O fio que ata o maior propagandista das Luzes aos conspiradores de plantão. Ou: como o Cândido de Voltaire inspira Luciano Ayan a brincar com o caráter de Sérgio Moro


Voltaire, o “herói” anti-heroísmo

Voltaire é o herói dos liberais. Quem gosta mesmo de filosofia dificilmente cai de amores por Voltaire. O cara era engraçado. Mas foi também um impostor. Falava de obras que nunca leu com base em conversas de salão. E vilipendiava a reputação de filósofos que não entendia. Leibniz é a vítima mais célebre

No romance Cândido, ou o otimismo, Voltaire desenha uma caricatura do pensamento metafísico de Leibniz, para quem o mundo tal como existe é o melhor dos mundos possíveis. O raciocínio conciliatório de Leibniz ecoa um juízo presente em Tomás de Aquino:

Pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer jorrar o bem. 

Tomás de Aquino. ST, I, Q1, A3

Cândido, ou o otimismo

Voltaire traduz esse juízo profundo na seguinte fábula: era uma vez um garoto ingênuo chamado Cândido. Após ser educado por um filósofo que lê o mundo conforme a ideia de harmonia pré-estabelecida, ele sofre as piores calamidades ao se aventurar por aí e chega à conclusão que seu mestre estava errado e, na impossibilidade de ser feliz, resta-lhe trabalhar para comer e pagar as contas. 

O romance é o desgaste violento e sistemático de sua esperança no bem. Voltaire vai rasgando o entusiasmo do garoto em dois, quatro, oito, dezesseis; inúmeros pedaços, até ela desaparecer, reduzindo a pó a ideia, formulada por Leibniz, de que o mundo não poderia ser melhor do que é.

Voltaire recusava ver no mundo o bem que existe acima de nós. Porque via males. Um terremoto aqui, uma guerra religiosa ali. A natureza humana é falha; e a natureza física, imprevisível. O mundo não é o sonho de um homem. É o mundo. Mas para Voltaire, os sinais do mal e da dor mostravam que era estúpido crer no amor de Deus pelos homens.

Distorcendo a realidade com holofotes

A sátira de Voltaire é eficaz. Não dá pra não rir. Mas é fácil notar que ele era injusto. Como se faz piada? Exagerando, distorcendo, omitindo.

A caricatura é a intensificação de um traço marcante. Já implica em deixar de lado a complexidade do que se retrata pelo efeito cômico que o exagero de uma parte isolada produz.

Eric Auerbach, um célebre crítico literário, procurou compreender a alma de cada autor analisando em detalhe um breve trecho de sua obra. No clássico Mimesis, a representação da realidade na literatura ocidental, analisa o estilo de Voltaire também. Como representava ele a realidade? Apontando um holofote a um pedaço dela, distorcendo-o bem e dizendo, às gargalhadas, que o pedacinho distorcido era igual ao todo. 

Holofote é o jato de luz que faz UM ator sobre o palco parecer mais relevante que o teatro inteiro atrás. A função do holofote é chamar a atenção do público para um ponto e cegá-lo para o resto. Fazer uma face parecer o todo.

Ficção, mentira e propaganda

A narrativa tal como aparece diariamente na imprensa empresta a técnica literária da distorção―com a diferença que o alvo é o capital político de alguém e a finalidade, o assassinato de sua reputação. Na prática, contudo, trata-se de apontar o holofote a uma face de modo a fazê-la parecer o todo.

Os especialistas em identificar narrativas usam outros termos. A face hiper-valorizada pelo holofote é um frame, ou moldura. A historinha que se conta para convencer o público de que ela é igual ao todo é a narrativa. 

O estilo de Voltaire legou à história da guerra política uma das armas mais eficazes no embate cotidiano mediado por veículos de informação-cúmplices. A platéia é o povo. O operador do holofote, o criador de frames (recortes, faces, cartas, molduras). O narrador da peça, a imprensa.

Dois mil anos após Platão ter expulsado os artistas da cidade, Voltaire lhes reabriu as portas da República. A Ficção toma conta do debate político. A publicidade empurra a virtude pro canto. A língua solta do povo faz a mentira iluminada passar à frente da verdade opaca. E o teatro reina.

Voltaire é o pai da narrativa como o século XVIII foi o pai da imprensa.

Luciano Ayan contra Sérgio Moro

O cândido Sérgio Moro é um homem de boa fé. Ele acredita no Brasil. Confia no presidente. Age inspirado por virtude. O típico homem de bem que acende em nós esperança no mundo.

Mas Luciano Ayan, no escurinho de seu irrelevante perfil no Twitter, externa a direção e a meta da Nova esquerda. Há quem o julgue inepto por valorizar capital político (daí seu aceno ao centrão e sua aberta defesa da “negociação política”) e não olhar para capital eleitoral. 

Contudo, acompanhar sua atividade frenética na rede dos 280 caracteres é antever a fonte das narrativas difundidas por figuras mais conhecidas da kombi, como Felipe Moura Brasil, Renan Santos, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Nando Moura, Danilo Gentili e isentoleft unida.  

Ayan trabalha em várias frentes. Analisando sua atividade no dia 23 de janeiro, identificamos nos mais de 70 tweets pelo menos dez molduras (quadros) e cinco narrativas derivadas dessas molduras. A carta do autoritarismo é repetida 19 vezes diretamente, ressurgindo nas narrativas derivadas. A carta Moro submisso é lançada 5 vezes. As cartas risco à democracia (exposta mais 5) e direita democrática (8 lances) entram com as anteriores para estruturar a narrativa de que Moro é um cão vira-lata humilhado pelo autocrata Bolsonaro, que o usa para disfarçar as pretensões autoritárias de seu governo.

Moro não é seu único alvo, mas é aquele ao qual limitaremos a exposição do jogo. Porque não há dúvida de que se trate de um jogo. Verifique, leitor, a prática do esquema resumido no parágrafo anterior:

A entrevista no Roda-Vida, criticada até mesmo pela imprevisível Janaína Paschoal, caiu como uma luva para a narrativa que Ayan tenta emplacar:

Ayan aprendeu com Olavo de Carvalho o valor da literatura. Depois rompeu com o ex-professor, mas manteve na memória as táticas de guerra política que remontam a Voltaire e foram, dos anos 60 para cá, ampliadas e aperfeiçoadas por seus herdeiros ― os profissionais da narrativa que definiram a ascensão da New Left americana. 

Ayan tem em comum com Voltaire uma auto-confiança infinita em sua capacidade de persuasão. Já o talento, talvez resida aí a imensa distância entre o propagandista-literato e o melhor amigo do MBL. 

Voltaire sabia que rir das desgraças de Cândido era mais fácil que entender a filosofia de Leibniz. Daí a adesão do público. Ayan pelo visto não entende que engolir sua caricatura forçada é mais difícil que admirar a visível virtude do ex-juiz elevado a ministro.

Voltaire jogava para ganhar. Ayan blefa alto para perder. Ele abraçou a carta do autoritarismo para desgastar a imagem do governo. A sua caricatura de Bolsonaro é a de um autocrata no estilo Erdogan. Para a narrativa fechar, para dar à sua peça coerência, ele é obrigado a converter a lealdade de Moro ao presidente em subserviência. Assim, o herói nacional é rebaixado a “capacho”.

Sai da frente, Moro!

A meta da Nova esquerda para 2020 é dissociar a imagem de Moro da imagem do governo. Os mais prudentes, para tirá-lo do caminho, apenas recomendam que ele seja indicado ao STF. Ayan dobra a meta: decide desdourar a reputação do homem mais amado do Brasil, na dificuldade de dissociar sua atuação e competência do sucesso do governo.

Breve, o problema da kombi é um só: como reduzir a pó a credibilidade de Jair Bolsonaro? Tirando Moro de cena ou fazendo-o pastar. No mundo imaginário da narrativa, claro. Criar uma fábula escorada em faces do real, na dificuldade de manipular a única realidade existente ―na qual, ao que parece, a relação de Moro com o presidente é ótima. 

Leibniz foi um filósofo. Voltaire, um panfleteiro. Se Luciano Ayan não tem nada de filósofo e é um panfleteiro com baixo engajamento, Sérgio Moro é um exemplo de virtude. Os ataques vão continuar. E os resultados pífios, provavelmente também.

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

1 Comments

  1. Agradeço que tenha gente com vocação para se aprofundar na vida intelectual e ler relatorios do IPCC ou a obra de Voltaire.
    Um ciêntista e pesquisador faz um excelente serviço de utilidade pública ao divulgar o conhecimento ciêntico atraves de analises simplificadas e coerente de milhares de artigos e dados que analisa em seu trabalho contidiano, fazendo aumentar o alcance da divulgação da informação com base na Ciência de qualidade.
    Um pensador, um individuo que dedica a vida a estudo e reflexão de filosofos e outros pensadores, alguem que se deu o trabalho de estudar os classicos ao fazer um artigo para revista eletrônica, presta o mesmo tipo de serviço de utilidade publica.
    Eu acho incrivel os artigos dos professores pesquisadores Thiago Maia e Luiz Carlos Molion, tento ver todos os videos e palestras que fazem e me ajudam a compreender e fundamentar sobre assuntos aos quais eu nunca teria paciência de ficar lendo 50 artigos, 1500 paginas de relatorios do IPCC. Aquecimento global causado pelas emissões antropogênicas é bullshit, engenharia social e nada de ciência a suporta. E para mim, já basta.
    Da mesma forma, acho muito interessante a correlação de Voltaire como pai da narrativa, leio com satisafação o artigo aqui escrito, mas jamais dedicaria meu tempo lendo a obra completa de Voltaire. Prefiro somente os ler bons artigos de divulgadores de alta cultura. Isentolandia, NewLeft, são fisológicos (aproveitadores egoistas, sem nenhuma convicção real nas ideias que defendem) que tem como unico objetivo a queda de JMB, usando para isto narrativas diversas, para tentar emplacar eleitoralmente o partido NOVO, para voltar com as velhas práticas da politica de coalisão. E ja me basta para ignora-los completamente.

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