De todas as obras publicadas pelo escritor Yuri Vieira, 49 anos e muita história pra contar, aquela de título mais excêntrico revela de forma nítida o seu talento literário. A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande é uma compilação de contos não necessariamente humorísticos, embora o humor permeie todos eles, estrelados ou pontuados pelo sábio e divertido Dr., sempre pronto a iluminar a cena entre uma e outra baforada de cigarro eletrônico.

Engana-se quem espera ler mesmices ou lições de moral escancaradas. Yuri não é idiota nem pretensioso. Segundo ele próprio, se um dia o foi, a longa estadia na casa do sol como secretário de Hilda Hilst acabou logo com o problema – experiência brilhantemente transformada em literatura, diga-se de passagem, no ótimo O exorcista na casa do sol, relatos do último pupilo de Hilda Hilst.

Considerando o talento literário uma das maiores dádivas humanas, fomos entrevistar Yuri Vieira, um raro autor capaz de produzir boa literatura no decadente cenário cultural contemporâneo, na esperança de descobrir como ele próprio entende o assunto.

Se não arrancamos do autor fórmulas secretas de sua escrita irresistível (é muito difícil parar de ler algum de seus livros, uma vez que o abrimos), as entrelinhas de seu discurso testemunham que a alta cultura não está morta. Pelo menos, não completamente. E o resquício de alma que sobrou dela, Yuri agarra o tempo inteiro para transformar em ouro.

Sem cortes nem edição primorosa — é difícil fazer cortes no discurso coeso e imprevisível de Yuri — compartilhamos aqui, na íntegra, esta conversa.

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