Algumas histórias de amor terminam em tragédia, outras num dramalhão ao estilo novela mexicana. Há ainda as que são estórias, fabricadas para nosso entretenimento, ou ensinar virtudes através da arte. Mas e quando terminam como um épico em plena realidade? 

Dante foi do Purgatório ao Inferno e deste ao Paraíso movido por curiosidade e amor por sua Beatriz, talvez nessa ordem. Mas há quem tenha movido o maior Império de nossa história conhecida, para reinar ao lado da hipnótica amada. E quando o amor se confunde com a luxúria e a inveja, por uma atração mútua pelo poder, quem senão Shakespeare para misturar os fatos à fantasia da dramaturgia? Quem senão o anti-herói para narrar em primeira pessoa os eventos que marcaram o auge (ou o começo do fim) dos desbravadores do mundo conhecido? 

E o que essa Odisseia tem em comum com o tema deste mês da Revista Esmeril (Golpes de Estado)? Prezado leitor, por que a pressa? Acompanhe este artigo, tentando não tropeçar nas emoções, e serás esclarecido. 

Shakespeare: entre a realidade e a fantasia

O gigante dramaturgo inglês imaginaria que séculos depois uma atriz do porte, beleza e elegância de Elizabeth Taylor  (foto) daria vida à Rainha do Egito? Bem, sequer devia imaginar que um dia haveria o Cinema, quiçá a televisão; e talvez fosse encerrado pela Coroa em alguma jaula, como insano e inimigo da sociedade. 

Há quem alegue que a Rainha era negra, ou ao menos mestiça, acusando Hollywood de racismo pela escolha de Liz Taylor. Ah, se por um momento abandonassem a militância juvenil e deixassem ao léu os sentimentos pueris, talvez soubessem que ela era da família de Ptolomeu, portanto, grega. Grande Grécia, que conseguiu elevar os seus ao topo do Egito, e fazer os incautos da modernidade acharem que sua figura mais lendária (ao menos no imaginário popular) fosse natural da nação em que reinou. 

Fosse o século XX, seria Rainha de algum país europeu, educada numa universidade britânica. Talvez T. E. Eliot a transformasse em poesia, ou a sagacidade de Mário Faustino (tão jovem dos ares de lima despencou) analisasse sua história, pelos olhos do próprio Eliot ou de Ezra Pound. 

Ainda confuso, caro leitor? Oras, tantas sugestões e o enigma se mantém? Claro que não. Aquele que subestima a inteligência de seu leitor, não merece escrever. 

Quando Shakespeare escreveu Antônio e Cleópatra, estes repousavam há mais de 1.600 anos, vítimas do desgraçado destino a que suas ações os conduzíram. A mesma Cleópatra que fora de César, passaria aos braços de Antônio e terminaria morta pelo veneno de uma víbora (segundo a história popular) escolhida por ela para livrá-la da vergonha de ser um troféu na procissão triunfal de Otaviano Augusto. Os suicídios dos amantes, ele pela espada, ela pela víbora, são o ápice da obra do dramaturgo inglês, que centra a peça na relação de paixão, política e luxúria entre os dois. 

A história segundo a historiografia

Cleópatra, que tivera um filho de Júlio César, via Otaviano, sobrinho do ditador romano (e emprego ditador no sentido moderno da palavra) assumir o legado do tio, o Império por este solidificado, ao invés de Cesarião, que saiu de seu ventre, fruto de sua relação com César. 

Porém, não era sozinho que Otaviano governaria. Era a época do Triunvirato. Otaviano precisava dividir seu poder com Marco Antônio e Lépido, o primeiro grande general e ex-lacaio de seu tio, o segundo figura obscura, que perde o poder e cai em ruína após cogitar um golpe com o sobrinho do grande César. 

É nesse contexto que a Faraó se entrega, ou antes hipnotiza, a Marco Antônio, menos sagaz e mais Bruto que seu amante romano anterior; porém, mais fácil de controlar pelas paixões em comum. Enquanto César teria levado a grega que reinava no Egito a Roma, em duas oportunidades (46 e 44 a.C), Antônio fincaria seu espírito nas terras férteis do Nilo. 

Dessa união nasceram os gêmeos Alexandre e Cleópatra Selene II, e o caçula Ptolomeu Filadelfo. Enquanto Antônio se entregava aos prazeres na cama da Rainha, sua esposa Fúlvia perecia em Roma, o que o obrigou a retornar ao centro do Império, para alívio momentâneo de Otaviano, futuro Augusto. 

O Diário do Imperador

Caio Suetónio Tranquilo (69 d.C – 141 d.C), grande escritor e historiador romano, afirma que Augusto (imagem) nos deixou uma autobiografia. Em 1204 d.C este diário seria copiado, mas só em 1984, durante uma reforma no Mosteiro de São Cirilo Metódio, ele seria encontrado. 

Após a autenticação por especialistas, coube ao professor Allan Massie traduzir essa obra de monumental importância historiográfica. Claro que há aqueles que ainda questionam, apesar da exatidão com relaçaõ à descrição de Suetónio, o estilo e os detalhes históricos, entre outros aspectos―talvez seja mais fácil negar a grandeza do outro a construir a própria… 

A admiração que Augusto nutria por Marco Antônio, talvez fruto de alguma curiosidade desdenhosa original, é confessada pelo Imperador, que se emociona sobre o corpo do derrotado, após o suicídio típico de um romano de seu tempo considerado honrado. 

Augusto narra até um estupro dentro de sua barraca, que teria sofrido pelas mãos de um embriagado Antônio. A força empregada por este para submeter um jovem de compleição frágil e saúde duvidosa é vívidamente narrada. E após essa violação, conta num tom romanceado que dormiria junto a Antônio, sentindo seu hálito de bebida. Porém, identificamos na narrativa o retrato de um Antônio viril, e não resta dúvida de haver certa paixão de Augusto por seu “algoz”, quando o Imperador indaga que não teria sido tão ruim assim e nos sugestiona crer que teria se entregado a Antônio, mesmo que este não usasse de força. 

Ascensão

A historiografia legada através dos séculos trouxe aos nossos tempos o sobrevivente diário do Imperador Augusto, mas também o Magnum Opus de Suetónio: “As vidas dos Doze Césares”. Há também registros poéticos como “Fastos”, de Ovídio, além de historiadores como Tácito, Tito Lívio, Patérculo, oradores como Cícero e Catão etc. 

O que sabemos, e o próprio Augusto registrou em seu diário, também confirmado por Suetónio e outros, sobre o Triunvirato? Bem, após o assassinato de Júlio César, nos Idos de Março de 44 a.C., se segue terrível guerra civil, na qual seriam vitimados Marco Bruto (talvez filho de César), Décimo Bruto (de quem Augusto fora amigo e cuja traição jamais perdoaria), Cícero (a pedido de Marco Antônio, atendido por Augusto) e muitos tantos cidadãos romanos. 

Após um período de conflitos e hostilidades, Otaviano, Marco Antônio e Lépido firmam um acordo de mútuo apoio e divisão do poder. Uma lista com aqueles que seriam exterminados foi combinada entre os integrantes do Segundo Triunvirato

Até parentes e amigos foram cedidos para aplacar a sede de vingança e capear a estrada ao poder em Roma. Esses assassinatos de inimigos políticos entraram nos anais da história como ‘Proscrições’. 

Como já informado, Lépido estava numa posição de subsidiário e em 36 a.C. é acusado por Otaviano de tentar um golpe contra Roma, por não querer lhe entregar o território da Sicília sem receber de volta os territórios de Hispânia e Gália Narbonense. 

Lépido acaba humilhado quando suas tropas apóiam Otaviano e este o exila, lhe deixando o título de Pontifex Maximus¹; por clemência ou demonstração de poder? Mostrava ao Senado que nem o Pontifex Maximus estava fora do alcance de seu poder? Talvez quisesse se mostrar capaz de alguma moderação, para ludibriar o Senado, como confessa ter feito várias vezes em seu diário. Ao final da República, para que Senado? Possivelmente para figuração. O povo queria se sentir na mesma Roma de sempre e precisava ser acostumado aos poucos? Augusto flerta com essa idéia e a Pax Romana² alcançará tal resultado. Através da paz e da prosperidade, cravou suas garras ao poder, enquanto o povo cantava feliz a morte da própria liberdade. 

Mas e Antônio? Mostrou hostilidade e chegou a preferir Lépido; por amor à liberdade e instituições romanas? Mas apoiou César. Tinha receio do ressentimento de Otaviano pela violação de outrora? Mas este não aparentou ter mantido ou manifestado ressentimento, pelo contrário. Então, seria a sanha pelo poder, talvez apreendida de César, ou subjugada durante a ditadura desse e agora renascida pelas guerras e oportunidades? Cleópatra pode ser a chave para destrancar as portas da mente do General, Cônsul e Triunviro romano. 

Luxúria e Traição

“Cada começo contém uma semente de um novo fracasso, mas isso não é desculpa para não começar”

– Virgílio

Para abrir este capítulo, ninguém melhor do que Virgílio, amigo de Otaviano quando este já é Augusto e protegido de Mecenas, amigo promíscuo do Imperador desde a adolescência e grande protetor de artistas. A imagem da última visita de Augusto ao amigo doente, quase cadavérico e provavelmente sofrendo de alguma doença venérea, é mórbida e piedosa. 

Retomando as relações entre Antônio e Cleópatra. O futuro Imperador demonstra jamais ter aprovado tal união. A Rainha havia seduzido até César, que faria do bruto Marco Antônio? Otaviano conhecia a embriaguez do aliado e sua queda pelos prazeres do corpo. Temia que fosse presa fácil da sedutora Cleópatra? 

Fúlvia não parecia daquelas mulheres que sabiam prender o amor de um homem, mas antes de o submeter, à força, e lhe usurpar a liderança de homem; parece que Lívia, a última esposa de Otaviano, em cujas veias corria o vigoroso e vaidoso sangue da Família Cláudia, tentava seguir esse caminho, mas seus esforços malogravam e lhe restava fazer greve de sexo contra Otaviano. 

Fúlvia era mãe da então esposa de Otaviano, Cláudia Pórcia. Mas suas atividades tentando controlar a política de Roma e, principalmente, as regiões rurais onde Antônio assentou os veteranos, levou ao divórcio de Otaviano com sua filha e ao enfrentamento numa Guerra Civil. As ações de Fúlvia foram para conseguir a atenção do marido, então na cama de Cleópatra? Para tomar o poder e o forçar a voltar para si? Que seria de Cleópatra, caso Fúlvia não fosse derrotada? Plutarco³, em ‘Vidas Paralelas’, levanta essas questões, mas não as responde. 

Antônio não enviou ajuda militar à esposa e se demonstrou envergonhado, mas voltaria a Roma por ocasião da morte de Fúlvia, no exílio, por uma doença súbita. Por que voltou? Obrigação e senso de honra? Talvez para expiar seu pecado, numa época sem cristianismo. 

O fato é que Otaviano o convenceu a casar novamente, mas com uma romana. A escolhida para ele? Otávia, irmã do futuro Augusto, que se esforçaria para manter o cunhado longe dos encantos da grega, em solo egípcio. Mas a paixão… Ah, a paixão, ou possivelmente paixões comuns, a luxúria, o desejo do viciado pela substância de sua perdição… Como frear o ímpeto? Impedir o encontro e a união de dois espíritos ansiosos pelos mútuos prazeres? Talvez o medo, talvez um plano, talvez o conhecimento do destino que acometeria os dois amantes; por fim, talvez a decisão de ocupar o vácuo de poder que fatalmente surgiria do desfecho desse drama real. Otaviano agiu para trazer Antônio à razão, ou para o incentivar a dar vazão aos desejos reprimidos e às frustrações do novo casamento? 

O – inevitável? – reencontro dos amantes mostrou a Otaviano que aquela aliança não seria desfeita senão com derramamento do sangue dos apaixonados. Mas como agir sem levantar suspeitas do Senado? Ou incitar o povo à indignação pelo assassinato do mais próximo (de um) amigo de César? Daquele que tentou coroar o grande César⁴. Antônio dependia dos recursos de Cleópatra para fazer suas guerras aos Partas e a quem mais fosse conveniente à grega. Não tardou e a oportunidade apareceu…

Antônio se separa de Otávia e casa com Cleópatra. A honra do sobrinho de César estava manchada; a ameaça pairava sobre Roma; as chamas da traição consumiriam a cidade, seus cidadãos e domínios. Ao menos foi essa a propaganda que Otávio, em seu diário, informou ter utilizado. Só propaganda, ou perigo real? Antônio desobedecera ao Senado quando tentou tomar a Gália Cisalpina de Décimo Bruto à força, e seria derrotado em Módena pelas tropas de Otaviano. Porém, este também desobedeceria ao Senado ao não entregar suas tropas para que Décimo Bruto mantivesse seu território, e firmou o acordo que levaria ao assassinato deste e de vários Senadores, nas Proscrições. Por que Otaviano significaria ao Senado e ao povo romano a salvação, e Marco Antônio a desonra e a destruição? 

Otaviano estava em Roma, era exímio orador, estratego e político, sabia ser tão populista quanto seu tio. Antônio era bom orador, quando queria, e demonstrou isso no funeral de César⁶ (imagem), mas estava no Egito, participando dos prazeres de Cleópatra, e não esqueçamos da descrição que dele faz o futuro Augusto: bruto, beberrão e viciado; um insano quando se trata de Cleópatra (Augusto deixa transparecer essa impressão ao transcrever uma conversa com Marco Antônio, após a morte de Fúlvia, em Roma). 

A descrição de um admirador, um violado (e enciumado?), um político hábil, interessado em ter o poder só para si, mas de um romano; seria parcial ou totalmente fidedigna? Antônio talvez se ache no controle da situação e usando de Cleópatra e seus recursos, mas algum dos interesses que o moviam eram diferentes dos interesses da Rainha? 

Ambos se preparam para a guerra, mas dois perecerão estoicamente (antes mesmo do estoicismo deixar de ser sentimento e ser organizado em filosofia) e um dominará o mundo, pois o mundo era Roma. 

Queda e Morte 

A guerra começou em 32 a.C e terminou em 30 a.C. Otaviano derrota Antônio e Cleópatra e creio não ser necessário entrar em detalhes, pois sabemos o final da história. 

Antônio não recebeu as tropas que Otaviano lhe prometera para a invasão da Pártia, em 37 a.C, mesmo sendo cunhado desde 40 a.C e tendo duas filhas com Otávia. Com isso, se voltou para Cleópatra e dela obteve os recursos que precisava. Como podem ver, só no ano seguinte Lépido cairia e ainda correriam mais quatro anos até a nova Guerra Civil. 

Assim como dizem que Stalin se surpreendeu com a invasão de território Soviético por Hitler, ou como o ataque de Pearl Harbor seria o estopim para a entrada americana na Segunda Guerra Mundial, e em todas essas ações o antigo aliado jogaria o outro contra si, as ações de Otaviano para supostamente impedir a relação de Antônio e Cleópatra, levaram este a aprofundar tais relações. Porém, Otaviano não estava imbuído de qualquer ideologia, como os atores dos casos citados. 

Com todo o receio que mostrava quanto a Cleópatra, Otaviano criou a situação que levou Marco Antônio de volta ao Egito. Acima questionamos as intenções e motivações do herdeiro de César, com esta informação, parece que começamos a elucidá-las. 

Otaviano derrotou a rival, como talvez nem Fúlvia imaginaria. Onde a ex-sogra falhou, ele saiu vitorioso. Porém, a tristeza em seu discurso frente ao corpo do derrotado mostrava algum carinho remanescente e a dor pela morte de um grande romano; o que não o demoveu a impedir o que seguiria. 

Assim como Romeu morre pelo veneno e Julieta pela sua adaga, Cleópatra e Antônio morrem pelas próprias mãos: ela pelo veneno, e ele pela própria espada. Onde aqueles morreram pela incapacidade de viver um sem o outro, estes se mataram para evitar a desonra; ele pela derrota, ela para não ser humilhada como objeto do triunfo na procissão de Otaviano em Roma. 

Os quatro são vítimas de suas paixões, mas um casal está em meio ao conflito de famílias, outro é consequência de intrigas, vontade de poder e conflitos de facções. Neste, não há possibilidade de conciliação. 

Destruição de um legado

“Desta forma, os céus garantiram à família de Cícero os atos finais da punição de Antônio”

Plutarco, Vidas Paralelas: Antônio

O filho de Marco Túlio Cícero, conhecido por Cícero, o Jovem, conseguiu do Senado que as estátuas de Antônio (Imagem) fossem destruídas e que jamais alguém da Família Antônia pudesse utilizar o prenome Marco novamente. 

Na guerra de propaganda, Antônio acusara Otávio de ter forjado papéis de adoção de César. Após a morte de Cleópatra, Otaviano poupou os filhos dela com Antônio da pena de morte, mas os exibiu em sua Parada Triunfal, em Roma, e mandou matar Cesarião, seu primo, filho legítimo de César. Otaviano acusara Antônio de possuir moral duvidosa, pois deixou a esposa (Otávia) em Roma para se satisfazer numa relação promíscua com Cleópatra; algo que não fez quando a esposa desse era Fúlvia. O vitorioso poupou as sobrinhas e o sobrinho, que nasceram do casamento de Antônio com Otávia, mas o filho mais velho do derrotado, Marco Antônio Antilo, foi assassinado com truculência dentro do Cesareu⁷, enquanto implorava por sua vida. 

Conclusão

Otaviano, e partir de 27 a.C Augusto, com a desgraça de Marco Antônio obteve o poder total e reuniu em si praticamente todas as funções administrativas de Roma. Com isto, terminou a República e iniciou o Império, onde o Princeps – primeiro entre todos, em tradução livre – governaria com total poder. 

Embora tenha financiado e protegido poetas como Virgílio e Horácio, principalmente após a morte de Mecenas, também exilou Ovídio e até a própria filha e a neta. 

Roma viveu período de paz e prosperidade, sem guerras, de 27 a. C a 14 d.C, quando morre este Imperador. A política externa de Augusto se baseou em fortificar as fronteiras dos territórios pertencentes a Roma, evitando ao máximo qualquer expansionismo. Na política interna, usou sua autoridade para exilar, prender, desmoralizar e até mandar assassinar seus desafetos, mesmo que pertencessem a alguma família tradicional, ou à sua própria. 

No período de grande paz, prosperidade e consolidação territorial, a mão pesada do Imperador poderia ser sentida por qualquer cidadão. Seu sucessor foi o filho adotivo Tibério (42 a.C – 37 d.C). 

Augusto não economizou esforços na obtenção e consolidação do poder, nem poupou quem pudesse minimamente lhe trazer obstáculos ou constrangimentos. Antônio não era Santo, tampouco Cleópatra parecia menos sedenta do que o amante e seu rival. Por isso, ainda que na peça de Shakespeare possamos ter algo de um amor heróico, de final estóico, e um anti-herói em Otaviano, a realidade está no conflito, na guerra, na luta incendiária pelo poder, nos Golpes de Estado dentro dos Golpes de Estado cuja única e verdadeira vítima foi Roma. 


Notas

[1] Pontifex Maximus, era a designação do Sacerdote Supremo do colégio dos sacerdotes, a mais alta dignidade na religião romana;

[2] Pax Romana foi o período entre a declaração do fim das guerras civis, em 28 a.C, por Otaviano, lhe rendendo o título de Augusto, e que se estendeu até a morte do Imperador Marco Aurélio, em 180 e.C. Havia paz, pela força, e prosperidade entre a elite e veteranos no campo, pela autoridade;

[3] Plutarco (46 d.C – 120 d.C) historiador, ensaísta, biógrafo e filósofo grego;

[4] Episódio pouco tempo antes do assassinato de Júlio César, no qual Marco Antônio oferece um Diadema ao ditador, que o recusa três vezes, sob aplausos do público;

[5] Em sua Autobiografia, Augusto conta que em conversa com Marco Antônio, este lhe confessou que estava bêbado durante a cena de entrega do Diadema, ordenada por Júlio César para verificar a aceitação de sua possível coroação como Imperador. O ditador teria se enfurecido ao perceber que essa idéia não era bem aceita pelo povo. A lembrança dessa confissão de Antônio deu a Augusto a diretriz de como agir para quebrar aos poucos essa resistência e se tornar Imperador de Roma.

[6] Após o assassinato de Júlio César, Marco Antônio discursa em seu funeral, erguendo a toga ensangüentada de César. O discurso de Antônio insuflou a multidão contra os “libertadores”, que assassinaram César, e até incendiaram as casas de alguns. 

[7] Cesareu era um templo romano dedicado ao culto imperial.

Referências 

  1. Massie; Allan, Augusto, o Imperador Deus, Ediouro, Rio de Janeiro, 1ª Edição, 2005;
  2. Suetónio, Caio; As Vidas dos Doze Césares, Atena Editora, São Paulo, 5ª edição, 1956, tradução de Sady-Garibaldi;
  3. Goldsworthy, Adrian; Em nome de Roma, Editora Crítica, 1ª Edição, 2016;
  4. Goldsworthy, Adrian; Antônio e Cleópatra: A história dos amantes mais famosos da Antigüidade, Editora Record, Rio de Janeiro, 1ª Edição, 2018;
  5. Plutarco; Vidas Paralelas, Ediciones la Biblioteca Digital, Espanha, 2012, tradução do grego por Antonio Ranz Romanillos;
  6. Shakespeare, William; Antônio e Cleópatra, Editora Peixoto Neto, São Paulo, 1 ª Edição, 2017;
  7. Horácio/Ovídio; Sátiras; Os Fastos, W Jackson, Coleção Clássicos da Jackson, Volume IV, São Paulo, 1ª Edição, 1948, traduções de António Luís Seabra e António Feliciano de Castilho;
  8. Tácito; Anais, W Jackson, Coleção Clássicos da Jackson, Volume XXV, São Paulo, 2ª Edição, 1950, tradução de J. L. Freire de Carvalho;
  9. Cícero, Marco Túlio; Orações, W Jackson, Coleção Clássicos da Jackson, Volume IV, São Paulo, 1ª Edição, 1948, tradução de Padre António Joaquim. 
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