Para ilustrar nossa edição dedicada à segurança, elegemos o mito de Ícaro, em tela pintada por Jacob Peter Gowy. Descubra o motivo.

É como um instinto primal. Desde a época das cavernas, o homem une forças em árduas batalhas para tentar garantir sua segurança. Afinal, ele não demorariaa descobrir que sobreviver em grupo seria uma missão menos complicada em terras tão inóspitas – seja no enfrentamento de ameaçadores animais selvagens, ou de grupos rivais.

Se olharmos para eras passadas, descobriremos nas páginas históricas que priorizar a segurança sempre foi uma medida enraizada na própria formação da sociedade. Nessa mesma linha, é preciso levar em conta o medo do caos – situação esta em que não há controle sobre nada e somos embalados por acontecimentos aleatórios.

Essa fobia, aliás, é parte integrante de muitos mitos interessantes da antiguidade.

A relação entre o Conservadorismo e os mitos gregos

Teseu Vs. Minotauro: amor e planejamento contra a violência

Além da jornada humana e de sua eterna luta pela sobrevivência, é preciso destacar que essa busca contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de diversas virtudes humanas. Entre elas, a precaução, o senso de limites, o autoconhecimento, a (des) confiança, a cautela e o conservadorismo. 

Estudando de perto os mitos gregos, descobrimos uma série de histórias sobre a relação de causa e efeito – algo que coloca em cheque o desenvolvimento dessas virtudes supracitadas. Como exemplo, escolhi dois mitos nativos da ilha de Creta: Teseu e Ícaro. 

No mito de Teseu, anualmente, jovens gregos costumavam ser sacrificados para aplacar a fome do temível Minotauro do labirinto. Essa tradição perduraria até a entrada em cena de dois personagens: Teseu e Ariadne.

Diz a lenda que, ao desembarcar na ilha, a princesa Ariadne caiu de encantos pelo guerreiro Teseu. O amor do casal, então, provaria ser um fator definitivo para a grande virada. De sua amada, Ariadne, Teseu recebeu como presentes valiosos uma espada e um novelo de lã. Após liquidar em combate a criatura meio touro, meio homem, o herói usaria os fios do tecido, de forma sagaz, para marcar o caminho de volta e deixar o labirinto.

Epílogo: ao partirmos dessa história, observamos o monstro selvagem que devorava os jovens (representando a violência) ser vencido pelo herói. Por sua vez, Teseu (e sua união com Ariadne) representam virtudes como amor, coragem, precaução e planejamento.

Ícaro e sua impetuosa jornada rumo ao sol

Estátuas de Ícaro e Dédalo em Creta

Já no mito de Ícaro, filho de Dédalo (o projetista do labirinto do Minotauro) nos deparamos com uma situação totalmente contrária à saga de Teseu. Segundo o mito, como Dédalo revelara os segredos do labirinto para Ariadne (que, por sua vez, os contara a Teseu), ambos deveriam ser castigados pelo rei Minos e, ironicamente, aprisionados no próprio labirinto.

Desesperado, o exímio inventor, Dédalo, decide construir asas compostas de penas de gaivotas e cera de abelhas, para que escapassem a um eventual “castigo eterno”. Na tentativa de fuga, Ícaro, decide não dar tanta importância aos conselhos de seu pai e se deixa levar pela emoção, usando mal sua liberdade. 

Empolgado com seus poderes, Ícaro claramente perde a noção de seus limites. Seu voo alto e imprudente, desnecessário dizer, comprovou-se letal. Ao se aproximar do sol, as asas de Ícaro começaram a derreter – de forma dramática – e o jovem se precipitou, indo ao inevitável encontro da morte.

Histórias cruzadas, destinos ímpares

Nos mitos gregos descritos aqui, os dois jovens, Teseu e Ícaro, estão interligados pela saga do Minotauro. A principal (e crucial) diferença entre as histórias está justamente nas escolhas dos protagonistas. O rumo tomado – e a forma como cada um agiu em sua jornada – os levam para destinos completamente distintos.

“A Queda de Ícaro”

A imagem para guardar desta edição é a tela barroca “A queda de Ícaro” (1637), pintura de autoria de Jacob Peter Gowy. Uma imagem poderosa que descreve, de forma plástica e dramática, “o preço que se tende a pagar por agir de forma impetuosa e descuidada, sem ouvir os conselhos sábios dos pais, que nos dão segurança e nos guiam pelo caos”.

Sobre o autor e sua obra: Jacob Peter Gowy

“A Queda de Ìcaro” está no Meseo del Prado, em Madri

A exemplo das origens de inúmeros mitos, poucos detalhes são conhecidos sobre o flamenco Jacob Peter Gowy. Historiadores relatam que o pintor Barroco era um discípulo de Paul Van Overbeeck em seus anos de oficina na cidade de Antuérpia, em meados do século XVII.

Durante sua estadia na Inglaterra, Jacob – colaborador do influente e genial Peter Paul Rubens – deu luz à tela A Queda de Ícaro, baseada em desenhos do próprio Rubens, hoje guardada no acervo do Museo del Prado, em Madri.

fim

Revista Esmeril – 2020 – todos os direitos reservados

2 Comments

  1. Boas colocações! Mas entendo que a mensagem fundamental de ícaro é que a estupidez é o maior inimigo do ser humano e juntando-se a ela a arrogãncia, cobiça e presunção o resultado é sempre a desgraça.
    Vamos aos fatos, o gênio criador não era o mancebo, e como sempre, o tosco dotado de ferramentas que não lhe são pertinentes, até por sua estupidez perene, sempre irá fazer o que sabe fazer, estupidez!!
    Mas, se observarmos esse é o contraponto da tolerância, o pai tolerante com seu estúpido filho achou que era pertinente ensiná-lo a pensar e não conseguiu, de novo vemos que o estupido só é capaz de fazer estupidez!
    A tolerância, aquela maldita que diz que devemos perdoar, devemos ser magnãnimos com os incapazes, só garante o que acima afirmo, o estupido só é capaz de estupidez!
    Dessa forma, fica a pergunta que não quer calar mesmo que não ouvida: qual o sentido dos capazes serem obrigados por lei a sustentarem os incapazes?
    Como é possível que se tolere o QI de ameba tendo direito ao voto?
    Se um boçal (um jogador de futebol ou um sertanojento por exemplo) tem o direito de se arvorar em decições políticas só o que se consegue é o politicamente correto! Só que é sabido de cor e salteado que políticos são a mais abjeta casta que existe, onde abunda o salafro e a salafragem sistêmica, dessa forma pergunto, como pode é possível que tenha alguém que acredite que o politicamente correto é correto, se políticos são completos canalhas?
    Percebemos nessa minha pergunta que há evidentemente um certo retardamento mental disseminado!
    A tal estupidez de ícaro está elevada a algo salutar!
    E só o que posso afirmar é que clamo por asas nas patas de todos, de forma que a seleção natural faça o que a tolerância não permite fazer!
    Hoje chegamos ao fundo do abismo, ao ponto de buraco de fezes ter virado “órgão sexual”, assim creio ser o momento oportuno de convencermos a massa de que orelhas servem para voar, e dessa forma pouparemos o trabalho de construir asas de cera, até porque não creio que essa turma néscia será capaz de se aproximar do Sol o suficiente para terem suas asas derretidas, e pior, se sentirão sois em avenidas sambodrômicas adejando suas asas enceradas e não encerradas!
    Que todos entendamos que o melhor para ícaros e terem seus direitos de icararem no abismo garantidos!!
    E que consigam passar do chão pelo menos sete palmos!! 😀
    Pois se formos enterrar os estúpidos vai faltar pá e sapador… e o sol infelizmente não irá icinerar!
    Não sei porque me veio a cabeça aquela piada de que quando estamos no fundo do poço sempre existe alguém para nos mandar uma pá… (lol)
    E que Teseu entenda que minotauro era uma espécie de salvação, seleção, quando já só nasciam ícaros, e que Ariadne entenda que Penélope não foi menos inteligente em seus tecelares! 😀
    Agradeço a atenção e vosso tempo

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