O paradoxo do governo Bolsonaro é a ineficiência da comunicação oficial, comparada à facilidade de se fazer entender por parte do cara que toca o barco. Quem olha de fora e trabalha com a arte da palavra se pergunta todo dia: por quê?

Sem rodeios

Falar fácil é uma arte. “Descentralização” era um termo obscuro para inúmeros brasileiros. A fórmula “mais Brasil, menos Brasília” resolveu o conceito na prática. Foi assim que o então candidato ganhou a confiança da classe média e resumiu o programa de reformas da equipe econômica.

Por mais difícil que seja explicar como o excesso de leis trabalhistas promove o desemprego, o povo abriu os olhos ao ouvir o bordão: “A gente tem que escolher: menos direitos e mais empregos; ou mais direitos e menos empregos”.

No campo metafórico, Bolsonaro se atém às imagens básicas do cotidiano médio, casamento e futebol, quando precisa comunicar decisões do Executivo. Para argumentar, apela sempre às comparações, tática que faz o interlocutor refletir, participar do problema em qUestão (leia com u pronunciado). 

Questionado sobre problemas difíceis, não dá respostas mirabolantes, tiradas sei lá de onde para exibir pompas de chefe de estado onisciente. Responde com outra pergunta, demonstrando que prática política é enfrentar dilemas. Quando convida quem o questiona a pesar esses dilemas na balança, aproxima-os de sua posição, criando empatia.

Com essas estratégias (conscientes ou não), o presidente faz a sociedade sentar na cadeira presidencial e sentir na pele as correntes que amarram quase todos os atos do chefe máximo da república. 

Coerência

Mas não se trata de retórica vazia. O discurso pega porque se escora no exemplo. A austeridade fiscal defendida pela equipe econômica é primeiro praticada pelos líderes do executivo. Paulo Guedes mandou vender a luxuosa casa (até então mantida pelos cofres públicos para abrigar o ministro da economia) e ficou no hotel. Bolsonaro não almoça em restaurantes de luxo nas viagens internacionais.

A sintonia entre forma e fundo, o que é falado e o que é feito, gera símbolos eficientes. O resultado é credibilidade

Ver para crer

Comunicar-se bem é muito mais que “dominar a gramática”. Supõe criar maneiras de mostrar as coisas, ligar uma ideia a coisas visíveis, sensíveis. A habilidade de sintetizar em boas fórmulas problemas complexos, ou brevidade, é outra técnica eficaz em política.

Se “uma imagem vale mais que mil palavras”, uma fórmula feliz vale mais que teses de doutorado inteiras. Sobretudo quando se trata de atingir o povo, cuja ciência nas mil áreas de que se ocupa um governo é sempre ínfima. Não por acaso, as formas breves da prosa se consagraram na literatura moral e política. 

Máximas e sentenças no discurso político

Não existe abordar problemas políticos sem desaguar em problemas morais. Política é feita por homens por meio de gestos. Daí que faça tanto sentido falar em embate entre o bem e o mal. Daí que, da prática política, surgiram os grandes moralistas. Esses escritores não se destacam por acaso no registro literário das máximas, sentenças e aforismos. 

Richelieu é o exemplo clássico. Aliás, segundo o cardeal:

É preciso escutar muito e falar pouco para agir bem no governo de um estado. 

Il faut écouter beaucoup et parler peu pour bien agir au gouvernement d’un Etat. (Maximes d’Etat et fragments politiques)
Cardeal de Richelieu retratado por Philippe de Champaigne. A obra é de 1639 e hoje integra o acervo do Louvre

O Twitter, vejam só, a rede social dos 280 caracteres, estimula os usuários a exercitar este registro da prosa tão eficaz em comunicação política. Consciente ou não, Bolsonaro sempre soube explorá-lo bem.

Suporte e método da máxima

É claro que o Twitter não gera necessariamente boa literatura. Prova é o besteirol que se destila por lá. Mas a rede provê um suporte por meio do qual as pessoas são obrigadas a exercitar a síntese, quando a intenção é comunicar juízos e observações. 

Política é prática. Sua natureza, portanto, é dinâmica. Métodos digressivos e letárgicos de comunicar o que acontece simplesmente não funcionam. No Twitter, pessoas de variados escalões do governo rebatem narrativas na velocidade necessária, para reduzir danos e fazer a informação correta chegar à base de apoio.

Na prática, um conjunto de pessoas, via redes sociais ou mídias independentes, têm cumprido o papel que a SeCom falha miseravelmente em desempenhar: evidenciar as coisas. Multiplicar as faces da verdade, sistemática e maliciosamente distorcida pela velha mídia, oposição política e intelectuais desonestos.

Verdade e evidência, ou fato e prova

“Ah, mas a verdade não é auto-evidente?” Se fosse, não haveria no mundo controvérsia. 

O presidente e seus aliados, em sua cruzada cotidiana com as ferrenhas frentes inimigas, voltam-se ao povo repetindo à exaustão João 8,32: E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Na prática, procuram moldar o discurso a exemplo do apóstolo Paulo:

Eu sou devedor a sábios e a ignorantes.

Rm, 1:14

O versículo é citado na Suma Teológica de Tomás de Aquino (I, Q1, A9), obra clássica em que o pensador aristotélico ajuíza o abismo entre algo ser evidente por si mesmo e evidente para os homens. Nem mesmo o que é mais evidente por si mesmo é necessariamente evidente para os homens. 

“Nosso intelecto está para as coisas mais evidentes como os olhos da coruja para a luz do sol, como diz Aristóteles.”

Tomás de Aquino. ST, I, Q1,A5

Guerra assimétrica e redes sociais

As redes sociais redefiniram as estratégias de comunicação entre lideranças políticas e sociedade. A comunicação direta se tornou eficaz. A imprensa tradicional, até outro dia responsável pela ponte entre política e povo, perdeu espaço. 

Hoje, um jornalista do mainstream pode ter menos seguidores no Facebook ou Twitter que um cidadão sem vínculo com meios de comunicação profissionais. Significa que a sociedade conversa entre si diretamente. O poder da mídia é desafiado todos os dias.

Não por acaso, esses ambientes sofrem tentativa de controle e visível prática da censura. A direita domina a internet: detêm as redes sociais e se aventura a criar e consolidar uma imprensa livre. Mas ainda não têm os recursos financeiros necessários para transformar seu poder de fogo em máquinas de guerra. 

Por isso a baixa qualidade da comunicação oficial do governo é um problema de envergadura nacional. A SeCom é ineficiente, pouco criativa e tão proativa quanto um servidor público acomodado protegido pela lei da estabilidade. 

Comunicação falha e campo fértil para narrativas

Um presidente não domina nem a rotina e os atos dos demais poderes, muito menos cada detalhe de 22 ministérios. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitos deslizes para explicar. Muitos feitos para difundir. Como afirmou Tarcísio Gomes de Freitas em entrevista recente, “o governo Bolsonaro vai vencer pelo profissionalismo”

Esse traço, contudo, é constantemente encoberto por narrativas, interpretações distorcidas (com malícia) de fatos associados ao governo, com o objetivo de manchar sua imagem na imaginação do povo. Mas qual o interesse de disseminar visões maliciosas de fatos não necessariamente ligados entre si?

Inimigos camuflados: os liberais igualitaristas

Tanto a esquerda castiça quanto a Nova esquerda cobiçam o controle da máquina pública. Têm projetos de poder. O partido Novo, por exemplo, é dirigido por João Amoedo, homem ligado à oligarquia que mais faturou durante os governos petistas: a dos banqueiros.

Será que a descentralização política e a dissolução dos monopólios propostas pelo governo são realmente interessantes para monopolistas que ganharam rios de dinheiro com governos centralizadores? 

Defender a descentralização da educação, a começar pelo incentivo à educação domiciliar, tampouco interessa a Paulo Lemann, cujo objetivo é manter o controle sobre o setor educacional—extremamente lucrativo quando administrado como um monopólio. 

Contudo, “educação de qualidade” e “reformas econômicas” são assuntos que fisgam o coração da classe média, parte da qual se deixa engambelar facilmente: a) pelas narrativas que pintam Bolsonaro como autoritário; b) pelo discurso liberal de matiz igualitarista pró educação para todos e livre mercado. 

Há solução?

São inúmeros os exemplos de distorções calculadas que fazem o atual governo parecer o que não é. 

O calcanhar de Aquiles que o torna vulnerável à difamação indireta é a ineficiência da comunicação oficial, agravada pela assimetria entre as armas disponíveis à base de apoio e as forças da oposição.

Para sairmos dessa, será preciso criatividade, auto-crítica interna por parte da SeCom e uma persistente confiança, por parte do povo, no juízo clássico a respeito da obscura razão de convivência entre mal e bem no mundo:

Pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer jorrar o bem. 

Tomás de Aquino. ST, I, Q1, A3
fim
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4 Comments

  1. O nosso orçamento Federal de fantasticos 3,8 Trilhões de reais (mais de 900 Bilhões de dolares) e o tema nunca discutido com seriedade, nem pelos canais e meios alternativos de comunicação e muito menos pela Extrema-Imprensa. Só para ter ideia de quanto dinehiro e como rico é o ESTADO brasileiro, o orçamento federal dos EUA (2020), o país mais poderoso e rico do mundo, é de apenas 1,4 trilhões de Dólares
    Poucos, raros os brasileiros que conhecem este orçamento brasileiro gigantesco, que preve apenas R$ 162,6 milhões(2020) do governo federal p sistemas de esgotamento sanitário.
    Num pais que tem menos de 35% da população com esgoto tratado, da-se o luxo de destinar R$ 1,7 bilhões(2020) para a Cultura, 15 Bilhões para o Sistema S e R$150 milhões(2019) para a SECOM gastar com publicidade Estatal.
    Nada contra serem mantidas pelo Estado orquestras sinfônicas, museus e bibliotecas, mas gastar grana para artista ficar tomando champanhe e comendo caviar no Leblon, ou ficar torrando em propagandas estatais inuteis em veiculos de imprensa podres, é, para mim, revoltante.
    A minha anogia simploria, o Brasil é um barraco sem esgoto, sem agua potavel, onde os pais responsaveis pelo orçamento da familia ao invez de gastar 2 mil reais e fazer pelo menos uma boa fossa séptica, preferem gastar 100 vezes este valor, comprando cocaina e uisque e fica dançando chapado ao som de Caetano Veloso enquanto as suas crianças continuam cagando no chão e morrendo de doenças medievais por falta de saneamento basico.

  2. O nosso orçamento Federal de fantasticos 3,8 Trilhões de reais (mais de 900 Bilhões de dolares) e o tema nunca discutido com seriedade, nem pelos canais e meios alternativos de comunicação e muito menos pela Extrema-Imprensa. Só para ter ideia de quanto dinehiro e como rico é o ESTADO brasileiro, o orçamento federal dos EUA (2020), o país mais poderoso e rico do mundo, é de apenas 1,4 trilhões de Dólares
    Poucos, raros os brasileiros que conhecem este orçamento brasileiro gigantesco, que preve apenas R$ 162,6 milhões(2020) do governo federal p sistemas de esgotamento sanitário.
    Num pais que tem menos de 35% da população com esgoto tratado, da-se o luxo de destinar R$ 1,7 bilhões(2020) para a Cultura, 15 Bilhões para o Sistema S e R$150 milhões(2019) para a SECOM gastar com publicidade Estatal.
    Nada contra serem mantidas pelo Estado orquestras sinfônicas, museus e bibliotecas, mas gastar grana para artista ficar tomando champanhe e comendo caviar no Leblon, ou ficar torrando em propagandas estatais inuteis em veiculos de imprensa podres, é, para mim, revoltante.
    A minha anogia simploria, o Brasil é um barraco sem esgoto, sem agua potavel, onde os pais responsaveis pelo orçamento da familia ao invez de gastar 2 mil reais e fazer pelo menos uma boa fossa séptica, preferem gastar 100 vezes este valor, comprando cocaina e uisque e fica dançando chapado ao som de Caetano Veloso enquanto as suas crianças continuam cagando no chão e morrendo de doenças medievais por falta de saneamento basico.

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