisso. Impossível. Simplesmente não posso crer que aqueles cuja religião e moral fizeram-se presentes na cultura, na política, nas artes e em todas as esferas da sociedade de maneira definitiva comportavam-se como cordeiros fracos e indefesos ante lobos ferozes. Essa imagem é de uma ingenuidade que chega às raias do ridículo.

Li que, durante os séculos do domínio muçulmano na Península Ibérica, ser cristão era sinônimo de ser guerreiro — literalmente. A precisa ser defendida, não só no campo da apologética, no calor das discussões teológico-filosóficas, mas nas situações mais ordinárias do cotidiano; na vida escolar, por exemplo.

Vida escolar, aliás, também deve preencher os verbetes dos dicionários de sinônimos como uma referência para guerreiro; um estudante é um guerreiro. Se tem ou convicções que, ainda desprovidas de uma substância doutrinária, valem por ela, o estudante tem de defendê-las. Há professores e camaradas de sala ávidos por destruí-las.

Aconteceu que, de volta à sala de aula depois do recreio, um colega, garoto da minha faixa etária, interpelou-me: — “Você é crente?” Naturalmente, o meu colega queria saber se eu professava a Fé Cristã; ele usava o substantivo Crente como sinônimo de Cristão. Cresci no Brasil, aqui as pessoas mudam os nomes das coisas sem atentarem-se para o fato patente de que as coisas não mudam. Um católico é um crente, um protestante é um crente, um judeu e, quiçá, um muçulmano também são crentes. Apesar de nem todos crerem em Jesus, o Christo, todos creem no seu Pai, o Criador. A pergunta do menino não me causou estranheza, eu percebi, de imediato, que o grumete estava prospectando mais uma oportunidade para zombar de minha .

— “Cala a boca, moleque!” –, respondi. A minha resposta desencadeou uma reação estranha no seu rosto. Sua testa franziu-se de súbito, numa contração muscular brusca; ele parecia sob o efeito de uma grande vergonha ou indignação. Talvez fosse um misto dessas duas sensações. Maior e mais robusto, o valentão ferido em seu orgulho partiu para me pegar. Foi a medida de tempo exata do meu algoz levantar-se para cair: a porrada que eu lhe desferi no meio da cara mostrou, eficientemente, o seu devido lugar. Não fui p’ra diretoria, não senhor. A professora, mulher linda que alimentou durante muito tempo a minha imaginação, também era crente.

Esmeril Editora e Cultura. Todos os direitos reservados. 2021
- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

CRÔNICA丨Perda

Afrânio era um aprendiz de tipógrafo na Corte que, depois do trabalho nas oficinas da Rua da Guarda Velha,...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img