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terça-feira, 28 junho, 2022

ALTA CULTURA丨O épico ucraniano que feriu de morte a honra russa

Revista Mensal
Bruna Torlay
Bruna Torlay
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.

Por ironia do destino, não é de agora que ucranianos têm a desfaçatez de desafiar os russos. No campo do humor e na seara da história, Gógol o fez mais de uma vez. O poema épico Almas Mortas, uma das principais obras de Nikolai Gógol, deixou o crítico literário Bielínski tão louco de fúria que o fez pôr na literatura uma profecia da volta e meia conturbada fraternidade entre eslavos da pequena e grande Rússia:

“Se o senhor ama a Rússia, alegre-se com meu ataque a seu livro!” 

Mas isso foi em 1847, perto do final de sua vida, quando já se tornara o brilhante satirista que viria a se imortalizar pelo clássico O Inspetor Geral, ao lado do já mencionado poema sobre as aventuras de um Tchitchikov, o adorável patife que passa a perna, com um golpe frio, trabalhoso e magistral, na burocracia do império. Almas mortas não é apenas a narrativa dessa saga; é também a melhor obra literária sobre o laço entre corrupção e Estado já escrita, mesmo que nunca tenha sido terminada.

Voltemos no tempo um instante. A fúria do proto-esquerdista Bielínsky, para quem o conservadorismo de Gógol o desclassificava como artista de gênio (antecipando em um século a mesquinhez corriqueira de inúmeros universitários mundo afora), foi precedida, contudo, pela mão pesada do Czar. O romance histórico Tarass Bulba, o Cossaco, escandalizou a Rússia em 1835, sendo censurado pelas autoridades do império por seu caráter (todos sentados?) “demasiado ucraniano”.

O autor foi obrigado a reescrever a novela, e a consequente segunda versão, de 1842, aprovada pela censura russa por não ser tão ucraniana assim, teve fortuna no ocidente. Hoje conhecemos ambas e podemos compará-las. O crime de Gógol foi ter representado os cossacos com o senso de aventura, coragem, autodeterminação e liberdade que os caracterizava. O império vivia em apuros para manter a coesão do vastíssimo território, contendo povos com laços sociais específicos, vínculos a regiões específicas e aliados a grã-Rússia, mas sem espírito de vassalagem. Delinear em literatura uma identidade nacional russa era algo apreciável aos planos do império. Registrar que a Rússia agregava grupos sociais distintos; que era uma miscelânea de regiões disparatadas, por outro lado, talvez divergisse da necessidade de manter coesão social por parte do império.

Da pequena Rússia

O fato de Gógol ser ucraniano não passava despercebido por críticos que o apreciavam. Enquanto Bielinsky o recriminou amargamente por Almas Mortas e O Inspetor Geral, poema épico e peça teatral cujo cerne comum é a degradação moral transbordante da sociedade russa, Konstantin Aksákov o elogiou efusivamente por sua capacidade de ter revivido a arte de Homero em seu poema:

“(… ) sua mão transfere o objeto para o mundo da arte sem deformá-lo nem um pouco; aqui ele vive em liberdade, elevado ainda mais; não são visíveis nele as marcas da mão que o transferiu, e por isso a reconhecemos. Todas as coisas que existem, justamente por isso, possuem uma vida, um interesse de vida, por menor que sejam, mas apreender isso está ao alcance apenas de um artista como Gógol; e realmente: tudo, seja a mosca que importuna Tchitchikov, os cães, a chuva, os cavalos, o malhado e o do assessor, e até mesmo a sege, tudo isso, em todo o mistério de sua vida, é alcançado por ele e transportado para o mundo da arte; e novamente, apenas em Homero é possível encontrar uma obra assim.”

Konstantin Aksákov. Algumas palavras sobre o poema de Gógol As aventuras de Tchitchikov ou Almas Mortas

O modelo máximo

Numa coletânea intitulada “Arabescos”, publicada em 1835, Gógol escreveu um elogio a Púchkin, o poeta que abriu caminho, segundo Dostoiévski, para a grande literatura russa que estava por vir.


Desenhos feitos por Púchkin no rascunho de seu poema Poltava (1928), sobre Maria Volkônskaia, esposa de um dos dezembristas que o seguiu em seu exílio na Sibéria em 1812. Imagem de arquivo

Nesse elogio, escrito 45 anos antes da homenagem feita a Púchkin por Dostoiévski (1880), Gógol associa o poeta à própria nacionalidade russa:

Perante o nome de Púchkin, imediatamente ocorre a idéia de poeta nacional russo. De fato, nenhum dos nossos poetas está acima dele, e ninguém, mais do que ele, pode ser chamado de nacional; esse direito decididamente lhe pertence. nele encerrou-se, como em um léxicon, toda a riqueza, força e flexibilidade de nossa língua. ele é maior do que todos; foi o que mais expandiu suas fronteiras e demonstrou toda a sua vastidão. Pushkin é um fenômeno extraordinário e talvez o único fenômeno do espírito russo: é o homem russo em ascensão, ascensão esta que talvez se manifeste daqui a duzentos anos. a natureza russa, a alma russa, a língua russa e o caráter russo se refletiram nele de forma tão límpida, com uma beleza tão depurada, quanto a paisagem que se reflete na superfície convexa do cristal óptico.   

Mas de que Rússia fala o moralista da Pequena Rússia, ou Ucrânia, tão atento ao amálgama de regiões de que a tal nação era então constituída?

“Se ele pinta uma cena de combate entre um tchetcheno e um cossaco, seu estilo é um raio; reluz como o brilho de um sabre e voa mais rápido do que a própria batalha. Púchkin é o único cantor do Cáucaso: este arrebata toda a sua alma e sentidos; o escritor está imbuído e impregnado de seus entornos divinos, do céu astral, dos esplêndidos vales da Geórgia e dos magníficos jardins e noites da Criméia”.

N. V. Gógol. Algumas palavras sobre Púshkin.

Para Gógol, o poeta nacional era justamente o conhecedor profundo de cada específica região de que o império era feito, e por entender, à época, que era nos valores da tradição russa que o império deveria se fundar, deixando de lado a tentação de importar da Europa modos de viver e agir estranhos aos eslavos; por essa razão é da abrangência dessa poesia que Gógol reconhece a vastidão da terra que julgava também a sua.

O moralismo candente de suas últimas obras refletia sua própria devoção religiosa; jamais uma espécie de refletido desprezo pela possibilidade de inspirar aos russos, por meio da literatura, valores adequados, como queriam Bielínski e os apreciadores do iluminismo francês, para quem a arte e o teatro deveriam funcionar como instrumentos civilizatórios – usurpando a função da religião na vida humana, coisa que o conservador Gógol rejeitava claramente.

A sátira cruel e acerba das vilezas reais circulantes naquela vasta paisagem completada pela burocracia paquidérmica e ineficiente do império não significava ódio à nação; muito menos um manual de instruções de boas maneiras, como era do feitio de Voltaire. A miséria humana estava por toda parte porque pertence à condição humana chafurdar na miséria. Essa visão de mundo, associada à poesia, resultou nas obras que desagradaram aos utopistas de plantão. 

O “eslavófilo” Konstantin Aksakov

Voltando ao ensaio de Aksákov, Gógol, poeta que elevou às alturas a literatura russa por reviver a arte de Homero, carregava um traço especial, um elemento novo: 

Há outra circunstância importante conjugada ao fenômeno de Gógol: ele é da Pequena Rússia. O caráter artístico dela, profundamente encerrado no autor, manifesta-se em numerosas canções sonoras e leves, vivas e ternas, de formas arredondadas; a canção grã-russa não tem esse caráter. Mas a Pequena-Rússia, parte viva da Rússia, foi criada pelo potente espírito grã-russo; sob sua proteção, ela pôde manifestar um caráter próprio e entrar, como elemento vivo, na vida comum da Rus, que abarca igualmente todos os componentes e não se chama mais Grande Rússia (se assim fosse, ela teria se mantido em sua unilateralidade, e as partes restantes teriam se relacionado com ela como vencidos diante do vencedor), mas sim Rússia. 

A formação do império, a defesa da legitimidade da preponderância da Grande Rússia sobre as demais regiões (mesmo a Ucrânia, vista como a mais importante entre elas), é entrelaçada nessa elogiosa crítica ao poema de Gógol:

Obviamente apenas escrevendo em russo (ou seja, na língua grã-russa), pode se constituir um poeta da Pequena Rússia; apenas em russo ele pode e deve se constituir, sendo um cidadão da Rússia comum a todos, que lhe traz seu elemento particular e instila uma nova vida em seus membros. Agora, com Gógol, evidenciou-se o caráter artístico da pequena Rússia a partir de suas maravilhosas canções, de seu maravilhoso princípio artístico, surgiu, finalmente, um gênio russo, quando a vida comum do Estado abraçou todos os seus membros e permitiu que ele se manifestasse em proporções colossais; um novo elemento da arte desaguou amplamente na vida da arte na Rússia. Gógol, que nos trouxe esse novo elemento, oriundo do país, da parte mais importante de uma pátria múltipla e que, consequentemente, tanto expressa e justifica (não no sentido de pedir desculpas, mas de explicar) esse país, Gógol é russo, inteiramente russo, e isso fica mais visível em seu poema, tomado pelo conteúdo da Rus, de toda a Rus, e toda ela, como um todo titânico, revela-se nele colossalmente. 

Aksákov. Algumas palavras sobre o poema de Gógol

Breve, Aksákov vislumbrava em Gógol a grandeza que este vira em Púchkin. Mas Bielínski, lembremos, discordava:

“Se o senhor ama a Rússia, alegre-se com meu ataque a seu livro!” 


O crítico literário Vissarion Belinski

O mordaz crítico dos pecados humanos, o piedoso escritor da Pequena Rússia não parecia ao admirador de Voltaire o professor mais adequado para ensinar aos russos o grande papel histórico que os esperava:

“O povo russo não é assim; a exaltação mística não está de modo algum em sua natureza; ele tem bom senso, lucidez e espírito confiante demais para isso, e talvez aí, justamente, se encerre a grandeza de seu destino histórico no futuro.”

Vissarion Belínski. Carta a Nikolai Vassílevitch Gógol

A carta de Belínski a Gógol é um bombardeio sem fim, cujo impacto sobre os leitores afeitos às obras de arte autênticas é zero. É um exemplo de como o debate político sobre a governança do império, ancorado na reflexão sobre que projeto corresponderia melhor à essência do homem russo (uma coisa ligeiramente abstrata, considerando o conjunto de povos, e separados por distâncias de grandeza impressionante, que o império abrangia); como tal debate político pôde impregnar-se a tal ponto na mentalidade de alguns críticos, que perderam a oportunidade de entrever a brilhante fortuna de Gógol – pequeno russo e grande russo a uma só vez e em cada uma de suas obras.

É irônico que Almas Mortas tenha permanecido inacabado. Porque a história da corrupção de fato nunca terminou nas terras onde se passam as aventuras de Tchitchikov. E os tipos humanos que pontuam a obra permanecem submersos num oceano de misérias. 

Camponeses fugindo do Holodomor. Estimativas apontam que mais de 3 milhões de ucranianos morreram de fome entre 1932-1933

No poema, os camponeses [mortos] que [para o censo russo, que não se atualizava todo ano] viviam nas propriedades dos fazendeiros, os quais recebiam, por cada cabeça viva, do governo um quinhão, são vistos como um bom negócio pelo anti-herói. Ele percorria paisagens comprando… almas mortas –consideradas vivas nos arquivos do Estado, que por um ano destinariam ao novo proprietário, Tchitchikov, o quinhão correspondente ao número de almas adquiridas. Não é exatamente virtuoso, como modelo de alto funcionário. Não é exatamente elogioso, do ponto de vista da propaganda cabível a um projeto político acarinhado por intelectuais apaixonados pela engenharia de uma civilização grandiosa. 

Gógol não era propagandista; intelectual orgânico; engenheiro social ou fiscal da virtude alheia. Apenas um brilhante poeta com aguçadíssima percepção da realidade. Aquela propriamente humana, que ora se manifesta numa guerra entre antigos aliados que já souberam se ver como irmãos. Na saúde e na doença. 

Há forma mais explícita de amar o próximo do que transformar sua pior vileza em matéria de riso? Ah, como a literatura é superior à guerra…

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