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domingo, 5 dezembro, 2021

CONVERSAR É PENSAR JUNTO | Liberdade: uma carta ao leitor

Revista Mensal
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Uruguaiana, 20 de setembro de 2021.

La libertad, Sancho, es uno de los mas preciados dones que a los hombres dieron el cielo; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida… ¡Venturoso aquel a quien el cielo dio un pedazo de pan sin que le quede obligación de agradecerlo a otro que al mismo cielo!
(‘Don Quijote de La Mancha‘, Cap. LVIII)

Prezado leitor,

Espero que esta mensagem te encontre bem.

Peço-te escusas para publicar um ‘Conversar é Pensar Junto‘ diferente este mês. Ao invés de apresentar uma conversa entre dois personagens, gostaria de aproveitar o tema desta edição e tomar a liberdade de conversar diretamente contigo.

Contudo, antes de entrar no assunto propriamente, é mister fazer um esclarecimento. Afinal, há quem possa pensar: “Mas como pode se tratar de uma conversa, se é só o autor quem fala?” Para eles, respondo que tal é sempre o caso. Por exemplo, em todas as edições em que esta coluna foi publicada, posso garantir-te que só eu falei.

É fato de que alguns textos foram inspirados em conversas que tive com outras pessoas, mas nenhuma foi caso de transcrição direta. No fim, as histórias aqui contadas foram todas criadas por mim. Eu sou sempre ambos os personagens. Portanto, só o autor fala.

Ainda assim e no entanto, sempre trata-se de uma conversa. Mas não me refiro aquela mostrada entre os personagens, mas esta que estamos travando agora. O autor e o leitor conversam. Permite-me, por favor, explicar.

Antes de mais nada é preciso reconhecer que o primeiro leitor de qualquer texto é o próprio autor. Eu preciso entender aquilo que eu mesmo expresso. Não basta escrever, é preciso ler o que se escreve.

Escrever, portanto, jamais é um monólogo. Trata-se de um diálogo em que uma mesma pessoa exerce dois papéis diferentes: de escritor; e de leitor. O escritor pára de falar no momento em que termina de escrever. Quando o leitor lê, já não é mais o escritor que fala, mas o leitor. De aí, inclusive, que vem o ditado “quem escreve lê duas vezes.

Agora, um texto não está limitado ao diálogo do autor-escritor com o autor-leitor. Fenômeno similar ocorre quando lemos texto de autoria de outrem. Afinal, um texto não está limitado ao diálogo do autor-escritor com o autor-leitor.

Um novo diálogo acontece a cada nova leitura. Pois o leitor também exerce dois papéis diferentes: de leitor; e de escritor. Todo leitor é um co-autor da obra que lê. Poder-se-ia afirmar, inclusive, que “quem lê escreve duas vezes”.

Ler é um diálogo entre o co-autor-leitor e o co-autor-escritor sobre o texto lido. Da mesma maneira que o autor precisa entender aquilo que expressa, o leitor precisa entender aquilo que foi expresso. A única forma de fazer isso é assumindo o lugar do escritor; é tomando aquelas palavras como se fossem nossas. Até porque, ao lermos, elas se tornam nossas. Ler é necessariamente um ato de apropriação.

Vale a mesma regra para o falar e o ouvir. Ouvir é igualmente um ato de apropriação. Quem ouve torna-se co-autor daquilo que é falado. Noutras palavras, todo diálogo é uma interação entre dois monólogos simultâneos em que os interlocutores exercem os papéis uns dos outros.

É exatamente por isso que “conversar é pensar junto”. É preciso que os participantes do diálogo se ajudem mutuamente na assunção desses papéis. Em suma, numa conversa, temos obrigação de auxiliar o outro a assumir o nosso papel e vice-versa; ao mesmo tempo em que temos que tentar assumir o papel do outro.

Por quê?! Como?!”, deve perguntar-se perplexo o leitor mais exaltado. É assim: neste momento em que lês este texto, já não é mais o signatário desta mensagem que expressa as palavras aqui transcritas. És tu, leitor, quem o faz. Se eu me expresso, o faço através de ti. Tu não me lês, nunca; mas o ‘leitor-Paulo’, que é diferente tanto do ‘Paulo-escritor’ quanto do ‘Paulo-leitor’. O leitor inescapavelmente reescreve tudo o que lê.

Agora, feita essa introdução, posso adentrar no assunto que realmente quero tratar: LIBERDADE. Algo que para o fidalgo Don Quixote de La Mancha, o maravilhoso personagem criado por Miguel de Cervantes no início do século XVII, seria “um dos dons mais preciosos que o Céu teria regalado aos homens;” algo que nenhum bem terreno, nenhum tesouro – ainda que mais extenso que as terras e os mares juntos – é capaz de igualar-se.

Contudo, como bom Sancho que sou, ainda que tenha tendências quixotescas (sim, admito), preciso podar a declaração daquele nobre cavalheiro. É uma obrigação que passa de Sancho a Sancho há séculos!

Se é verdade que “pela liberdade, assim como pela honra, se pode e se deve aventurar a vida”, é preciso cuidado na hora de buscá-la. Afinal, não queremos acabar escravos dela.

Mas que papo mais orwelliano esse?!” pode vir a exclamar um leitor atento. “Por um acaso insinuas que ‘Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força’?”, como consta na famosa obra ‘1984‘ de George Orwell. Mesmo que nem todo o leitor tenha feito essa ligação, trata-se de uma objeção importante. Afinal, eu afirmei mesmo que liberdade pode vir a escravizar. Não é exatamente como no lema do governo da fictícia Oceania do livro, mas é próximo o suficiente para obrigar uma explicação.

Por liberdade devemos entender um meio; e não, um fim. Trata-se de um meio fundamental, mas ainda assim um meio. É na liberdade tomada por fim que reside o perigo de acabar-se escravo. Essa “liberdade-fim” é escravidão. A liberdade tomada como um fim em si mesma escraviza. Dessa confusão é que o Grande Irmão se aproveita para impor o regime político da Oceania no clássico orwelliano. Por isso mesmo, é relevante saber distinguir um caso do outro.

Quando se diz, como fez Quixote, que a liberdade é de imensurável valia para os homens, precisamos ter a noção de que aquilo que faço e alcanço livremente é superior ao que faço e alcanço sem liberdade. Essa é a “liberdade-meio” à qual Quixote se refere, pois “feliz é aquele a quem o Céu deu um pedaço de pão sem que fique obrigação de agradecer a outro que o próprio Céu.” O fim, no caso, é o pão. A diferença está no meio.

A liberdade-fim é aquela que tomo como permissiva para fazer tudo e qualquer coisa que eu bem entenda. A liberdade-meio é entendida como um requisito essencial para realização do bem. A liberdade-meio é primordial para o nosso desenvolvimento, o nosso amadurecimento como seres humanos. A liberdade-fim acaba levando-nos ao caminho diametralmente oposto.

Um sujeito que usa a sua liberdade para consumir bebidas alcóolicas socialmente, sem alterar o comportamento, sem prejudicar terceiros e nem a si mesmo, entende que o embriagar-se não é o objetivo daquela ação. Aproveitar e compartir aquele momento com outros até poderia ser feito sem álcool, há quem faça, mas a bebida é parte do ritual. Então toma-se a liberdade de usá-la.

Por outro lado, a um sujeito alcoólatra até pode ser-lhe dada a liberdade de exercer seu vício; mas essa liberdade passa a ser um fim em si. Afinal, está-se falando de alguém que não consome bebida alcóolica, mas deixa-se consumir por essa. Tal liberdade, ao ser praticada, leva o sujeito a tornar-se escravo de algo; no caso do exemplo, de bebidas alcóolicas, mas pode vir a ser qualquer coisa: sexo, dinheiro, jogo, poder, vanglória…

Vi certa feita uma frase atribuída ao Papa João Paulo II que resume isso tudo o que falei: “liberdade não consiste em fazer o que gostamos, mas em ter o direito de fazer o que devemos.” Ficou claro? Faz sentido?

Se ficou claro e faz sentido, posso agora fechar a mensagem. Como leitor, tu necessariamente te aproprias daquilo que lês. Nesse sentido, o texto passa a ser teu. Tu tens a liberdade de lê-lo e utilizá-lo como bem entenderes. No entanto, há uma maneira certa e uma maneira equivocada de exercer tal liberdade.

O bom leitor, o reto leitor, o leitor verdadeiro, é aquele que busca “pensar junto” com o autor. Esse leitor usa sua liberdade para conversar. Ainda que venha a concluir que o texto não passe de uma grandessíssima bobagem, apenas chegara a tal conclusão ao dialogar com o autor da melhor maneira que lhe foi possível. O bom escritor escreve sob uma perspectiva semelhante – até para evitar que escreva bobagens homéricas; mesmo que venha a falhar eventualmente.

E tal postura, correta, segue sendo apropriada para qualquer interação – escrita, oral, e simbólica; presente e ausente; etc. É preciso ser livre para realizar essas tarefas, e o homem livre precisa querer realizá-las bem. Caso contrário, acaba inclusive deixando de ser livre.

Cordialmente,
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

186 Anos da Proclamação da República Rio-Grandense: “Liberdade, Igualdade, Humanidade”
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1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Quixosancho, agradecido pela lúcida missiva. Li e reli pensando liberdade espiritual, meio por excelência para conduzir uma familia ou uma nação. Agradecido pela reflexão motivacional.

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