Beira à redundância tecer comentários sobre a personalidade, os interesses e as realizações de um autor que os inscreveu ele mesmo nos prefácios ou posfácios às próprias obras. A tal ponto que só explica o horror da classe universitária brasileira por Olavo de Carvalho uma grandecíssima dose de má vontade.

Não é um ser humano difícil de ler, sobretudo porque escreve muito bem e o conhecimento de si vai registrado nos escritos. Todo intelectual médio, isto é, pessoas que partilham com boa parte da sociedade um insuperável horror à reflexão e à leitura, tem ainda a opção de ver em vídeos as pistas que conduzem à sua alma. Já o intelectual supostamente rigoroso, interessado unicamente em meditações profundas, poderia recorrer ao expediente de matricular-se no curso on-line de filosofia para saber se o homem tem ou não talento.

Recursos para observar, ouvir e compreender Olavo de Carvalho não faltaram, nos últimos 30 anos. Faltou boa vontade mesmo. Nos últimos dez, contudo, a mesa virou e o reconhecimento, antes adstrito a alguns intelectuais aptos a compreendê-lo, tem se ampliado dia após dia. Em especial à geração que conta, hoje, de 30 e 40 anos.

Eu faço parte dessa geração. Como muitos, entendo o valor de Olavo de Carvalho. Daí este tributo, do qual o ponto alto é o retrato que nos pinta, aqui, Olavo de si mesmo. Esta entrevista ocorreu dia 13 de abril de 2020. Transcrevo-a aqui praticamente inteira. Por uma misteriosa felicidade, considerando a maneira descombinada como as colaborações a esta edição surgiram, ela serve de introdução a absolutamente tudo o que se lerá nas seções do presente número.


Para mim é difícil começar porque, semana passada, relia o Jardim das Aflições para preparar esta entrevista e, ao terminar a leitura, eu pensei “Caramba! Isso aqui é um clássico! É tão errado o que fazem com esse autor!” Talvez tenha sido a melhor obra escrita nos anos 90. Não sou aluna do senhor; o senhor pode até dizer que suas obras publicadas são polêmicas; mas eu penso “Caramba, dá pra perceber o pensador que tem por trás de uma obra dessas”. Por isso eu pergunto: qual foi a reação do senhor, quando essa obra foi publicada nos anos 90 e a repercussão foi silêncio, raiva, etc.? Por que, tudo bem que eles fossem imbecis, mas não é possível que não tenham entendido a grandeza do livro.

Olha, eu não esperava outra coisa. Vou ser muito sincero. Eu nunca tive nenhuma ambição de ascensão social, essa coisa toda. Por que quando eu comecei a minha vida, por volta dos 20 e poucos anos eu cheguei à conclusão de que eu jamais seria ninguém. Estava tudo ferrado, eu não tinha a menor chance; então eu pensei, bom, vou começar a estudar pra ver se aprendo as coisas, mesmo que eu não consiga jamais contar para ninguém, você tá entendendo? E isso para mim era o suficiente, quer dizer, o mundo do conhecimento era o meu mundo, eu gostava, né; tanto que eu não fui publicar nada de mais importante até os quarenta e tantos anos. Quando eu publiquei O jardim das aflições, eu sabia que não tinha um público pronto para isso; e se eu quisesse ter um público, eu teria que fazê-lo; e eu poderia fazer meu público através dos meus cursos, como de fato aconteceu. Meus leitores são basicamente meus alunos. Claro que existe uma faixa de leitores maior, mas que não é para coisas como O Jardim das aflições, Aristóteles em nova perspectiva, é só para artigos políticos de atualidades, né? Eu não esperava outra coisa porque, você veja que hoje mesmo eu publiquei ali no facebook, vou ler aqui para você, uma frase do Viktor Zuckerkandl, que era um grande teórico da música, ele diz o seguinte:

“Uma pessoa dotada de educação liberal é alguém claramente consciente da continuidade da tradição ocidental e das forças espirituais que num período de dois milênios e meio criaram e modelaram essa tradição, e em última análise, a pessoa mesma.”

Daí eu observo: isso simplesmente não existe nas classes dirigentes do Brasil; as pessoas não têm cultura para discutir essas coisas, os professores universitários não têm, é um negócio terrível! Jornalista não tem, professor universitário não tem, e escritores, os últimos que sobraram, são todos meus alunos. O Diogo Fontana… esse pessoal que está surgindo agora. Então a gente está… meu serviço é tentar restaurar a alta cultura no Brasil. Porque ela sumiu. Hoje mesmo eu liguei aí um vídeo e está lá o sr. Zé Celso Martinez Corrêa dando uma entrevista sobre o corona-vírus, e ele diz que isso aí é ‘um ato de justiça feito pela mamãe terra contra os pecadores ecológicos’. Então o sujeito é de uma vulgaridade, de uma estupidez dessa e se faz de intelectual. Isso é uma palhaçada, evidentemente, né?

O sr. estabelece uma ligação entre A nova Era e a Revolução Cultural, O Jardim das Aflições e O Imbecil Coletivo. O senhor talvez não só esperasse não ter público, como esperasse a reação?

Sem dúvida, sem dúvida. Olha, eu vou dizer o seguinte: o meu público… o único público que me interessa é Deus. Tudo o que escrevi foi para Deus. Pra ver se… Ele vendo o meu esforço, Ele perdoa os meus pecados e, quando eu morrer, Ele… quando eu chegar na porta do céu, ele diga asism: “Olha, entra correndo que não tem ninguém olhando agora”. Isso é tudo o que eu quero na vida. O resto realmente não me interessa. Eu sou um homem feliz, tá entendendo? Tenho a vida boa, tenho família adorável, tenho bons amigos. Que mais eu vou querer na vida? Não precisa todo mundo gostar de mim. Eu nem mereço. Eu tenho mais pessoas que gostam de mim que eu mereço.

O livro IV é praticamente uma aula de religião comparada. Eu me pergunto se as experiências do sr, as de juventude, tanto de observar a nova era, já que o sr. pertence àquela geração que se deixou levar por aquele movimento, quanto a leitura de René Guénon, as experiências com o islamismo na américa latina; tudo isso foi importante para a composição daquela parte do livro?

Sem sombra de dúvida. O exercício todo de religião comparada; aliás, eu não gosto desse termo “religião comparada” porque eu não acho que as religiões sejam comparáveis; eu não acho que elas sejam espécies do mesmo gênero; são coisas totalmente heterogêneas, né? Se você pensar, por exemplo, a igreja católica, ela é um caminho de salvação. Você pode dizer que o islam é um caminho de salvação? Não, não é. O islam é para a formação de uma comunidade. É um negócio completamente diferente. O judaísmo; o judaísmo é para um povo específico. Então você não tem duas religiões que você possa comparar realmente, como se fosse assim, duas tabelas de teses teológicas que você pudesse articular num mesmo plano. Isso não existe. Mas esse estudo foi importante justamente por causa disso, não é isso? Você mencionou o René Guénon… O René Guénon é um dos maiores desafios intelectuais do século XX. O único país onde eu encontrei pessoas preparadas para discutir o René Guénon foi na Romênia. Nem na França tinha, na época. Isso década de 80. Pessoas qualificadas para discutir o René Guénon era meia dúzia. Hoje não, hoje está melhor o negócio. O René Guénon, ali existe muito de uma tradição sapiencial muito rica, muito forte. Mas existe um elemento de sacanagem ali. Existe uma coisa mal explicada: a função dele como agente islâmica está muito mal explicada. E é uma coisa certa. O objetivo dele é islamizar o ocidente, sem sombra de dúvida. E ele não diz isso em parte alguma. Quem disse foi o Frithjof Schuon. Frithjof Schuon quando voltou da Argélia para a Suiça, ele disse: “eu vou islamizar a Europa”. Isso nos anos 50. Veja que coisa, parecia loucura na época. Hoje já não é tanta loucura… não é isso? Então você não pode ler assim o René Guénon com a inocência de que “ah, isso é pura metafísica, não tem nada a ver com a política, com o poder”. Isso é mentira.

Essa curiosidade que o sr. tem sobre diversas religões foi muito mal interpretada no Brasil. Isso serviu para um assassinato de reputação. Eu já ouvi muitas pessoas usando essas experiências, ou sua curiosidade intelectual, para dizer que o sr. teve envolvimento com isso, com aquilo, com seita. Uma outra coisa que me chama a atenção…

Os católicos e protestantes, que se dizem cristãos, nunca fizeram nada contra o comunismo, absolutamente nada. Botaram o rabo entre as pernas, se esconderam embaixo da saia das suas mães e depois ainda tentaram tirar proveito da situação. E todo mundo com medo dos comunistas, não querendo mexer. Aí eu fui lá e demonstrei que os comunistas não eram tão fortes assim. Eu ia lá, dava uns tapas na cara deles, cuspia na cara deles e não acontecia nada. Aí, com 15 ou 20 anos de atraso, esse pessoal todo decidiu bancar os valentes. E aí tiveram que me depreciar, para fazer de conta que eles também estavam na luta desde o início. E não estavam. Isso é um bando de filhos da puta, pra dizer a verdade. Ora, católico, protestante, padre, bispo, pastor; tudo filho da puta, tá entendendo? Não vale o que peida. Essa é a verdade.

No Jardim das Aflições, um tema muito forte é falar sobre os gurus, a força que tem os gurus. Há uma longa passagem em que o sr. fala da obsessão do século XX sobre o controle da mente. Lembro até de um livro que li um tempo atrás, aquele, acho que é… [o título, de que não me recordei é Battle for the mind, de William Sargant], não lembro, é de um autor americano, que li um tempo atrás, sobre os cães de Pavlov, técnicas de lavagem cerebral; enfim, o sr. retoma essa discussão ali de maneira brilhante e… eu acho engraçado depois chamarem o sr. de guru. Fico pensando: será que essa qualificação é proposital, é uma provocação, ou será que as pessoas realmente não entendem, e é pura ignorância; porque o sr. mostra ali o que é ser um guru; o sr. é o exato contrário disso.

É uma mistura das duas coisas. Não é isso? O cara se confunde e… para ele próprio aliviar a sua confusão, ele tem que me enquadrar em alguma categoraia que lhe pareça depreciativa. É isso o que fazem. Eles não estão lendo com seriedade, nem tem capacidade para isso. Você acha que esse pessoal católico dessa porcaria – que eles chamam de Montfort, e eu digo que é Montfaible –

Conheço! O pessoal do Orlando Fedeli. Eu lembro que ele dava aula em algum lugar da Unicamp na época em que eu me graduava ali, e ele tinha um circuluzinho e o pessoal ía ver as aulas dele. Eu vi uma discussão dele com o senhor; ele, por exemplo, acusando o sr. [de chefe] de seita. Acho que veio daí, né? E a imprensa copiou.

O Orlando Fedeli, ele não era má pessoa, mas ele era louco. Realmente. Aquele raciocínio circular dele… ele e os alunos dele, que ele mandava gente, mandava alunos ir lá investigar a minha aula pra contar pra ele, pô. Um cara que faz isso? Tinha lá um tal de Felipe não sei quê, que era meu aluno, então tudo ele anotava pra ir lá contar pro Orlando Fedeli pro Orlando Fedeli fazer fofoca. Quer dizer, esse pessoal não tem sequer, eles não têm sequer noção do amor ao próximo. Não têm isso. Veja, eles lêem a doutrina da igreja, mas eles não a incorporam no seu coração. Aquilo não significa nada para eles. É tudo pose.

Será possível ser professor sem ter amor ao próximo? Se você não tem amor ao próximo, como é que você vai comunicar, achar a forma mais simples, chegar no outro? Eu fico vendo aquele bando de professor universitário…

Veja, o Brasil é uma sociedade muito confusa onde as regras de vida não são claras. Então as pessoas são todas muito inseguras. Aqui nos EUA você sempre sabe qual é o livrinho das regras; o que que você tem que fazer para ser bem aceito neste meio, naquele meio, naquele outro meio. No Brasil não tem isso. É tudo imprevisível. A pessoa pode gostar de você e de repente parar de gostar. Então é todo mundo muito inseguro. Por serem inseguros, eles precisam desse mecanismo de reforço da imagem pessoal. Então eles estão o tempo todo tentando adquirir uma impressão de segurança, tá entendendo? E pra isso que fazem essa coisa toda. Quer dizer, é tudo gente imatura, gente que nunca cresceu. Na verdade é desesperadora a falta de problema, tá entendendo? Nunca passaram um perigo na vida; nunca ninguém apontou um revólver pra eles; nunca ninguém deu umas porradas neles. Eu passei por tudo isso, tá entendendo? Tudo quanto é perigo nesta merda de vida eu passei. Então eu não tenho esse probelma de auto-afirmação. Eu adotei como norma a frase do D. Quixote, ‘sei de todas as minhas qualidades e meus defeitos, não adianta me elogiar por qualidades que eu não tenho, nem me criticar por defeitos que eu também não tenho’. Não pega. É um nível de maturidade que esse pessoal nunca alcança. Eu vou dizer, eu conheci pessoas maduras. Mas veja, pessoas que eu conheci na década de 80 eram todos octogenários ou nonagenários, e tinham passado por experiências da vida. Por exemplo, eu era muito amigo do Paulo Mercadante. O Paulo Mercadante tinha sido agente do serviço secreto da aeronáutica. Ele prendia agentes nazistas no Brasil, depois ele entrou pro partido comunista e chegou no comitê central do partido. Então ele tinha uma experiência de vida; ele tinha um diário que abrangia 40 anos de história do comunismo no Brasil. Pô, esse cara tinha substância humana. Não era só questão de cultura. Era a personalidade. Não tem mais pessoas assim. Só tem bundão no mundo.

Gente vazia. Gente que tem medo de tudo. Gente que não sabe lidar com problema. Gente que acha que coisa simples como ter um filho é um problema… As mulheres da minha geração têm medo de ter filho!

Se eu fosse ter medo de ter filho onde eu estava, pô, com oito filhos?

Professor, eu tenho algumas perguntas feitas pelos colaboradores da revista. Uma delas é de um leitor da obra do Voegelin, e ele diz que conheceu Voegelin pelo senhor, ele queria perguntar pro senhor: “Politicamente falando, o que é um idiota, já que em Voegelin idiota é um termo técnico?”

Ele tinha o conceito da estupidez criminosa. Quer dizer, quando um sujeito ignora coisas que ele tem obrigação de saber, e que em função dessa ignorância ele toma decisões, toma atitudes… que são muito destrutivas para a sociedade e ele nem percebe. Eu te dou um exemplo. Nos anos 70, 80, foram lá pra China Henry Kissinger e Richard Nixon, depois o Clinton, tudo pra puxar o saco da China e transformar a China numa grande potência. Hoje você vê as consequências. Que é que são esses caras? Isso é estupidez criminosa. Eles tinham obrigação de prever as consequências de seus atos. Não previram e até hoje não perceberam que foram eles que fizeram isso tudo.

Outra pergunta dele: “Como o sr. definiria mente revolucionária?”

Olha, eu defino principalmente como uma inversão. Uma percepção invertida da realidade. Inclusive você pode notar até um fundo esquizofrênico. O esquizofrênico não tem muita ideia clara do que é o eu e o ele; entre eu e você. Ele conversando com você, ele pensa que você é ele e ele é você. E esse pessoal tem isso, eles trocam. Às vezes pode começar como sacanagem, como mentira; mas depois a coisa se incorpora. O famoso negócio do “acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”, isso é uma espécie de esquizofrenia trabalhada; esquizofrenia consciente, desejada. Eles fazem isso o tempo todo. Na verdade, todo o pensamento revolucionário é assim. Nada escapa. De fato não são pessoas normais. Mas não são loucos. São psicopatas, na verdade.

E qual a relevância dessa mentalidade para a política? É um veneno, então?

Ela domina a política moderna. Nós não podemos esquecer que durante a maior parte da existência da humanidade, isso que nós hoje chamamos de política, isso não existia. Política era uma coisa assim que só nos altos círculos os caras se interessavam; a maioria das pessoas não estava nem aí, pô. Era intriga palaciana… Agora com o advento da democracia, aconteceu aquilo que disse o Napoleão Bonaparte: ‘a política é o destino concreto do nosso tempo; todo mundo vai entrar na política’. E foi o que aconteceu. Bom, e isso de fato corrompe todo mundo, porque na política você não tem discussão séria; na política é apenas uma disputa de poder todos os discursos que as pessoas usam são discursos pretextuais, só para ganhar poder.

E controlar os outros, porque para ter poder você tem que controlar o próximo…

Claro. Ela não quer o conhecimento do que é objetivo. Ela quer só o conhecimento do que é necessário para manipular o outro.

Quando eu vejo a briga do Platão com Isócrates, a briga de Platão com os sofistas, eu penso ‘será que ele já não identificava esse problema? Haveria familiaridade com o que ele identificou e isso que vivemos de maneira massacrante? Posso dizer que o amor ao conhecimento é radicalmente distinto desse amor pelo controle?

Olha, toda a filosofia do Platão, toda a vida intelectual do Platão resulta de sua desilusão com a política. Porque ele, como um membro da classe rica ateniense, o futuro dele era naturalmente a carreira política. Ele entrou lá num movimento, eles fizeram uma revolução, ganharam a revolução e daí os caras mandaram ele prender um camarada que ele considerava uma pessoa de altíssima qualidade, um homem nobre, então ele ficou chocado com aquilo e se afastou da política e começou a estudar. Então, tomou distância daquilo que era o mundo dele, tomou como objeto de observação; não para fazer política, mas para compreender o que estava acontecendo. E todo o esforço dele foi pra isso. Agora, Platão é um camarada muito mal compreendido até hoje, porque o político lê A República e ele acha que aquilo é um projeto utópico para ser realizado, quando não é. O livro é uma gozação, meu Deus do céu! Ele está mostrando lá que todo projeto utópico vai dar errado no fim das contas. Essa é a tese dele. Mas o camarada que quer ele ter seu projeto utópico, ele quer se basear no Platão para fazer isso.

O Thomas More teve essa leitura. Ele seria um precursor dessa leitura?

Sim, sem dúvida. Tem muitos filósofos que leram assim, não é isso? Leram mal. Veja, às vezes o camarada por ser um bom filósofo, mas não quer dizer que ele seja um bom intérprete da filosofia alheia. Assim como tem excelentes intérpretes da filosofia alheia que não são por si mesmos grandes filósofos.

Considerando a diferença da noção de plágio na antiguidade, época em que as pessoas se preocupavam mais se as ideias eram verdadeiras que se eram desse ou daquele autor, como é que o sr. avalia uma cultura em que a autoria, o “eu disse; eu tive essa ideia” é mais importante que a própria ideia, já que no mundo não tem nada, de, digamos assim, absolutamente original?

Veja, o conteúdo da ideia, a referência da idéia a uma realidade externa era mais importante que a questão da autoria. Quantos livros não circularam durante séculos com falsos autores? Pseudo-Platão, Pseudo-Dionísio, Pseudo-Aristóteles. O pessoal não ligava muito pra isso. Não ligar nada pra isso é errado; pode dar bode. Mas no século… a partir da Renascença, a questão autoral se torna mais importante porque eles querem fazer a história dos gêneros literários e filosóficos, né? Mas, isso acabou criando uma inversão total, onde, por exemplo, o sujeito não estuda… quer dizer, vou estudar o quê? Não os problemas de que Nietzsche tratou, mas a filosofia do Nietzsche. O pensamento do cara se torna o centro da coisa, e o objeto do qual ele está falando desaparece, tá entendendo? Então não é mais uma discussão de realidade, é uma discussão de textos. Você veja, o professor Gianotti, José Arthur Gianotti, ele dizia assim com toda a cara de pau: ‘a filosofia é uma atividade que lida com textos’. Ah, o que lida com textos é essa merda da sua pseudo-filosofia! Filosofia de verdade lida com problemas filosóficos, meu Deus do céu! Problemas do conhecimento do mundo, problemas do ser, da substância, do destino, etc etc., não com os livros! Os livros são apenas meios, não é isso?

Falando nisso, o sr. que tem essa sensibilidade tão aguçada, essa percepção de que o controle mental – o sr. diz isso no Jardim das Aflições – esse é o maior problema do século XX, a obsessão que as pessoas têm de controlar a mente do outro; quando o sr. se deu conta desse problema e o que o sr. sentiu quando percebeu a sua magnitude?

Olha, isso foi nos anos 70, 80, quando eu estava estudando o negócio de seitas. Eu inclusive entrei em sociedades científicas que estudam seitas. Tem uma bibliografia enorme sobre isso e eu queria escrever um livro sobre isso. E foi acumulando material, acumulando material e chegou uma hora que eu não aguentei mais; era tanta porcaria, tanta maldade, tanta sem-vergonhice que eu pensei ‘tenho que descansar 20 anos desse problema, se não vou vomitar o dia inteiro’. Se você pega o que aconteceu com esse tipo, o Rajneesh, Reverendo Moon, todos esses pseudo-gurus, meu Deus do céu… Eu me lembro que uma vez, quando eu trabalhava na livraria Zipac, eu era sócio da livraria Zipac, a livraria promoveu em São Paulo as conferências do cidadão que era o diretor da academia védica de Bombaim, Swami Dayananda Sarasvati, o maior orador religioso que eu vi na minha vida. Impressionante. Ele falava, as pessoas ficavam duas horas de olhos abertos assim; não conseguiam tirar a atenção dele. E um dia ele viu entrar um sujeito do seicho no ie; do palco ele viu entrar um cara da seicho no ie. Imediatamente ele disse: “tira essa sujeito daí”. Ele tinha consciência, por ser o representante da tradição hinduísta, ele tem ideia do que é o hinduísmo falsificado, e ele não quer conversa com essa gente. Ele mandou tirar e a turma tirou mesmo. Tem várias histórias interessantes que eu vivi com o swami Dayananda…

Os anos 70 foram um palco disso, né? Era isso pra todo lado.

Claro, claro. Orientalismo, ocultismo, vinha tudo pro Brasil. Eu vivi cenas maravilhosas, inclusive com o Swami Dayananda. Eu fiquei como guia turístico dele em São Paulo e botei ele no hotel Hilton. E um dia eu fui lá buscá-lo no hotel de manhã, ele estava deitado… ele usava aquele manto cor de laranja da ordem religiosa dele, né?, estava ele deitado na cama assim assistindo televisão. Ele estava assistindo Ney Matogrosso. Ele olhou e falou: “this fellow is too strange.”

O sr. foi atrás disso tudo sempre por curiosidade intelectual, movido por curiosidade intelectual?

Sem sombra de dúvida; sem sombra de dúvida. Inclusive eu pensava ir pra Índia estudar essas coisas. Eu tinha lido muito os Upanishads e essa coisa toda, e me interessei. E perguntei pra ele se eu devia ir pra Índia estudar. E ele disse: ‘não, você não precisa ir pra Índia; basta você estudar Platão e Aristóteles. Está tudo aí”. Eu falei: “Ah é? Então vou fazer exatamente isso.”

Há quanto tempo o sr. lê Platão e Aristóteles?

Eu comecei nessa época. Eu tinha o quê? Uns 30 anos quando eu comecei a ler mais seriamente. Tinha lido antes, mas foi aí que eu peguei a coisa pra valer.

Ainda hoje o sr. descobre coisas que…

Ah, isso não acaba. Platão e Aristóteles é um tesouro sem fim. Maior que isso só a Bíblia.

Sim. Qual o autor que o sr. está lendo neste momento? Porque a gente se pergunta, né? Uma pessoa com sua envergadura intelectual, a gente pergunta: “com quem o Olavo conversa?” Além desses grandes pensadores, que pensador vivo o sr. indicaria? Alguém com quem o sr. aprende?

Olha, existem ainda filósofos muito interessantes. Catherine Pitstock é uma filósofa inglesa muitíssimo interessante, umas das grandes autoras… eu ainda não conheci suficientemente a obra dela. Essa é uma. Tem outros que não são mais vivos, mas são ainda mal conhecidos. O próprio, esse que eu citei pra você, o Viktor Zuckerkandl, é um filósofo da música, olha, estou com um livro dele aqui na mão, “The sense of music”, esse livro é uma preciosidade. Ele diz que o que ele está fazendo não é teoria musical, nem estética, nem coisa nenhuma. Ele está fazendo uma filosofia da música, na verdade. Tentando descobrir o que é realmente a música. Ele diz ‘essas outras disciplinas, elas servem para o profissional que quer aprender a tocar música, mas eu estou escrevendo não para quem quer tocar música, mas para quem quer ouvir música.

Eu conheci um sujeito que era um maestro. E às vezes ele pedia para eu fazer uma análise musical pra ele e eu fazia. Ele dizia: ‘Está perfeito! Onde você estudou música?’ Eu falei: ‘Nunca, eu sou incapaz de ler uma partitura.’ Eu estava me baseando nisso aqui, na filosofia da música, não no estudo técnico da música, né? Então, eu não sou músico, sou um ouvinte de música.

Qual o seu compositor favorito? O sr. tem um, porque são tantos, né?

Mas os principais são Bach e Wagner. Eu acho que esses são insuperáveis. Mas eu gosto muito de Brahms também. Agora eu descobri o Hector Berlioz. Eu nunca tinha prestado atenção. O sujeito é um doido, mas é um gênio. Brahms eu gosto muito. E tem compositores brasileiros… o Villa-Lobos, né? Hekel Tavares, Aberto Nepomuceno. Eu gosto muito de todos eles.

E o sr. encontra prazer semelhante à música na leitura de um romance, ou o sr. vê como artes muito diferentes?

Olha, eu não sei como dizer porque a música tem um impacto físico em você. E a música era considerada uma das artes liberais na idade média, quer dizer, uma arte do comando. O que faz o músico? Ele coloca você no estado de espírito que ele quer; no estado de alma que ele quer. Então ele tem um poder sobre você. Quer dizer, você se deixa conduzir pelas sequências de emoções que o Bach ou o Beethoven querem impôr a você.

E na literatura é diferente, porque se a nossa imaginação não trabalha… você não é só condzido, em literatura; você participa.

É, em literatura o seu papel acho que é mais ativo, né, do que na música. Você reconstrói a narrativa. Então se for uma arte narrariva você reconstrói a narrativa com elementos seus; quer dizer, o sujeito está contando uma história, mas você na verdade está vivenciando outra parecida com aquela. E na verdade um mesmo enredo literário tem muitos análogos possíveis. E é isso que nós temos que trabalhar porque a literatura de ficção não passa de vidas humanas possíveis. E é com bases nessas vidas possíveis que nós vamos ter os elementos para compreender as vidas reais que nós vivemos. Então eu sempre pensei o seguinte: uma obra literária não é para ser interpretada; é para você interpretar as coisas à luz dela.

Como o mito.

Claro, claro. O objeto de interpretação não é ela. É a vida real. Comparado com a vida fictícia

Uma outra pergunta de um artista, que é também colaborador nosso, ele gostaria de saber se o sr. poderia dizer quais autores, em seu juízo, chegaram mais perto de uma definição mais sensata da arte e colaboraram para seu entendimento do que ela significa.

Aí complica o negócio porque eu leio muito pouco, muito pouco teoria da arte. Teoria da literatura eu li um pouquinho mais. Mas Estética e Teoria da arte eu sempre fugi um pouco disso porque eu acho que é uma intelectualização errada. A arte é uma experiência real, uma experiência de vida, como uma relação que você tem com uma pessoa. Você não vai teorizar o que você sabe de uma pessoa. Eu digo, o objeto de arte eu também não quero teorizar o que eu sei a respeito dele, né? E quando eu escrevo algo a respeito; como por exemplo, eu escrevi algo sobre as cenas finais da Valquíria do Wagner, que eu vejo assim como o fim da era dos deuses e o advento da era dos homens; o cristianismo no fim das contas. Mas isso não é uma interpretação, é o que Wagner está fazendo. Então de certo modo eu estava apenas recontando a história em termos mais simples. Ele contou com personagens, etc., eu peguei conceitos abstratos e contei a mesma história. Não é bem uma interpretação. Então eu tenho muito medo dessas interpretações. Tem aquele livro da uma crítica americana… esqueci o nome dela [Susan Sontag]. Uma que era super lésbica… doidinha! Mas era mulher de muito talento, ela escreveu um livro “Against the interpretation”. Eu não lembro do livro, mas eu gostei do título.

Outra pergunta de um colaborador é como o sr. definiria direita e esquerda.

Nós não podemos esquecer que; tem muita gente que gosta de bancar o gostosão e diz “esse negócio de direita e esquerda não existe, isso é tudo igual”. Isso é besteira, isso é besteira. Porque em primeiro lugar direita e esquerda são termos que os membros desses movimentos usam para se definir a si mesmos. Então é como você dizer que não existe corintiano e são-paulino, que é tudo a mesma coisa. Então se o sujeito diz que ele é corintiano, isso é uma auto-interpretação, e como auto-interpretação, é um fato histórico e psicológico real. Então é isso o que nós temos que começar a entender. O que o sujeito de esquerda imagina quando ele diz que é de esquerda. E o que o de direita imagina quando diz que é de direita. Partindo daí, quer dizer, nós não temos uma interpretação, uma definição objetiva de direita e esquerda como “forças políticas”. Mas nós temos uma definição psicológica que expressa as atitudes reais dessas pessoas perante a vida. A explicação que elas estão se dando. Então você pode até dizer que essas explicações são falsas – em grande parte são mesmo – mas isso não quer dizer que o fator esquerdismo ou direitismo não exista como motivação real dessas pessoas. A motivação que leva a um determinado ato não pode jamais ser desprezada como uma coisa inexistente.

Seria possível estar na esquerda sem ser idiota, ou ser idiota e estar na direita?

Eu acho que é possível sim. Eu acho que é possível as duas coisas. Por exemplo, eu nunca achei que o Georg Lukács, ou o Henri Lefèbre fossem idiotas. Eles não são idiotas, são apenas comunistas. Bom, são uns filhos da puta, evidentemente; idiotas, não. A direita também deve estar cheia de idiotices. Às vezes o cara não é um idiota, mas escreve idiotices. Por exemplo o Daniel Bell, que escreveu O fim da ideologia. Eu falo: Como? Isso não existe! Outro dia eu falei: política sem ideologia é jogo de futebol sem bola É claro que um discurso de auto-justificação é uma ideologia. Então não existe política sem ideologia. Não existe administração pública sem ideologia. O sujeito que faz qualquer coisa, que toma qualquer decisão, ele tem que justificá-la – pelo menos para si mesmo. Então ele tem um discurso ideológico. O brasileiro tem esta moda de querer se fazer superior a ideologias, o que é uma ideologia: a ideologia positivista. Augusto Comte queria acabar com a discussão política transformando tudo numa discussão técnica. Isso é uma bobagem O homem terminou louco, mas eu acho que ele já era louco muito antes, tá entendendo? Claro que era um gênio, mas doido, doido, doido da cabeça. E um homem sem experiência da vida. Viveu mais ou menos fechado, no seu círculo de puxa-sacos, e acho que ele não cresceu nunca na vida.

Essas pessoas, é engraçado que elas se tornam ícones, às vezes. Pessoas que… o Henrique VIII, o sr. fala dele de uma maneira tão interessante; que ele era um louco, um psicopata, um assassino, e de repente, politiza completamente a igreja de uma maneira que abre caminho para aquele terror que a gente viu…

Olha… Veja. A reforma protestante na Inglaterra foi uma coisa de uma violência extraordinária. Evidentemente, ele garantia todos os direitos civis e políticos para os ingleses em geral; mas para os católicos, não. Então parece aquela frase do Paulo Freire – esse sim um idiota – ‘nós devemos ser tolerantes, mas não com os nossos inimigos’. Ora, se eu vou tolerar só os amigos…!

Aí não é tolerar, né? Porque tolerar é não gostar,é aguentar…

Henrique VIII fazia isso, ele só tolerava quem não tinha nada para tolerar.

Daqui a alguns séculos, os historiadores estarão estudando o Brasil de hoje tentando compreender o que aconteceu. O que o sr. diria a eles sobre o seu papel social neste momento da nossa história política?

Olha, eu acho que o papel social que eu tinha a desempenhar, eu já desempenhei. Se perguntar qual é o meu papel social agora, eu direi: não tenho mais nenhum. Agora eu só tenho que terminar meus livrinhos; quer dizer, eu dei um monte de cursos, quero transformá-los em livros e publicar. O papel social disto só se saberá no futuro. Pode ter algum, pode não ter nenhum. Ou a gente pode até provocar uma segunda revolução cultural aí. Ou pode não acontecer nada também. E eu também não estou muito mais interessado em saber qual é o meu papel social. Eu tinha que saber antes, para orientar minha atividade. Eu tinha que saber o que eu estou fazendo aqui, qual é o meu lugar na sociedade; eu tinha que saber. Mas agora eu não precisa mais, não. Eu não sei o que é que eles vão dizer de mim. Mas de algumas coisas eu tenho certeza. Eu tenho certeza que eu sou um baita professor. Os meus alunos ficam mais inteligentes do que [eram quando] entraram. Isso aí eu vejo todo dia. Eu tenho muito orgulho dos meus alunos. Eles só me dão satisfações, tá entendendo? Não todos, evidentemente, mas a maioria. Então eu acho que eu consigo explicar qualquer coisa pra qualquer sujeito até de QI 12

Essa habilidade de comunicação que todo mundo sabe que o sr. tem, acho que é isso que incomoda tanto a concorrência. Essa habilidade que o sr. tem de comunicação, a que o sr. atribui?

Olha, no começo da minha vida, os primeiros sete anos da minha vida eu passei na cama, doente, com febre e tal. Aos sete anos eu era O bebê. Quando eu fui pra escola, eu era o cara mais ingênuo da escola; o mais idiota de todos; todo mundo me fazia de trouxa e eu nem percebia o que estava acontecendo. Então eu desenvolvi esse complexo de burrice que era um negócio incrível. Eu falava, “porra, aqui todo mundo entende tudo e o único idiota sou eu. Bom, eu vou ter que me esforçar pra ver se eu entendo alguma coisa”. Então o que eu quis ‘ser quando crescer.? Pensei, ‘eu quero ser o sujeito que entende o que está acontecendo’. E foi isso que eu virei, po. Foi só isso. Esse era o meu problema. Não era assim subir na vida, não era ganhar dinheiro, comer todas as garotas; na realidade eu queria realmente entender o que estava acontecendo. E eu fiz esse voto de que eu queria entender o que estava acontecendo mesmo que eu não conseguisse explicar para ninguém. Você veja que coisa. O meu desejo de entender era tal, que eu falei ‘mesmo que eu não consiga explicar pra ninguém e fique sozinho a vida inteira, eu quero assim mesmo’. Eu rezei e pedi isso a Deus. E Ele me deu, no fim, a capacidade de explicar.

Mas quem realmente entende consegue falar bem, né?

Claro. Se você não puder pegar o que você apreendeu e transformar em termos da linguagem corrente, você não entendeu direito. Se você está dependente da linguagem técnica para repetir aquilo, você só decorou, não entendeu mesmo.

E a produção universitária brasileira é isso! Uma pilha de jargão para pegar pó em biblioteca.

É isso mesmo. São todos pessoas inseguras, tá entendendo? Não conseguem criar uma linguagem deles. Tudo linguagem copiada. Copiada da turma, copiada do professor. E tudo isso é insegurança. Agora eu, você veja, esse problema de comunicação, na verdade eu nunca tive. Nunca fui um sujeito tímido. Ao contrário, eu era um cara de pau. Aos 8 anos de idade, eu fazia um programa de rádio. Um programa infantil, evidentemente, mas eu fazia. Tocava as musiquinhas, contava as piadinhas, mas eu fazia. No colégio, quem fazia todos os dicursos, era tudo eu. Esse negócio de falar em público nunca foi problema pra mim. Mesmo que fosse uma baita besteira, eu ía lá e falava. O pessoal ria; eu também ria – ah, não tem importância. Nunca fui de me ofender com as piadas que faziam a meu respeito. Então esse problema eu nunca tive. Mas eu vejo que no Brasil isso é um drama. Aqui nos Estados Unidos, não. Todo mundo aprende a falar em público. O sujeito com dez anos de idade já sabe fazer um discurso. No Brasil não tem isso. Eles não ensinam isso.

Será que vem daí a pobreza terrificante do debate político? Que não tem…

Sim. Sem dúvida. Aqui nos EUA eles ensinam cedo. Veja, a timidez é uma doença. A timidez cria no coração humano o ódio e o medo do próximo. Todo mundo tem que ser ensinado a ser um cara de pau, pra não ter raiva de ninguém.

Isso me lembra Rousseau.

É claro que é. Ele é o próprio tímido que odeia todo mundo. Ele se acha um coitado. Ele diz ‘eu sou a alma mais bondosa que existe na Europa’. Pô, você é doido! O cara que abandonou os cinco filhos num orfanato, como é que pode se considerar tão bom. Ele conta os pecados e não tem vergonha dos pecados. Ele tem vergonha de outras coisas que ele nem fez. Rousseau é muito mentiroso.

Dos filósofos que enfrentaram o problema da relação entre massas e poder; Elias Canetti, Ortega Y Gasset; de todas essas reflexões sobre o quanto as massas são cegas, qual o sr. considera a mais importante. Ou todas merecem leitura?

Tudo merece leitura. Você até citou Ortega Y Gasset. Os livros de Ortega sobre a sociedade, a política são brilhantíssimos. Ninguém pode negar isso aí. Mas quem eu considero realmente importante é o Eric Voegelin. Esse é o maior de todos, de longe é o maior de todos. Está tudo ali. E ele, sobretudo, não tinha a obsessão da obra. Ele tinha a obsessão do conhecimento. A obra dele é toda descosida. Ele começa um negócio; não dá certo. Ele começa outro… quer dizer, ele não está interessado em produzir uma obra, mas em chegar a certos conhecimentos. Que é uma coisa que eu observo também no filósofo alemão Schelling. Schelling também começa a filosofia várias vezes. Dá errado, ele vai lá e começa outra; dá errado, ele começa outra. Então ele não está interessado em “Ah, vou produzir a minha obra filosófica”. Não é isso. Ele está interessado na investigação em si. E isso é o que marca o supra-sumo da seriedade. Eu vejo isso no Edmond Husserl. Aliás, eu estou publicando agora um cursinho que eu dei sobre Edmond Husserl, Edmond Husserl contra o psicologismo. Está para sair esses dias, se é que já não saiu. Husserl também tinha isso. Tanto que se você procurar ‘a obra fundamental do Husserl’, não dá pra responder, porque está um pouquinho em cada livro.

E o fato de o Voegelin ter… por exemplo, começa a escrever uma história das idéias, depois ele se pergunta sobre o sentido, né? Ele fala “como assim, ideias não têm história!”, e abandona uma obra monumental, e o compromisso editorial; quer dizer, está se danando pra tudo, né?

Pois é, quando ele chegou no oitavo volume das ideias políticas ele pensou “é, não existem ideias políticas”. [risos]

Isso o sr. aprendeu com ele?

Com ele, sem dúvida. O exemplo foi ele. Foi a partir daí que eu não liguei mais para formato literário da minha obra. Pode ser fragmento, pode ser diário, pode ser notinha do Facebook, pouco me interessa, tá entendendo? Fica um negócio disforme, mas acompanha a realidade dos meus estudos, tá entendendo? Eu só consigo falar, eu só consigo dar aula daquilo que eu estou estudando no momento. Não consigo seguir um programa anterior. Então também não posso oferecer livros completinhos, bem arrumadinhos, com começo, meio e fim; não posso fazer isso. Fiz O Jardim das Aflições por uma exceção. Porque aquele episódio lá do Pessanha me deu inspiração pra fazer isso.

E qual a avaliação que o sr. faz do livro hoje?

Eu acho que é meu livro que eu escrevi melhor. Literariamente, é o melhor, de longe. Aos outros, eu não dei tanta atenção. Na época eu estava assim… muito pobre, eu morava num apartamento kitnet, num prédio que era tão bom que o apelido do prédio era favelão, e eu ficava ali sozinho, até tive que mandar a família pra São Paulo, que eu não estava conseguindo sustentar, né?, não tinha uma casa boa para eles, então mandei eles para ficarem na casa de meu cunhado em São Paulo. Então tinha o tempo todo pra cuidar desse livro aí. Isso nunca mais voltou a acontecer.

Eu sempre digo que é um clássico, no sentido de obra bem acabada...

Eu gostei muito, gostei muito de escrever esse livro. Então posso dizer, se eu quisesse, poderia escrever tudo assim. Mas eu não quero nem vejo porquê fazer isso aí.

Quanto a essa relação psicótica de todo mundo com o vírus chinês, como sai o mundo disso?

Isso aí não é tudo culpa da China, não. Primeiro porque quem fabricou a China foi o globalismo ocidental. Nixon, Clinton, etc.; os banqueiros ocidentais criaram esse monstro chamado China, então eles são em grande parte responsáveis por isso. E eu tenho a impressão que eles estão aproveitando o problema do vírus para implantar um controle totalitário mundial com a aprovação da massa ignorante. E está funcionando, até certo ponto. Acho que até mais nos EUA que no Brasil. O brasileiro tem mais talento que o americano para descumprir as regras, né? Então eles estão desrespeitando, você vê a polícia do estado de São Paulo avisando o governador que não obedece… Isso aqui é impossível. Americano acredito em tudo. Eles não têm malícia. Brasileiro tem. Então eles vão levar muito tempo para descobrir que foram feitos de trouxa.

O sr. tem um romance favorito? Que o sr. tenha lido, relido e não canse de admirar?

Tenho, tenho. A trilogia de Jakob Wassermann. Começa com a trilogia do Processo Maurizius. Depois o segundo chama-se Etzel Andergast, e o terceiro chama-se A Terceira vida de Joseph Kerkhoven. É um livro que eu não canso de ler porque é a coisa mais humana que eu já li. Ele não tem um pedaço que você veja que é um chavão. Nada, nada, nada. Todas situações são imprevistas, novas, diferentes do que você esperava. No primeiro livro, é um garoto que é filho de um juiz importante e ele vê que tem um velhinho que vive circundando a casa dele, e descobre que o velhinho é pai de um sujeito que foi preso pelo pai dele, e que é um erro do judiciário. Então ele começa a investigar e ele denuncia o erro do pai e destrói a carreira do pai. No segundo volume, o heroizinho justiceiro arruma um mestre, que é um gênio, um santo, ele aprende tudo com o Dr. Joseph Kerkhoven e depois come a mulher do Dr. Joseph Kerkhoven, pô! E assim vai. Não vou contar o final porque o final é o terceiro volume que é a reconciliação do Dr. Kerkhoven com a sua mulher. É muito bonito, muito bonito.

O sr. sempre fala que a fraqueza da direita emergente é o imediatismo. Que conselho o sr. daria para as pessoas que estão correndo atrás de cargos e acham que isso vai resolver alguma coisa?

Olha, a esquerda caiu do cavalo em 1964. Então começou a repensar a situação, analisar seus erros, formar uma nova estratégia. Levaram 50 anos para voltar ao poder, 50 anos! E o pessoal da direita, mal aparece uma direita, eles já querem eleger um presidente. Eu falei, ‘isso é coisa de maluco! Sabe o que vocês estão fazendo com o homem? Vocês estão jogando ele aos leões. Vocês estão matando ele. Porque não tem militância; não tem uma intelectualidade preparada; não tem militância organizada; não tem nada. Então o que acontece? Tem um monte de gente que adere porque vê o cara subindo na vida, então adere pra subir junto com ele, depois vai trair, obviamente, porque o direitismo deles, o conservadorismo deles é superficial. É só pose. Só oportunismo. É preferível você ir mais devagar e você assegurar que quando pisar no chão, verificar se o chão tá firme mesmo. Eu fiz uma vez uma listinha dizendo que todo movimento se forma numa sequência que não é trocável. A primeira parte da sequência é a discussão entre intelectuais, sem nenhum plano de tomada de poder. Então você pode ficar 20, 30 anos só tentando formar uma linguagem, uma concepção da realidade. Isso não vai ser um programa político, não vai ser uma ideologia, mas vai ser a base dessa ideologia. Aí começam os debates públicos, formação da militância, e no fim você pega o poder. Agora os caras vão lá e colocam o Bolsonaro? Vocês querem matar o Bolsonaro?!?

E que conselho o sr. daria às pessoas que resolveram abrir esse debate, por meio de mídias, iniciativas como esta revista, etc?

Olha, tem um ditado alemão que diz: corra com calma. Nós temos que correr porque a situação já está na nossa mão, nós temos que fazer alguma coisa. Mas não adianta ter pressa de novo. Nós temos que entender que as etapas não podem ser saltadas. Por exemplo, a consistência intelectual, a discussão entre intelectuais é fundamental. Se você ler as obras do Dostoievski, você vê a geração que ia fazer a revolução comunista já estava discutindo aquelas coisas desde 1850, quer dizer com 60 anos de antecedência. Nos EUA, a mesma coisa. Em todo lugar onde você vê um movimento político que dá certo, ele é antecedido por décadas de elaboração intelectual. Sempre foi assim. Você veja, a democracia italiana, eles conseguiram tomar o poder depois da guerra, mas eles tinham começado em 1905, então levaram meio século pra chegar lá encima. O conservadorismo americano começa na década de 30 apenas na esfera intelectual. Ele aparece como diálogo intelectual, não como proposta política. Quando ele já estava; veja, ele começa a aparecer como proposta política na candidatura de Barry Goldwater, isso muito tempo depois, que deu errado. Então a primeira vitória que eles conseguiram foi a vitória do Ronald Reagan. Levou meio século também. Agora no Brasil mal começa, os caras “ah, vamos ler os artigos do Olavo de Carvalho, vamos fazer o conservadorismo, vamos eleger o Bolsonaro”; coitado do Bolsonaro! Vocês estão exigindo demais dele.

O senhor tem falado isso o tempo todo. Agora desenhou! Se as pessoas não ouvirem, não foi por falta de aviso (risos).

Agora eu acho que pessoas como vocês estão fazendo o trabalho certo. Você dá muito mais importância à reflexão, à compreensão do que a formação de programa político, do que a formação de um discurso ideológico. Eu acho que não tem condição de formar um discurso ideológico agora. Os caras que me chamam de ideólogo só mostram que são analfabetos. Eu sugiro que você continue nessa linha. Está indo muito bem. Se precisar de algo, eu estou às ordens.

Muito obrigada!

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

 

6 Comments

  1. Duas pessoas extremamente cultas e inteligentes só poderiam produzir como resultado… esta entrevista MARAVILHOSA. Muito obrigado!!! Parabéns e Sucesso!

  2. Prezada professora, parabenizo sua iniciativa, bem como de sua equipe, pela oportuna e justa homenagem prestada ao querido professor Olavo de Carvalho. É um privilégio ser orientando por ambos no bom caminho da reflexão e do conhecimento. Minha fraterna saudação!

  3. Só um aparte, em minha opinião, os lixos clinton, kissinger, nixon e outros apologistas da “enormidade da cultura chinesa” (incluir o mourão nesse lote de apologistas), SABIAM sim o tipo de lixo que estavam fazendo!

    Tanto é que, sobretudo o sacripanta do kissinger é até hoje um tremendo articulista das agendas sinocomunosocialistas e o clã clinton não fica atrás!
    E tudo isso começou ainda antes, foi antes até dos tempos de fugas celestiais taiwnenses! Aliás, isso começou até antes de marco polo, aquele que contrabandeou a rato do deserto de Góbi que garantiu a peste negra!
    Com essa jogada o mercado imobiliário europeu foi sequestrado nas patas de meia duzia que detinham o conhecimento das profilaxias, os que “compraram” de graça as residências com a cruz fatídica em frente as portas. O povo se afastou dessas residencias e os conhecedores profiláticos ganharam de mão beijada o mercado imobiliário da idade média, o que garantiu inclusive mais “vontade” por parte do povo desgraçado de se aboletarem em naus em busca da terra nova! Nada como voluntários braçais em viagens escorbúticas que muitas vezes eram sem volta.
    Não é exagero dizer que a marujada das caravelas foi em parte garantida pelo ocaso europeu em tempos praguejantes!
    Até o Michel de Nostredame (nostradamus) sabia das profilaxias, como médico garantiu a gratidão de alguns e uma condição de vida confortável mostrando que a peste era debelável e não castigo de deus.

    A China é um dragão forjado nos porões das agendas plutocratas de sempre.
    É sabido que se garante o livre trânsito em meio ao inimigo quando se cria um demônio exibicionista comum a todos! E todos hoje estão debatendo agendas chinesas de virus caroneiro sem perceber que o esquema é muito simples, o sequestro do ser humano em todas as instâncias e isso, com certeza não tem a China como causa, mas sim como consequencia!
    Ela foi escolhida pelo gigantismo e sucesso na agenda comuna (que é a própria de sequestro humano total) e não por qualquer outra razão, até porque a estupidificação comunista gera o melhor escravo, aquele que acha que todos são iguais a eles, que não por mera coincidência, é a mesma percepção do democrata!
    No comunismo, se garante o tutor para garantir a igualdade e na democracia se garante a crença decisória para gerar a crença de igualdade!
    Esse maldito plano não começou com marx ou democrates, começou muito antes, em laboratórios de controle das maiores religiões do mundo, e pior, nas mãos dos deuses, os ditos elohin!
    Maldita hora em que os elohin se encantaram com a beleza das mulheres dos homens…

  4. Bruna, parabéns pela condução dessa belíssima entrevista com o nosso querido professor Olavo de Carvalho. Essa entrevista esclareceu sobre determinados assuntos ainda obscuros na minha pobre mente.

  5. Muito boa, a entrevista. Fiquei só com uma dúvida trivial: quando o prof. Olavo conta o episódio em que o swami Dayananda mandou tirar um sujeito da sala, não seria, em vez de um adepto da Seicho-no-ie, um hare krishna?

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