O período do Renascimento ocasionou um novo interesse pelos conhecimentos da antiguidade, além de reavivar o estudo das proporções pitagóricas. 

A proporção áurea, a geometria divina, a sequência de Fibonacci se aplicavam à composição das obras para garantir-lhes equilíbrio visual e harmônico, além de comunicar seus conceitos filosóficos através de elementos pictóricos repletos de simbolismo. 

Para a edição de Natal, nossa imagem para guardar é A Natividade Mística, de Sandro Botticelli, única obra assinada do mestre renascentista italiano.

(óleo sobre tela, 1500-1501)

Esta obra se destaca por uma iconografia inusual para a natividade. Além de omitir os três reis magos, ela justapõe o nascimento de Cristo e o seu retorno para o Juízo Final. Entendê-la melhor exige conhecer um pouco sobre Botticelli e a época em que viveu: a Florença do Século XV

Podemos dividir as obras de Botticelli em três fases. Na primeira, de inspiração mais bíblica, o artista foi influenciado por seus precursores e mestres, como Fra Angélico (1395 – 1455), Fra Filippo Lippi (1406-69) e Masaccio (1401-28). Na segunda fase, ele adota motivos pagãos e o naturalismo, apresentando estreita relação entre arte e filosofia. A terceira fase é um retorno aos primeiros dias, com intenso conteúdo religioso, matizado, contudo, por uma preocupação maior em meditá-lo. É nesta fase que ele produz a Natividade Mística.  

A influência de Savonarola

Especula-se que Botticelli tenha sido influenciado, nesta terceira fase, pelo padre dominicano e pregador Girolamo Savonarola.  Conhecido por suas profecias, publicadas no Compendium revelationum, o padre associava a corrupção do clero a um dilúvio de pecados e libertinagem, atacava os hábitos dos florentinos e o próprio Renascimento.

Foi o criador da infame Fogueira das Vaidades, na qual burgueses jogavam ao fogo objetos de arte e artigos de origem secular. Acredita-se que Botticelli destinou grande parte de sua obra carregada de mitos pagãos a estas fogueiras.

Natividade Mística revelada

Savanarola, por ser um grande opositor dos Médicis e do Papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia), acabou estrangulado e queimado na fogueira em 1498. Dois anos depois, Botticelli pintou a Natividade Mística. O artista acreditava estar vivendo os dias da grande tribulação.  

No topo da pintura temos uma inscrição em grego que demonstra o estado de espírito do artista e o contexto político da época: 

“Esta imagem, no final do ano de 1500, nos problemas da Itália, eu Alessandro [verdadeiro nome de Botticelli], meia hora depois do tempo, pintei, de acordo com o décimo primeiro [capítulo] de São João, segundo do Apocalipse, durante o lançamento do diabo para três anos e meio, então ele ai será obrigado no [capítulo] XII e veremos [ele enterrado] como na imagem.”

Breve, a pintura parece extraída de um sermão de Savonarola (Dia da Assunção) que descreve uma coroa celeste extraordinária, cuja base continha doze corações com doze fitas ao seu redor, contendo inscrições em latim versando as qualidades ou privilégios da Virgem Maria: ela é ‘mãe de seu pai’, ‘filha de seu filho’, ‘noiva de Deus’. 

Embora muito da escrita sobre as fitas que detêm os anjos na tela de Botticelli ser agora invisível a olho nu, o uso de infravermelhos permitiu se descobrir que as palavras originais nas fitas dos anjos correspondem exatamente aos 12 privilégios da Virgem de Savonarola. 

O sermão Savonarola explora também os capítulos 11 e 12 do Livro do Apocalipse – os capítulos exatos mencionadas na inscrição da pintura, conectando a glória de Maria com a vinda iminente do poder de Cristo na terra. Botticelli morreu em 1510. A Natividade Mística permaneceu escondida por mais de três séculos. Atualmente, integra o acervo da Galeria Nacional de Londres.


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