Virou conversa de bar referir-se à decadência cultural em que estamos afundados. O traço corriqueiro do juízo raso é medir o passo do mundo com base em seu umbigo (sua rotina, sua família, suas opiniões, seu bairro, sua cidade, seu país). O mundo é maior do que nós.

Enquanto o gramscismo moldava as noções medíocres dos acomodados, Antonio Paim buscava compreender em profundidade o Brasil. Investigou as raízes históricas de nosso problema político crucial (a promiscuidade entre esfera pública e privada); as bases filosóficas do estatismo; a gênese e o desenvolvimento do liberalismo (espírito político oposto ao patrimonialismo e ao estatismo); a razão pela qual o marxismo foi tão influente em países longínquos entre si, como Rússia e Brasil; a descendência do pensamento marxista; a história da filosofia brasileira e portuguesa, e inúmeros temas correlatos.

Antonio Paim tem 92 anos e 5 livros inéditos para lançar. Este mês, a editora LVM publicou uma versão ampliada de “Evolução histórica do Liberalismo”, originalmente impresso pela Itatiaia nos anos 80. Eu tenho a edição dos anos 80. Olhar para ela é saber que as últimas décadas não foram perdidas para a cultura brasileira. 

É verdade que as Universidades se tornaram desertos de mediocridade regada a corporativismo, pontuadas aqui e acolá por oásis luminosos, quase sempre invisíveis à opinião pública. Mas também é verdade que, durante o processo de degradação institucional operado pelos social-democratas desde a redemocratização, intelectuais de integridade límpida aplicaram seu tempo observando o sanatório geral em busca das razões dessa loucura.

A contraparte da péssima política, do ambiente universitário animalesco, da decadência cultural, do ostracismo imposto à direita no debate público, da contaminação da imprensa pela militância; a contraparte dessas intempéries são as pedras de mármore esculpidas no entretempo. Uma delas é o legado de Antonio Paim.

Brasil à Rússia e Marx a Kant 

A história de vida do pensador brasileiro que, nos últimos 50 anos, mais investigou o liberalismo e seus desdobramentos contemporâneos, é conhecida. Envolveu-se a tal ponto com a militância comunista nos anos 50 que foi parar em Moscou.

Em 2016, ele recompôs a trajetória pessoal em detalhes numa divertida entrevista a Bruno Garschagen, à época apresentador do Podcast Mises. É marcante sua réplica, sempre que lhe perguntam como superou o marxismo: lendo Kant por uma década e meia. 

Raymond Aron, crítico autorizado e severo de Marx, não teve trajetória diferente. Ícone do pensamento liberal, foi a imersão profunda no marxismo, esta “filosofia” que se impõe como prática, que acabou habilitando-o a identificar suas inconsistências. Segundo Paim, isso lhe aconteceu enquanto estudava Marx na Rússia.

O desligamento oficial do partido, porém, deveu-se à divulgação do relatório Krushev, em 1956. O célebre discurso do herdeiro de Stalin sobre “o culto à personalidade e suas consequências” não tinha intenção de provocar deserção em massa. A ideia era superar um ícone ora desprovido de serventia à continuidade do estado comunista.

Divinizar um líder morto não era promissor. Os colegas até outro dia coniventes com sua “paranóia” precisavam rever a estratégia. O efeito dessa revisão, contudo, foi produzir um choque em parte dos bolcheviques. Paim participou dessa dissidência. Volta ao Brasil; lida com agruras no campo sentimental; reestabelece aliança com a consciência.

O historiador das ideias

Antonio Paim anda longe do clichê. É um autor difícil, interessado em captar a razão de ser das ideias em profundidade. Não há melhor introdução a Kant e Hegel, por oposição a Platão e Aristóteles, que sua introdução à História das ideias filosóficas no Brasil. Se qualquer estudioso de Filosofia acha nesta obra interlocução expressiva, o estudante genuíno encontra uma ótima aula introdutória à história das ideias que se mapeia. 

O rigor analítico e o vocabulário acurado afastam o leitor de receitas e capturam a atenção de quem mais se faz perguntas que se cata respostas. Nos inúmeros ensaios, contudo, o peso da erudição refletida e sóbria dá lugar à clareza e à simplicidade. Ao longo de toda a vida, Paim teve espaço no debate público. Foi rechaçado, claro. Aproveitou para escrever a respeito.

O melhor compêndio de seu contributo ao pensamento e debate brasileiros foi escrito por seu aluno e colaborador Ricardo Vélez-Rodríguez, cuja nomeação ao MEC no início do governo Bolsonaro alegrou,de início, todo humanista de coração. 

Paim e Velez são críticos ferrenhos do cientificismo que marca o ensino público brasileiro. Historicamente, esse laço com o positivismo remonta a Pombal; é rechaçado durante o império; e retomado após 1889, com as reformas educacionais republicanas. Desde então, prevaleceu.

O educador e seu pupilo

Ninguém sabia quem era Velez. Dos jornalistas tagarelas que se puseram a falar do colombiano radicado no Brasil, poucos leram sequer uma linha de Antonio Paim. Que dirá de Vélez-Rodríguez…

Em meio às trincheiras armadas, surge um elegante senhor louvando o humanismo e apontando o estrago operado pelo cientificismo na educação brasileira. Num governo repleto de militares, nem todos afeitos à auto-crítica… Não tinha como dar certo.

Em vídeo recente que deixou alguns milicos malucos, Olavo de Carvalho satiriza galhardamente, com direito a incursão pelos icônicos personagens de A montanha mágica, a deficiente educação literária do pessoal das Forças Armadas. Olavo é leitor atento de Antonio Paim e Ricardo Vélez, que estudaram o tema em profundidade.

Sem recuperar a educação humanista (cultivada pelo próprio D. Pedro II e marcante nos saquaremas, quadros do partido conservador sob o segundo reinado), não há modo de fazer avançar uma democracia sólida no Brasil, pensa Paim. Não por acaso, a quem deseja conhecer sua obra, indica O liberalismo contemporâneo, obra que enfrenta o problema da educação nacional.

O Homem público

Décadas antes de seu aluno vir a ser nomeado Ministro, Paim assessorou o Partido da Frente Liberal como pôde. Seria triste reconhecer que o partido que ajudou a moldar hoje (sob a sigla DEM) se reduza a um feixe do espectro podre chamado centrão; se a extensa investigação realizada pelo pensador sobre o patrimonialismo brasileiro não estivesse destinada a sobreviver — enquanto Maia e acólitos tendem a morrer no tempo.

Os liberais de fachada que chegaram a Brasília este ano enfrentam um cair de máscaras bonito de se ver. Os conservadores entendem a necessidade de uma aliança com os liberais. Os legítimos liberais acatam. Diferentemente dos carreiristas, que usaram a palavra liberdade como slogan de campanha e perdem aos poucos a credibilidade.

Ingratidão indevida?

A investigação paciente e expressiva de Paim foi pontuada na imprensa ao longo de sua carreira. As menções públicas, contudo, não fazem jus à relevância de sua obra. Difícil esquecer a entrevista de João Amoedo no Roda Viva ano passado. No ping-pong, hesitou ao ter de responder qual era o seu “livro favorito”. Só pôde lembrar do midiático “A revolta de Atlas”.

A cena patética mostra a desconexão entre figuras políticas pró liberdade e o debate intelectual consistente produzido pelos liberais. Como não fazer piada a respeito? Ademais, é de uma ingratidão própria ao novo-rico mais tolo apresentar-se liberal e desconhecer a vasta obra do pensador brasileiro que versou A querela do estatismo

Permanência na cultura

Paim permanece lúcido e produtivo. Ainda que um dia parta, sua vida já integra a cultura. Deixará como legado vasta bibliografia, algumas instituições e, mais importante que tudo, alunos talentosos prontos a honrar seu trabalho de décadas. Jovens intelectuais hoje à frente do Instituto Liberal, Mises Brasil e Editora LVM sabem que estão para seus mestres como Newton esteve para Galileu.

Com a floresta desbravada, basta manter a clareira aberta: ampliando traduções, reeditando o que está escrito, aprofundando o debate, assimilando e respondendo à cortante crítica dos libertários.

Quanto às lideranças liberais, devem imperativamente, por responsabilidade, fazer bom uso do clima de receptividade às noções de liberdade aberto pela geração de Antonio Paim. Não apoiar o patrimonialismo defendido com unhas e dentes pelo centrão, diga-se de passagem, seria um ótimo começo…

Os conservadores contam com seu bom-senso. Por prezar a excelência, sabem direitinho o que é liberdade e qual o valor do liberalismo político genuíno para a alternância de poder salutar. Falta alguns políticos “liberais” descobrirem.

Para isso, temos escrita, publicada, comentada e recentemente revalorizada a vasta obra de Antonio Paim. A não ser, claro, que os jovens deputados façam questão de reviver a experiência dolorosa que marcou, do pensador, a juventude…


2 Comments

  1. O preço que ora pagamos, todos nós brasileiros, é fruto da nossa própria incúria. Nada acontece por acidente, existe uma razão para tudo no universo segundo a Lei de Causa e Efeito.
    Felizmente, como que por um milagre (o que de fato não existe, como entendo), um engajamento cívico brotou da Alma da nossa gente, de todos nós (excecões, obviamente), e em pouco tempo o quadro tétrico da falta de uma consciência de cidadania legítima, transformou a nociva apatia dos brasileiros em ação regeneradora. Daí o milagre Bolsonaro! Ele soube canalizar essas energias positivas e transformá-las em motivação jamais vista na História da nossa Nação.
    Evidentemente que trata-se de uma motivação que surge da dor, e como tal ela pode ser efêmera e tão logo a dor seja controlada, essa motivação poderá igualmente esvair-se. Muito cuidado aqui!
    Para o meu próprio estarrecimento, porque diante desse quadro fúnebre reinante no Brasil nas últimas quatro décadas em que eu jamais sonharia na possibilidade do miraculoso soerguimento, percebi haver algo mais sob a superfície desse movimento cívico invejável à qualquer Nação do Planeta. Algo mais? Como assim?
    Uma extraordinária e poderosa força de propulsão que silenciosamente vem agindo, como que surgindo das cinzas e também milagrosamente, porque suplanta, eu diria mesmo que quase sepulta aquilo que nos acostumamos a chamar de “grande mídia”.
    Me refiro aos inúmeros canais e veículos da mídia social que por meio dos seus corajosos, cultos e valorosos líderes, têm contribuído enormemente para resgatar os verdadeiros valores da nossa Nação. Eles têm feito um trabalho hercúleo no sentido de motivar os brasileiros à saírem às ruas e lutarem por seus direitos e pelo futuro das próximas geraçõs.
    Muito além disso, e neste ponto chamo a atenção de todos, eles têm procurado com afinco nos fazer compreender que as verdadeiras mudanças serão de fato possíveis, não apenas e tão somente pelo nosso engajamento ativista nas ruas, mas primeiro e especialmente pela nossa própria auto-educação rumo à uma cidadania consciente e verdadeiramente responsável. E para isso eles constantemente nos têm fornecido as ferramentas necessárias à esse engajamento, e o que é importante de forma gratuita.
    Poderia evidentemente mencionar vários deles. Todavia o meio aqui é propício apenas para me referir à essa brilhante, corajosa e erudita jovem, Bruna Torlay, que de forma simples, humilde, despretenciosa e efetiva, tem nos legado, em apenas alguns poucos meses, um enorme cabedal de conhecimentos que nos serão profundamente benéficos se deles fizermos uso nesse processo da nossa própria auto-educação.
    O extraordinário artigo de abertura deste segundo exemplar da preciosa Revista Esmeril, “Vida e Legado/Antonio Paim”, é um exemplo claro do seu brilhante nível de intelectualidade, o que pode ser confirmado de forma clara nos 87 vídeos já postados no seu Canal Youtube.
    Vida longa e muito sucesso aos projetos da Bruna Torlay juntamente com a sua maravilhosa e eclética equipe de colaboradores, que também merece todo o nosso respeito, admiração e gratidão.
    Antonio Leite, de Nova Iorque

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