Embora o humor político seja traço muito caro à tradição liberal, nem todo humorista ou auto-proclamado liberal simpatiza com a micro-bolha do Twitter que abraçou a estética Vaporwave.

“Eles tomaram conta do Twitter Brasil”, diz Alexandre Gonçalves, o São Black, que aderiu à onda ao descobri-la na rede. “Um dia eu vi um dos prints dos jornalecos; aí alguém lá mandava uma foto vaporwave tirando sarro, e eu pensei ‘pô, gostei disso’. Aí ví o Loen, o Let’s e, nos comentários deles, achei vários perfis. Eu olhei aquilo e comecei a dar risada. Eu achei sensacional e falei vou entrar nessa.” 

Entre memes e piadas cortantes, os perfis Vaporwave têm tirado o sono de muita gente. A ponto de se haver criado teorias para explicar a “ação coordenada” dessa meia dúzia de caras sardônicos cuja leitura política supera de longe a torrente de narrativas esdrúxulas que infesta o jornalismo raso.

Left Dex (o perfil citado por Frota na CPI das Fake News) se auto-define sem meias palavras, fazendo o mesmo com a (falha) definição de um desafeto:

“Ele é um cara frio, cortante. Postava coisas de uma forma dura… pá, pá, pá! Agora que ele mudou um pouco e entrou nessa de zoeira. Mas ele rebatia as coisas de uma forma dura, fria, parecia alguém caindo de cabeça no mármore. Aquele mármore gelado”, descreve Alexandre, atualmente na quarta conta (por quanto tempo, não se sabe).

Holocausto imaginário

O humor Vaporwave joga com a máscara de gente como Danilo Gentilli, Felipe Moura Brasil, Nando Moura, Joice Hasselmann e lideranças do MBL. Anônimos, revelam a face oculta de quem exibe o rosto, mas nem sempre a alma. Esse jogo de máscaras trocadas diverte o público e irrita os alvos.

Muitas figuras da direita que se notabilizaram por defender, em tese, as liberdades individuais, não hesitam em dar meia-volta, diante de sátiras a seu respeito.

Por quê não comentar o assunto?

Terá vindo da atitude semelhante a expressão Nova esquerda, para se referir aos incomodados?

Quem frequenta o Twitter sabe como a fatídica manifestação de 26 de maio de 2019 deu início ao jogo. O MBL quis derrubar. Não colou. Lideranças conservadoras tocaram o barco. A participação foi maciça e ficou evidente que o único dono legítimo da rua era o povo.

Com a derrocada do MBL, narrativas esdrúxulas sobre o governo começaram a surgir, acompanhadas da inverossímil tese de uma “milícia bolsonarista organizada”. Mas os tempos mudaram. Quem estuda, pensa, observa, compara e, sem ter diploma de analista político da Globonews, sabe distinguir conversa fiada de argumento, passou a apontar o ridículo de tal atitude.

A ascensão do Vaporwave no Twitter se afina à tranquilidade com que apoiadores do governo encaram fofocas de ocasião, narrativas forçadas e teses sem pé nem cabeça. Não há escritório central de milícia organizada; mas sintonia entre governo e povo, há mesmo.

“O Let’s estava lá na manifestação. Ele me segue. Já falei com ele; não me responde. Eu acho ele uma pessoa extremamente gelada. Por isso achei interessante. Ele fala de uma forma dura, impacta os mentirosos”. São Black se identifica mais com o humor debochado de Loen. “Já o @Leitadas_Loen passa o tempo inteiro zoando a galera. O Loen é tipo um bonachão. Ele zoa, persegue pra encher o saco da pessoa… “.

O jornalista Claudio Dantas que o diga…

Em junho, a Folha de São Paulo redescreveu a nova direita americana, precursora da simbiose espontânea entre estética da música eletrônica e expressão de ideias conservadoras, ao nazismo, fascismo, etc. Em agosto, Tom Martins publicou no Senso Incomum uma apurada análise dessa estética, cuja expressão mais completa entre nós é o canal Brasileirinhos, mostrando por que ela irrita tanto a esquerda.

Manifestante exibe o avatar do perfil Left Dex no protesto de 17/11, em São Paulo

Eduardo Bolsonaro elevou o trabalho dos cariocas a ícone da militância pró-Bolsonaro durante o CPAC, insistindo que a melhor arma para desfazer narrativas e combater detratores é… “farmeme”.

O apelo ao riso vém de uma consciência política em processo de definição. Na prática, os conservadores, atentos a projetos de poder de uns e outros, sabem que a depuração em curso na direita, tanto em política quanto na imprensa, tem motivo. Sabem também que não são os liberais honestos que exibem aversão ao governo, a exemplo da esquerda.

LEFT DEX POR ELE MESMO

Em entrevista ao site Porão da Mamãe, @Lets_Dex resume: “o liberal honesto está contente com o que tem sido feito. O liberal desonesto, ele queria estar fazendo isso”.

“Tem muita gente que foi contra o PT, mas tem interesses próprios. Frota já está flertando com tudo o que é mais baixo na esquerda sem o menor pudor”. Para ele, o apoio popular ao presidente se deve às atitudes concretas de combate à tradição patrimonialista (o modus operandi do centrão), tão alimentada pela esquerda no passado recente:

“O Bolsonaro está conseguindo fazer o que faz sem dar um ministério em troca, enquanto o PT dava ministérios e mesada; e mais propina de estatais. Mudou muito pra eles. Os caras estão achando muito ruim do jeito que está”.

À diferença de outras bolhas da direita, não atribuem a si a eleição de Bolsonaro:

“A gente faz um micro-trabalho num universo muito maior que é o Brasil. Quem mais deve ter eleito o Bolsonaro é o pessoal do interior, que tem os pensamentos mais retos. O eleitorado vem daí. A gente está só numa micro-bolha fazendo o que pode fazer, a nossa parte, enquanto a gente dá risada.”

A auto-derisão tem sido um bom escudo na rede social da livre-pancadaria:

Eis o cerne da mentalidade política vaporwave. Não por acaso, o vídeo que traça uma analogia entre o jogo de video-game Mortal Kombat e a saga do povo brasileiro contra o patrimonialismo sujo do Centrão homenageia, além de figuras notáveis, cada indivíduo que vai pra rua expor sua vontade concreta de bicar Gilmar Mendes da cadeira com uma bela de uma voadora.

De choque em choque, ou tweet em tweet, a liberdade de consciência mostra na prática de que matéria é feita. Vaporosa, incapturável e ligeira; como a eletrônica, a sátira e o riso.


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