Adentrar a sala de estar do Major Costa e Silva implica ser imediatamente acolhido por sua pequena matilha de chihuahuas de pelo longo. Sem medo nem cerimônia, os mascotes escalam o colo dos convidados e inspecionam os recantos do ambiente, enquanto os gatos cochilam no hall. “Há muitos outros, incluindo duas serpentes lá dentro”, adianta o Major, orgulhoso da população-anexa residente na casa ampla e despretensiosa, situada numa rua calma próxima ao aeroporto de Congonhas. 

Motociclista convicto com ares de rockeiro, o major que conquistou quase 800 mil votos na última eleição ao governo de SP (Márcio França e João Dória disputando a tapas seu apoio no segundo turno) não parece preocupado em ostentar uma imagem fabricada, ou atuar diante de possíveis apoiadores sob o signo do cálculo político. Fala dos bichos e da reforma da casa no mesmo tom que comenta os equívocos da Constituição de 1988 e os desatinos da nova esquerda. Comenta os erros de estratégia dos governos militares com a mesma paciência didática com que explica o legado positivo da caserna ao Brasil. 

Admirador de Platão e leitor de Olavo de Carvalho, diplomata por natureza e simples por costume, discorre sobre política alternando símiles, exemplos práticos e analogias. Questionado sobre o temor que inspiravam as Forças Armadas outrora, recorre ao símile do pastor-alemão:

“Tem uma alegoria que rodou muito pelos grupos de whatsapp uns tempos atrás, ilustrando porque muitas pessoas tinham medo dos militares. E eles fazem uma comparação entre o cão pastor, a ovelha e o lobo. A ovelha é vítima do lobo. O lobo é a personificação do mal. Quem consegue proteger a ovelha dessa maldade é justamente o cão pastor. Só que as próprias ovelhas muitas vezes temem o cão pastor, porque o pastor se assemelha ao lobo. Ele seria aquele ser que, ao mesmo tempo que tem controle e conhecimento, tem a capacidade e a predisposição à violência necessárias para combater a violência”.

Militar da ativa, as regras do quartel limitaram bastante a visibilidade da candidatura. Mesmo assim, conquistou uma fila de apoiadores leais durante a baratíssima e bem-sucedida campanha ao governo, em que angariou a 5ª posição e precisos 747.562 votos. Hoje, seus eleitores da capital paulista (131.437) defendem com unhas e dentes uma possível candidatura à prefeitura de SP. Daniela, a esposa, amiga de todas as horas e colega de moto-clube, aposta no marido como vereador: “Ele é um grande articulador, seria muito mais valioso no legislativo”. “Nesse caso, eu sairia logo disputando a liderança da câmara”, rebate o major, simpático às duas instâncias. 

Uma hora e meia de entrevista e contraparte semelhante de conversa informal me deixaram em dificuldades. Dotado da necessária habilidade dialógica para persuadir, a convicção e simplicidade que transmite ao discorrer sobre a miríade de problemas políticos brasileiros o tornam igualmente talhado ao executivo. Que a decisão venha no momento oportuno. E que a próxima candidatura não seja alvo de outro atentado… 

O apuro em ter seu carro baleado na volta de um evento em Mauá, o que incidiu em acidente sem ferimentos graves, abalou mais a pressão da esposa que sua integridade física e moral. Esta, teve-a subestimada numa das reuniões visando seu apoio no segundo-turno. Um dos candidatos ouviu suas ideias sobre segurança pública e comprometeu-se em empregá-las. Outro, evocando o senso de “objetividade”, ofereceu-lhe um posto bem remunerado ao qual, garantiu, mal precisaria comparecer. Atônito, resolveu-se pelo mal menor.

“Em política, temos os tubarões e os peixinhos que orbitam em torno dele, com o propósito de angariar as sobras do grande predador. Do ponto de vista estratégico, esses peixes pequenos nunca representam o mesmo risco que os tubarões”.  

Reproduzimos na íntegra, sem cortes nem remendos, uma conversa com Adriano da Costa e Silva, major do Exército, casado, pai de dois filhos, 42 anos de idade e 24 de atuação militar. Formado pela Academia das Agulhas Negras, já foi professor universitário de administração. Hoje, trabalha em funções de comunicação no Exército–para as quais de fato não lhe falta talento, a julgar pela extensão e amplitude de sua disposição ao diálogo:

“A parte mais divertida da campanha, para mim, não era palestrar em ambientes de direita. Eu gostava mesmo era de ir debater em ambientes de esquerda e sair de lá respeitado”. 


Entre uma série de ativistas, têm-se dito que há uma preferência pelo nome do senhor como candidato à prefeitura de SP em 2020. Embora não esteja certo, caso o senhor viesse a concorrer, qual seria a pauta mais importante para tentar consertar o estado lamentável em que se acha a cidade?

A cidade de São Paulo está abandonada há tanto tempo que é difícil até você eleger um problema para resolver, ou eleger uma pauta principal. Na verdade, você precisa reestruturar muita coisa na prefeitura, na administração da cidade, para ir pontualmente resolvendo alguns problemas, ou dando um suporte para que esses problemas possam ser resolvidos ao longo dos outros anos. Ano passado, fui candidato a governador, e eu falo pra todo mundo: “quem disser que vai resolver o problema do estado, o problema da cidade, o problema do Brasil em quatro anos é, no mínimo, mentiroso. Agora, a gente pode até dizer que o cara é sonhador. Mas acho que é mais pra mentiroso que pra sonhador. Porque a situação é tão complicada, é tão complexa, que são anos para se conseguir sentir algum resultado concreto de melhoria efetiva para a população… 

A cidade de São Paulo é a maior cidade do país, a quarta maior cidade do mundo. Os problemas são grandes. Tem muita coisa de infraestrutura que foi abandonada, que foi deixada para trás. Nós temos regiões de São Paulo que sofrem alagamentos todos os anos e não se faz nenhuma obra específica… e aí eu falo que o pessoal criticava muito algumas obras no passado, né? Eu não gosto do Maluf, mas, aqui na região da Água Espraiada, por exemplo, ele fez aquele piscinão. Antes daquele piscinão, toda vez que chovia, aquilo ali virava uma piscina. Todo mundo perdia os móveis, o pessoal perdia as casas, era uma calamidade pública gigantesca ali. Feito o piscinão, nunca mais teve alagamento. Então, soluções para os problemas, existem. Não são soluções imediatas, não são soluções mágicas, mas existem. Nós temos o problema, o problema viário na cidade de São Paulo é muito grande. Houve durante muitos anos pouca preocupação em se reestruturar o sistema viário ao mesmo tempo em que os governos anteriores, numa atitude muito populista, resolveram facilitar as condições de financiamento dos veículos. Então a nossa frota cresceu absurdamente, e o espaço para esses carros andarem continuou o mesmo. Então tem menos espaço, menos metro quadrado por carro hoje na cidade. Eu até brinco com o pessoal, né? A gente estava falando sobre andar de moto… Eu prefiro andar de moto porque carro, daqui a pouco você vai deixar de pagar IPVA e vai pagar IPTU.

O senhor está falando de infraestrutura, que de fato é um ponto nevrálgico, um problema muito grave. Mas, pensando que a gente está submetido a uma Constituição que segue um modelo social, uma Constituição de direitos que obriga o Estado a assumir responsabilidades demais, a pergunta que eu me faço, e gostaria de saber se o senhor se faz também é: se a gente tivesse no Brasil uma Constituição liberal, no sentido de que se deixasse à sociedade civil o cuidado sobre a maior parte das coisas, limitando o Estado a cuidar do que realmente é de interesse público, e por interesse público, aí sim a gente pensa nos problemas de infraestrutura, circulação, etc.; o senhor acha que a administração de cidades tão complicadas como São Paulo ficaria um pouco mais simples?

Com certeza.

Por que escolas… 

Não, olha, o que acontece… Escolas, por exemplo. Quando se lê a Lei de Diretrizes e Bases da educação, você já percebe que existe uma distribuição de responsabilidades entre os diversos poderes. Às prefeituras, deveria caber a educação infantil. E hoje o que a gente percebe? Existem escolas municipais de 1º, de 2º… na verdade, tinha uma escola municipal aqui, até pouco tempo atrás, inclusive de ensino médio. 

Caramba. São Paulo chega a ter isso?

Tinha. Eu não sei se ela ainda existe. Era aqui próxima ao metrô Jabaquara. Então, na verdade as esferas acabam invadindo uma o campo da outra. Essa desorganização por si só, ela já gera um problema muito grande.

De onde vêm essa desorganização? 

Isso é cultura. Um elemento da cultura do brasileiro. Porque a grande necessidade… Os governos tomaram posições populistas porque essas posturas populistas se revertiam em votos. A verdade é que você fazer aquilo que realmente é necessário nem sempre aparece, nem sempre é eleitoreiro. Hoje, você vê, São Paulo, por exemplo: nós temos uma deficiência de quase 30%, na cidade de São Paulo, de infraestrutura de saneamento básico. É o tipo de coisa que vai ser feito, que vai ficar debaixo da terra e o cidadão dificilmente vê. Então, o prefeito que resolva o problema da infra-estutura de saneamento básico da cidade, para a maior parte da população vai ser um prefeito que não fez nada. Ninguém vai querer votar nele de novo. Mas é uma coisa que precisa ser feita. E nós temos… na cultura brasileira, desde 1985, com o término do governo militar e os novos partidos surgindo, ser político virou profissão…Então, ele está preocupado com o próximo contrato de trabalho dele que vai se iniciar com o término do mandato. Isso é um problema, porque quando ele fica dependendo do próximo mandato para manter a “profissão”, ele acaba se preocupando naquilo que vai dar resultado, naquilo que vai ser marketing pessoal para ele…

E pensa no curto prazo? Sim. E todas as soluções que estão sendo tomadas há muitos anos são soluções de curto prazo.Quando as necessidades são de soluções de longo prazo. Então, nenhum projeto hoje vai ser resolvido de uma hora para outra. Quando você fala, por exemplo, em resolver o problema da educação no Brasil, não adianta você falar que vai fazer um projeto em dois anos e vai resolver. Não vai. 

Demora 20, 30…20, 30 anos. É preciso começar a trabalhar uma geração que hoje está no ensino infantil, começar a trabalhar valores, educação moral e cívica, valores morais; depois, iniciar no ensino fundamental, aquilo que é realmente essencial, português, matemática, história… sem viés ideológico; geografia também sem viés ideológico. Se ele não tem noção do país em que ele vive, esse cidadão não vai conseguir produzir nada. 

Mas liberar o estado de tantas responsabilidades não seria um passo importante para que os gestores das esferas municipais conseguissem trabalhar? Porque a gente está falando de São Paulo que é a maior cidade, portanto concentra os maiores problemas. Mas acho que toda a administração municipal é complicada enquanto o estado tiver tantas responsabilidades: saúde, educação, etc., não? 

Olha, a grande raiz da maior parte dos problemas que nós vivemos hoje, na minha visão é a Constituição de 1988. 

Certo. É isso o que eu gostaria de saber

Por quê a Constituição de 88? É muito simples. Quando você dá uma incumbência para o Estado, ele precisa de uma estrutura para poder cumprir aquelas incumbências. Quando eu dou apenas aquelas incumbências essenciais, que seriam educação, defesa nacional, infra-estrutura para garantir que as empresas cresçam, que as empresas produzam, que as empresas gerem emprego (…); quando eu começo a atribuir mais e mais funções para o Estado, eu vou tornando o Estado cada vez mais inchado. O Estado mais inchado já começa sendo ineficiente. E mais do que isso. Além de ser ineficiente, para que você possa produzir e para que você possa oferecer um serviço, você precisa de uma contrapartida, você precisa ter dinheiro entrando. O dinheiro que o Estado arrenda, ou seja, o imposto, nós já temos uma carga tributária absurda no Brasil para sustentar um Estado que tem excesso de atribuições e ainda assim, com a ineficiência, incompetência, falta de capacitação de muitos gestores, administradores; o dinheiro é mal aplicado, ou seja, não temos eficiência na aplicação do recurso; temos uma crescente necessidade de recurso, porque as atribuições são muito grandes. E eu falo uma coisa… que muitas vezes as pessoas não entendem. Eu falo sobre dever e direito. Quando eu falo que o Estado tem o dever de oferecer saúde… Por exemplo, quando eu falo que você tem o dever de ajudar uma pessoa que esteja passando por necessidade, você tem o dever enquanto ser-humano… O dever moral? É, o dever moral. Você tem o dever de ajudar. Mas o seu dever se limita à sua possibilidade. Você não é obrigada a passar fome para dar de comer para outra pessoa. Se você tiver condições, você tem dever moral pra isso. Agora a partir do momento que eu digo que ele tem o direito de receber essa ajuda, ou direito de receber esse serviço, eu crio uma incumbência pra gente, ou pro Estado, em que a capacidade dele não importa. Ele tem que fazer e não interessa como ele vai fazer, se ele vai se endividar, se ele vai pegar dinheiro emprestado, se ele vai prestar um serviço meia-boca, um serviço que não seja adequado; porque eu criei um contrapeso de direitos que geram deveres para o Estado muito além daquilo que ele pode fazer.

Então esse é o problema: Num Estado de direitos, o dever, digamos, que o estado poderia cumprir acaba se tornando uma obrigação que sufoca todo o resto da sociedade, porque “Estado”, é a própria sociedade que o sustenta. Então, para garantir esse direito você aprisiona, acorrenta toda a sociedade… Ao mesmo tempo, há descontinuidade entre um governo e outro, um não necessariamente leva adiante o que o anterior começou.

Não existe um projeto de estado. Existem projetos de governo. São projetos de governo. Hoje, a gente cita vários exemplos. Pega uma empresa. Dificilmente o dono da empresa vai pensar até o mês que vem. Ele vai pensar para daqui a 20 anos, daqui a 30 anos porque ele imagina que vai continuar à frente da empresa. Foi ele que construiu a empresa, foi ele que fez. Existe um conceito de um economista americano, me fugiu o nome agora (Larry Diamont, autor de Facing Up to the Democratic Recession [“Enfrentando a recessão democrática”], publicado no Journal of Democracy, vol. 26, Number 1 January 2015), que ele chama de recessão democrática. E é engraçado porque ele chega quase a justificar uma ditadura com o que ele fala. E é interessante porque ele diz o seguinte: Por que hoje alguns países que não seguem o modelo democrático têm tido tanto desenvolvimento econômico, enquanto os mais democráticos, não? Por causa daquela questão: a reeleição. Eu preciso fazer aquilo que vai me garantir a reeleição. Então, meu projeto é para daqui a quatro anos, para que eu seja reeleito; e daqui a mais quatro anos, um outro projeto; e ninguém consegue pensar, hoje, em iniciar um trabalho que vai render frutos daqui a 30, 40, 50 anos. Ninguém dimensiona o trabalho para aquilo que vai acontecer daqui a muitos anos. Hoje quando vc fala em… a gente estava falando de infra-estrutura. Mas quando você pensa, por exemplo, em fazer um hospital… Vou construir um hospital aqui no bairro do Jabaquara. O pessoal pensa “Ah, o bairro do Jabaquara tem 1 milhão de habitantes”. Então eles raciocinam em fazer um hospital que tenha condição de atender 1 milhão de habitantes. Daqui a 5 anos vai ter 1 milhão e 200 mil. Esses 200 mil não estão contemplados nesse projeto! Ou seja, eu já iniciei o projeto, que vai ser muito bonito, vai ficar pronto em 4 anos, a população vai gostar, mas ele não vai ser efetivo. Ele é natimorto, porque já começou atendendo menos do que seria preciso.

A gente poderia dizer que este gargalo chamado “falta de planejamento” está diretamente ligado a se ter projetos de governo, e não projetos de Estado?

Há uma relação sim. E junto com isso, como a gama de obrigações do Estado é muito grande… por causa da Constituição… por conta da Constituição, mais ainda essa quebra de planejamento acontece. Porque se um governante nesse momento, ele elege como bandeira dele a educação, ele vai investir em educação, vai melhorar as escolas, vai garantir que os professores sejam bons, vai garantir a infraestrutura de segurança dos alunos… e vai deixar de lado a saúde. O próximo governante vai chegar à conclusão que a saúde é mais importante que a educação. E aí ele vai garantir que os hospitais fiquem melhores e enquanto isso as escolas vão se deteriorando. Então, até o trabalho que foi feito anteriormente, que pode eventualmente ter sido positivo, ele acaba se perdendo na gestão seguinte com as mudanças de prioridade. Se nós tivéssemos poucas atribuições, seria mais fácil e o deterioramento de um ou outro setor seria muito menor. Então desde a Constituição de 1988 o Brasil vem patinando, patinando, patinando, ele dá um passo pra frente, mais dois para trás, dá mais um pra frente e acaba não saindo do lugar.

Um dos problemas políticos mais graves para liberais e conservadores é a centralização. Uma das coisas que a gente mais combate, que a gente considera mais capaz de deteriorar as liberdades individuais, a possibilidade de um indivíduo de ser dono do seu destino é a centralização. Eu gostaria de saber como o sr. vê a centralização política em geral,  e qual é a visão do senhor sobre a centralização, e mais especificamente com respeito ao trabalho de um prefeito. 

O pacto federativo é interessante porque quanto menor a esfera de poder, mais proximidade você tem com as reais necessidades do seu povo. 

Quanto mais descentralizado, mais eficiente?

O que acontece… a grande verdade é que as Prefeituras deveriam ficar com a maior parte dos recursos e também ter a maior parte das atribuições. Porque a cada região… Ainda mais quando vc fala em termos de Brasil, onde há diferenças culturais entre as regiões, por conta dos costumes, da história, das peculiaridades geográficas de cada região. As necessidades locais são muito diferentes. Então, quanto mais você descentraliza a administração, mais eficiente, ou maior chance você tem de resolver os problemas. 

E do ponto de vista do estabelecimento de leis? O senhor entende que mudanças na legislação devam vir de baixo para cima, ou o senhor não considera tão problemático assim alterações legais postas de cima para baixo? Não só do ponto de vista nacional, mas supranacional, como a notável influência de organismos internacionais sobre a atuação de nosso congresso em décadas recentes, por exemplo.

O que eu vejo é assim… Nós temos que ter primeiro uma unidade. A gente tem que ter uma Constituição. Acho que o primeiro passo seria abolir a Constituição de 1988, esse é meu posicionamento. Eu sou militar e como bom militar eu sou um legalista. Vou seguir a Constituição enquanto ela estiver aí, embora o coração diga que a gente está indo para o caminho errado. Eu acho que a gente tem que, primeiro, mudar a Constituição, porque o texto de 1988 entra em detalhes, em nuances tão pequenas. Por exemplo, está na Constituição Federal a existência do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Aí eu me pergunto: o que é a existência de um colégio no Rio de Janeiro reflete no Brasil inteiro? Uma Constituição federal tem que estabelecer aquilo que é regra geral. Ela tem que ser uma lei superficial. No sentido de genérica… Ela tem que ter plasticidade, o senhor que dizer? Exatamente. Pra quê? Para que quando a gente desça para a esfera estadual, a gente possa começar a trabalhar com as regionalidades, as peculiaridades de cada região, com as variações de costume, e, nesse ponto, eu acho importante até que se fale em código penal. O código penal hoje é único para o Brasil inteiro. Alguns crimes, tudo bem, até podem estar previstos sim numa legislação federal. O crime de homicídio. É fato que matar alguém vai ser crime em qualquer lugar e em qualquer cultura. Mas as penas tem que ser adequadas a cada região. Você falar hoje, na cidade de São Paulo, que uma criança de 14 anos não tem condições de saber o que faz é hipocrisia; ainda mais aqui em São Paulo, onde o fluxo de informação, a velocidade de informação é muito maior. As crianças amadurecem muito mais rápido. É diferente, por exemplo, de eu falar do interior da Amazônia, onde muitas vezes você tem comunidades indígenas onde as crianças com 14 anos ainda são bastante infantilizadas. Então temos diferenças regionais. Não adianta criar uma coisa única pro Brasil inteiro. Você precisa regionalizar. Tratar com diferença aqueles que são desiguais. Então a gente tem que começar mudando a Constituição, já que tudo o que vem de baixo não pode contrariar o que vem de cima. Mas essa Constituição, ela tem que ser focada naquilo que realmente é incumbência da União: defesa nacional, integração nacional, a questão da relação entre os estados…

Como o senhor vê a relação entre o Estado e a pesquisa? 

A pesquisa brasileira… seria cômico, se não fosse trágico, né? A gente fala isso… Refiro-me às ciências naturais. É bastante criticável o que os governos militares fizeram em educação em certos pontos. Agora, do ponto de vista da abertura de pós-graduação e criação de uma cultura de pesquisa nas politécnicas, por exemplo, isso abriu caminhos, não?  É, porque houve uma preocupação no que se dizia respeito à pesquisa aplicada. Hoje nós temos uma preocupação muito grande com a pesquisa pura, embora a pesquisa aplicada seja importante também, ela não pode ser completamente abandonada… Elas estão vinculadas, né? Mas é preciso uma base teórica para, a partir daquele conhecimento geral, se partir para uma pesquisa aplicada, e um direcionamento muito negativo que a gente tem e… olhe, quando eu falo isso o pessoal normalmente da área de Humanas fica louco. Não que a área de humanas seja desnecessária. Eu acho que o estudo de sociologia é importante para se compreender o psicológico coletivo; a filosofia, para que você possa fazer um exercício de reflexão, de pensamento; mas não acho que isso deva ser a base da nossa pesquisa. 

Mas à medida que áreas assim estão vinculadas ao estado, não se tem liberdade, uma vez que o estado deve respostas à sociedade. Estar ligado a uma Universidade pública definida em termos de metas de produção… isso  acaba interferindo na liberdade de um pensador sério, por exemplo… Aí a gente entra justamente num aspecto importante, quanto ao financiamento da pesquisa ser todo centralizado no Estado. Existe muito pouco financiamento privado para a pesquisa. E isso se torna até difícil… Ano passado eu tive uma assessoria muito boa do pessoal da Unicamp, inclusive um companheiro de turma meu. Ele se formou na academia comigo, depois foi para o Instituto de Engenharia, se tornou engenheiro militar. Ele concluiu recentemente o doutorado dele na Unicamp e ele estava junto com o orientador dele, e eles me ajudaram, inclusive, a preparar um pouco o nosso plano de governo na parte de ciência e tecnologia. E ele comentou uma coisa comigo, até porque ele está muito mais nesse métier, que é uma coisa que eu não sabia e acho que muita gente também não sabe. Hoje, quando uma empresa pensa em desenvolver um determinado aplicativo, uma determinada tecnologia, eles verificam que nós estamos, por exemplo, no nível 3, enquanto nos EUA eles já estão no nível 5. E fica mais barato eu comprar o nível 4 e aplicar aqui do que tentar desenvolver um nível 4 para chegar a um nível 5. Isso é algo que, nós deixamos isso acontecer. Mas se isso está acontecendo hoje, entra a obrigação do Estado de subsidiar esse tipo de pesquisa para que a gente não fique tão defasado. E esse tipo de pesquisa se justificaria porque reflete no bem comum de maneira ampla? Exatamente. Vai gerar realmente um bem-estar para a população. A gente tem que parar pra refletir esse ponto. Eu vi algumas teses de mestrado e doutorado em algumas Universidades recentemente e uma delas foi (eu achei um absurdo, né?): “As interações homossexuais nos banheiros públicos do Rio de Janeiro”. Então, eu não vejo qual é a vantagem, qual é o ganho que existe para a sociedade em se estudar um fenômeno desse… E se o dinheiro é público, deve haver um pacto entre a sociedade e o direcionamento do dinheiro, não? Sob o risco de intensificar a crise de representatividade ainda mais. Eu tenho uma visão assim. Às vezes eu sou um pouco criticado porque, quando a gente fala sobre o governo militar, eu tenho muita coisa boa para falar de governo militar, mas eu tenho para mim aqui uma culpa que eu carrego comigo por ser militar que… Na verdade, o general Golbery [Golbery do Couto e Silva], na época justamente focando no combate à guerrilha, raciocinou que deveria haver uma válvula de escape para a esquerda que estava sendo perseguida, ou que estava perdendo seu espaço. Ele achou que essa válvula de escape seria o setor cultural e, por consequência, começou um aparelhamento das universidades, que foi se refletindo nos demais setores, afinal de contas, as cabeças pensantes que coordenam o Brasil passaram pela Universidade e, dentro da Universidade, foram doutrinadas, tiveram apenas a repetição de ideias antigas, velhas e ultrapassadas vindas do século XIX e se esqueceram de tudo o que aconteceu no século XX. Formação técnica somada a um ideário político obsoleto? Ultrapassado. Então isso acaba gerando um problema muito grande de atraso pra gente porque, lógico, voltam para as Universidades para serem professores universitários aqueles que se formaram naquelas universidades, se pós-graduaram naquelas universidades e voltam lá para dentro para repetir a mesma coisa que ouviram. Então, houve sim essa falha no passado. Eu acho até interessante um texto do Olavo de Carvalho em que ele comenta que ele só percebeu a guerra cultural marxista em meados da década de 90. Isso me tranquilizou, porque se ele que é um grande estudioso do caso só tomou essa consciência na década de 90, então os militares da década de 80 estão desculpados. (Risos) Era difícil prever, então? Não dava para se perceber quais seriam as consequências a longo prazo. E eu costumo dizer pro pessoal que desfazer aquilo que foi feito, levando em conta que isso vem acontecendo há cerca de 50 anos, nós vamos levar outros 50 anos para mudar. Eu vejo hoje, tenho tido contato com vários movimentos sociais, movimentos conservadores, movimentos de direita, e isso, eu falo para eles que, até alguns anos atrás, eu olhava para o país e ficava desesperado. Eu me dizia: “Meu deus do céu, o que a gente vai fazer? Não vejo mais nem uma fagulha, nem uma pequena chama querendo se acender para esse Brasil mudar”. E o surgimento de vários movimentos de direita, movimentos conservadores, têm justamente sido essa centelha, né?, que tem feito o Brasil pegar fogo para voltar a ir pra frente. Então, eu acredito que nós estamos agora começando, com os movimentos conservadores, a promover essa mudança que vai dar resultado daqui a 50 anos. 

Eu queria que o senhor fizesse, se não for um problema para o senhor, uma avaliação da prefeitura do Bruno Covas. Acompanhei, por exemplo, o dinheiro investido pela prefeitura na parada gay. Eu pesquisei o quanto a prefeitura de São Paulo investiu na marcha para Jesus Cristo e não encontrei nada, não achei a informação. Só sobre o apoio no Rio. Mas a justificativa da prefeitura costuma ser o potencial de receita gerada por grandes eventos para uma cidade, portanto faria sentido o estado investir não importa em que eventos, havendo retorno financeiro. Conforme esse raciocínio, a parada gay seria um evento que gera divisas para o município. Mas o senhor acha possível manter a harmonia social raciocinando em termos utilitários?

Olha, a justificativa para um investimento tão grande, essa visão de que gera divisas por conta do turismo, porque aumenta a ocupação hoteleira, restaurantes ganham mais, gera mais imposto, etc; essa explicação tecnicamente e matematicamente é linda! Mas é aquele negócio… Vou fazer uma comparação esdrúxula, mas é uma comparação: tráfico de drogas também dá dinheiro e nem por isso é correto. Então eu acho o seguinte, nós temos que estimular eventos que gerem divisas para as cidades, sim. Mas cabe ao Estado fazer isso? Como fomento inicial, em situações pontuais em que você dá um start para um determinado evento até que ele possa andar sozinho. Mas é assim, você tem que fazer uma previsão para que esse grande evento se torne auto-sustentável e se financie sozinho. Você pode até fazer um investimento inicial para que ele possa começar, ou para que aquela ideia surja. Outra comparação: o governo militar criou muitas estatais, algo que é muito criticado e de fato criticável. Mas, por exemplo, quando se criou a embratel, nós tínhamos um país que não tinha integração de comunicação nenhuma. O tempo de investimento e o tempo de retorno desse investimento ia ser tão grande que a iniciativa privada não tinha capacidade de fazer, nem interesse, pois não era algo economicamente viável. Então o Estado entrou, criou a Embratel, criou aquela infra-estrutura, fez aquele investimento porque era de interesse nacional, interesse de todos. E a partir do momento que a Embratel cumpriu seu papel e que precisou de subsídio do Estado, ela passa a ser empresa pública. Hoje, a partir do momento que as concessões de telecomunicações passaram a ser privatizadas, você vê o quanto se cresceu e se facilitou a comunicação. Há 20, 30 anos, você ter uma linha telefônica em casa era quase um luxo, custava o preço de um carro. Hoje você ligar para a empresa e no outro dia você tem uma linha telefônica na sua casa sem custo nenhum. Então, foi necessário naquele momento e depois o setor passou a andar por conta própria. Eu cito até um evento daqui de São Paulo que começou como uma felicidade e depois se tornou uma frustração pessoal: a Virada cultural. A primeira Virada cultural, eu morava quase ali na esquina da São João com a Ipiranga e eu me lembro que na primeira virada cultural eu saí com minha esposa e com meu filho e nós andamos ali, e havia peças de teatro, pequenos artistas, cada um demonstrando seu trabalho. E teve um pequeno subsídio da prefeitura. Era uma coisa bonita de se ver, era bom passear ali, era algo que integrava os cidadãos. Então, era um investimento que a prefeitura fazia, mas era um investimento justificado. Depois eu fui transferido, fui morar fora da cidade de São Paulo e quando voltei, fui morar no centro, naquele mesmo prédio. E aconteceu de a virada cultural ocorrer no final de semana da minha mudança. Então estava só eu e minha esposa e eu falei “vamos dar uma volta? A virada cultural estava tão bonita quando a gente veio da outra vez”… E não dava para sair. Não era mais uma atividade feita para um casal, para uma família. Eram pessoas alcoolizadas no meio da rua. Eram palcos de música de gosto duvidoso. Apenas artistas já renomados, que já ganham muito bem, ou seja, não existia fomento à cultura, não eram novos artistas que tinham dificuldade de mostrar o seu trabalho e estavam ali tendo uma chance de apresentar, como era no início. Deixou de ser algo cultural e passou a ser algo comercial, subsidiado pela prefeitura. Aí ela se desvirtuou e perdeu a finalidade. Mas a ideia inicial do projeto era maravilhosa. E se tivesse sido mantida, tenho certeza que hoje teríamos a Virada cultural na cidade de São Paulo sem necessidade de investimento por parte da prefeitura. Porque elas iriam se auto-financiar. As empresas veriam interesse em subsidiar, em fomentar aquela cultura, em criar situações, porque a família iria assistir, a família veria a propaganda da empresa, então ela realmente seria auto-sustentável.

Tendo por parâmetro as dificuldades do presidente e de sua equipe de ministros com o congresso, que não pudemos, infelizmente, renovar a contento, como o senhor encara assumir uma prefeitura com uma câmara de vereadores trabalhando contra? Como essa dificuldade entre executivo e legislativo atrapalha a gestão em nível municipal? Atrapalha em qualquer nível. Municipal, estadual, nacional. Enquanto você tiver um embate entre o executivo e o legislativo, você vai ter dificuldade de trabalhar.  Na esfera municipal, na prática, que tipo de embate pode atrapalhar? A própria destinação de recursos, a lei de diretrizes orçamentárias do município é votada pelos vereadores. Então eles já definem o que o Executivo pode fazer; já definem no ano anterior o que o EXecutivo vai poder fazer no ano seguinte. Lógico, existe uma pequena liberdade de manobra, mas é muito pequena. Isso se deve ao fato de a Constituição de 1988 ter sido escrita já pensando no Parlamentarismo? Sim. Na verdade, a Constituição de 1988 tem diversas falhas. A primeira delas é que buscou enfraquecer o Executivo com receio de um Executivo forte se tornar um governo ditatorial. Existia uma mentalidade, no pós 85, de desconfiança. Então se achava que qualquer governante, sendo eleito pela maioria do povo, era uma pessoa só, teria condições de, aproveitando de sua popularidade, tentar reverter a situação e tentar fazer o que ele quisesse. E não houve desconfiança quanto à possibilidade de o próprio parlamento fazer isso? Eles entendiam que era mais difícil. Tem uma obra, não sei se você já leu — como eu leio de tudo para saber o que ambos o lados falam, afinal você não pode criticar aquilo que não conhece –, mas Hitler fala uma coisa muito interessante. Ele fala que o parlamento não tem responsabilidade porque não tem caráter pessoal, diferentemente do executivo, e isso é verdade. Hoje, se o Executivo cometer uma falha, hoje, quando o presidente é Jair Messias Bolsonaro, todo mundo vai olhar pro Bolsonaro e falar assim “A culpa é dele”. Se o congresso faz alguma coisa, a culpa é do “centrão”, a culpa é da “esquerda” Não tem rosto. Não tem rosto. Então as pessoas tratam o legislativo com muito menos responsabilidade pessoal porque a responsabilidade realmente não é pessoal, ela é coletiva. Você tem 513 deputados e ele é um voto. Um voto no meio de 513, ele é considerado nada. Então essa facilidade de omissão no legislativo faz com que as decisões não necessariamente atendam os anseios do povo. 

Do ponto de vista do aparelhamento do Judiciário, não necessariamente na esfera federal, mas na esfera estadual, por exemplo, esse aparelhamento tem atrapalhado a gestão de quem hoje está no governo do estado de SP?

Tem. Isso também é outra falha da Constituição. A CF de 1988, querendo garantir a liberdade e o direito, criou no Judiciário uma casta completamente dissociada da população. Então nós temos bons juízes, bons magistrados. Não se pode generalizar, temos pessoas muito inteligentes, muito capazes, muito competentes e muito coerentes. Juízes conservadores, muitos até amigos meus. Mas mesmo esses muitas vezes se sentem seduzidos pelo poder que lhes foi dado. Hoje um juíz tem inamovibilidade, ele nunca vai deixar de ser juíz, vai ser juíz pela vida toda… Estabilidade, aposentadoria integral, são muitos privilégios. São vários privilégios. Eu sou sim a favor que um juiz seja muito bem remunerado porque… Precisa, né? Para evitar corrupção. Exatamente. Você tem muita possibilidade de corrupção ali. Mas nós remuneramos, damos o poder, damos garantias, damos vitaliciedade… Um juíz hoje, por exemplo, que cometa um desvio de conduta muito grande e seja condenado a deixar de ser juiz, ele não deixa de ser juíz. Ele vai ser aposentado. Aposentadoria compulsória. É diferente, por exemplo, de um funcionário concursado que, se fizer alguma coisa errada, pode perder o emprego num processo administrativo ou até responder a um processo cível de improbidade administrativa que nem sempre é dolosa, muitas vezes é culposa. 

Como o senhor avalia esse projeto de abuso de autoridade recentemente votado no Senado? 

Ele tem dois lados. Quando você olha qual é a real intenção dos deputados… A real intenção dos deputados é criar mecanismos para que eles possam se defender das investigações. Essa é a intenção e a intenção por si só é espúria. Mas existe um outro lado. Nós temos hoje um Ministério público aparelhado que muitas vezes  persegue determinadas pessoas. No ano retrasado, por exemplo, criaram um bloco de carnaval, que era “o bloco soviético” e ninguém falou nada, e a União Soviética é responsável por um genocídio de milhões de pessoas. Aí o pessoal do Direita SP, o Douglas Garcia, criou o “Porão do Dops” e imediatamente o Ministério Público foi pra cima dele, sob pretexto de que ele estava fazendo apologia à ditadura, apologia à tortura. O Gramscismo existe no Judiciário também? Exatamente. Então, a nossa própria estrutura legal afirma que o juiz tem que julgar conforme suas próprias convicções. E se ele tem uma convicção marxista, ele vai julgar com a convicção marxista. Então, por exemplo, um juiz federal, né… Mas aí se perde a neutralidade da lei, se você diz para um juiz julgar conforme as convicções.  Esse é o problema. Isso é doutrinário. Está na formação dos juízes brasileiros? Sim, Eles tem que julgar conforme suas convicções. Dentro da lei, mas conforme suas convicções. Mas muitas leis nossas acatam uma interpretação muito grande do juíz. E o juiz interpreta conforme ele pensa. Então, eu já vi alguns casos… Por exemplo, toda vez que existe uma ação contra a Instituição, contra o exército eles correm na justiça federal. Então se você pune um militar, a punição é administrativa, tem toda uma ritualística correta, uma formalidade a ser seguida, você segue a formalidade e vc julga conforme os costumes e valores da caserna e aí você aplica uma punição designada a determinado militar. Ele está inconformado, ele pede lá os recursos administrativos e ele entra contra a decisão de um comandante, um mandado de segurança. A própria Constituição diz que não cabe habeas corpus contra punição disciplinar. Na justiça militar. Está na Constituição. Mas eu já vi juiz conceder. Porque ele entende que a postura do comandante foi muito além do que deveria ser feito, então ele entra numa esfera que não deveria entrar, porque está previsto inclusive na Constituição. Você vê algumas decisões… Minha esposa é advogada. Então às vezes eu vejo mais coisa acontecendo. Por exemplo, um caso que a gente viu há pouco tempo: um mandado de segurança contra o Detran. E a gente fala: Detran é terrível, o serviço é deplorável. Então a pessoa tinha recebido uma quantidade x de multas e recebeu a determinação da suspensão do direito de dirigir. Até aí, aparentemente correto. Mas uma daquelas multas foi alvo de um recurso e eles deferiram o recurso. Mas esqueceram de anular a pontuação. Bom, foi feito o recurso, foi demonstrado que a multa tinha sido anulada. Eles não consideraram e então se entrou com mandado de segurança. Em primeira instância, o juiz concluiu que se o Detran falou que estava certo, então estava certo.  Mas objetivamente estava errado. Precisou ir pra segunda instância, para que 3 desembargadores avaliassem… Aí não, mas aí é muita ineficiência… Mas essa ineficiência é mais comum do que a gente vê. São centenas de decisões de 1ª instância que são mal-feitas, mal-embasadas, e aí a gente olha e pensa: “De onde o juíz tirou essa conclusão?” Aí precisa ir pra uma 2ª instância, com 3 desembargadores para avaliarem a mesma coisa, quando na verdade a 2ª instância deveria ser para casos muito controversos em que a decisão do juíz pode suscitar alguma dúvida. E existem aspectos que são tão controversos que eles vão subindo, subindo, subindo até que, às vezes, viram um sumulário no STF, para que o STF fale assim: “toda vez que acontecer isso, já que há dúvidas na Constituição, a gente age assim”. Pra isso que existem as súmulas vinculantes. Mas há coisas que são tão absurdas, que não deveriam chegar nem na segunda instância! Mas chegam.

O senhor aponta uma série de aspectos que tornam a administração pública de maneira geral, e o próprio equilíbrio de poderes, deficitário em razão da Constituição. Mas eu me pergunto como a gente faria a transição; como se faria para solicitar uma nova constituição. Seria um movimento popular? Do ponto de vista prático, como seria a transição na sociedade? Por que o momento parece favorável. A crítica à Constituição é constante. Ouvimos de muitas partes e o tempo todo. Mas como isso ocorreria? Olha, o artigo primeiro da Constituição já nos garante o exercício do poder de forma direta e indireta. Indireta através do voto e direta através do plebiscito. Se nós somos um povo, temos esse direito garantido na Constituição e temos o consenso de que a Constituição do jeito que está não atende às necessidades e anseios do povo, que somos nós, cabe à gente brigar para que esse plebiscito venha a ocorrer, convocando uma nova Constituição. A CF atende os anseios do povo? Sim ou não. Plebiscito. Se não atende, há a necessidade de ser convocada uma nova constituinte. E quem seriam esses constituintes? Sabemos que o deputado Luiz Philippe, por exemplo, reuniu juristas para compor uma Constituição; sabemos que ele encampou esse trabalho. Mas como funciona a apreciação do resultado do trabalho? Deveria ser eleita uma nova assembléia constituinte. Modesto Carvalhosa, por exemplo, é também um crítico da Constituição. Ele mesmo acha que seria necessário refazê-la. Há um consenso entre expoentes ligados ao mundo jurídico de que essa Constituição não funciona. Mas do ponto de vista prático, como se decide quem deve redigi-la? Porque os constituintes de 1988… não nos ajudaram muito. Eles escreveram um texto para eles, é a impressão que dá. Sim. Fizeram para eles. Eu tive a oportunidade de conversar com alguns deputados constituintes e a gente percebe que eles estavam numa euforia muito grande, de que iam fazer tudo diferente, e que iam garantir todos os direitos, e chegaram até o ponto de garantir que é dever do Estado e direito de todo cidadão ser feliz. (risos) É cômico…  Um idealismo pueril? Exatamente, então ele foge completamente à realidade e alguns artigos de nossa Constituição, se a gente desse pro meu filho de dez anos, até ele ia criticar, ele ia dizer “não, isso não é exequível, isso não é lógico”. Eu vejo que há necessidade sim de a gente ter um corpo especializado para fazer essa nova constituição. É diferente do que aconteceu na anterior, em que cada deputado, cada constituinte fazia suas propostas e aquela CF virou uma colcha de retalhos. Eu acho que ela teria que ser feita por um corpo jurídico previamente formado, realmente pessoas de notório saber jurídico, algo que precisa ser definido muito bem, uma vez que para entrar no STF também é preciso ter notório saber jurídico e mesmo assim…. Um Dias Toffoli está lá. 

Eu não ia citar nomes, mas, sim, existem ministros lá cujo “notório saber jurídico” é questionável. Então a gente precisaria estabelecer de maneira muito objetiva qual é esse notório saber jurídico; qual é o tipo de produção literária exigida; qual é a área, juristas de áreas distintas, e estabelecer o que uma Constituição efetivamente deve ter. E estabelecer um modelo. Eu vejo o modelo da Constituição americana como excepcional. Um modelo que persiste desde que a assinaram. Foram feitas poucas emendas, algumas adequações, por conta da evolução da sociedade…

Eu estava lendo o estudo introdutório à edição da Constituição de 1824, publicada pela Biblioteca do Senado, e estudioso afirma ali que a grande qualidade de nossa primeira carta é sua plasticidade. Nesse sentido, ela não poderia servir de modelo para a escritura de uma boa Constituição? Na nossa história, a gente tem uma Constituição que foi eficiente, tendo como critério que a eficiência de uma Constituição se mede por sua durabilidade, e ela foi a mais durável. E não é tão diferente da americana no sentido de ser uma Constituição liberal, apesar do elemento próprio do poder moderador, cujo alcance realmente precisaria ser revisto. 

Mas ali o poder moderador na verdade acabou tirando a independência dos poderes. E eu falo que a Constituição de 1988 comete o mesmo erro. Porque embora ela não crie nominalmente o poder moderador, ela criou indiretamente o poder moderador e entregou esse poder ao judiciário. Hoje, nós temos um poder moderador exercido pelo judiciário. E ali entra até a própria estruturação do poder judiciário que eu acho bastante contestável. No modelo americano, os juízes, os promotores são eleitos. E para cada distrito. O que nos leva a um outro problema, que é hoje a nossa votação. Ela não é distrital. Deputado estadual, deputado federal aqui de São Paulo pode receber votos de todas as cidades. 

Já que o sr. tocou nesse tema, gostaria de explicar para nós a diferença entre o voto distrital misto e puro? Pois há quem defenda o misto, e há quem defenda o puro.

O voto distrital misto considera na verdade votos na legenda. Então você tem… O PSDB defende esse modelo. Exatamente. Porque a legenda, quer queira, quer não… existem ainda no Brasil legendas muitos fortes. O próprio PT é uma legenda forte. O PSDB é uma legenda forte, porque são legendas que se consolidaram ao longo dos anos. Hoje você vê São Paulo. Temos governos do PSDB há quase 30 anos. Ele não sai do governo de SP. Porque se criou uma simpatia pela legenda na população. E sempre se viu, conforme o teatro das tesouras, o PSDB como oposição ao PT…

O sr. mencionou o “Teatro das tesouras” do Brasil Paralelo. O sr. acompanha essas iniciativas culturais que têm sido boicotadas pela imprensa tradicional? Quais delas o sr. acompanha? Eu acompanho bastante o Brasil Paralelo. Tem uma qualidade muito boa. As aulas deles são excepcionais. Tenho procurado ler muito Olavo de Carvalho, gosto muito da produção literária do professor Olavo, embora ache que em alguns momentos a gente entre sim em algumas questões meio controversas, e acho que talvez ele pegue mais pesado em algumas questões ali, talvez não seja muito bem assim. Mas acho que a produção literária dele é muito boa e o curso dele tem sido realmente uma oportunidade muito boa de muitas pessoas abrirem os olhos para as coisas que vem acontecido no país. 

Quem o sr. admira, hoje, como homem público no Brasil?

Eu admiro o próprio presidente Jair Bolsonaro. Pela trajetória que ele tem e pela postura que ele manteve, apesar de ter ficado muitos anos como político, ele continua mantendo aquela postura que a gente traz de dentro do quartel. De coerência. Se é, é. Se não é, não é. Não tem aquele “pode ser”. Diferente do “político profissional”? Isso. O senhor acha que a formação militar evitou que ele se tornasse um político profissional, inclusive? Sim. A formação militar não é mera formação. No sentido técnico. Aquilo passa a ser parte de nosso dia a dia. Muitas vezes eu levo bronca em casa porque o pessoal fala “esquece, aqui não é quartel!” Minha esposa fala muito isso. A gente traz muita coisa que acaba incorporando em nossa maneira de ser. Então você vê uma coisa errada na rua, você se irrita. A gente toma muito para nós aquela questão de responsabilidade, de que aquilo tem que ser certo, tem que mudar, que a gente tem que fazer a coisa andar direitinho…

O sr. acha que o positivismo ainda é um escola, porque ela é de orientação racionalista, forte no exército como foi no passado, ou isso tem se diluído?

Tem se diluído. A personalidade, e eu entro muitas vezes em confronto com quem diz “esses generais positivistas”… Não vou dizer que o positivismo acabou… Por que ele faz parte do mundo… Isso. Como o comunismo. Não vou dizer que o comunismo morreu. Ele pode até estar moribundo, mas não morreu. E pode voltar. Todas essas tendências, elas existem. Mas a maneira, a visão que a maior parte dos oficiais… digo isso pelas conversas e por mim mesmo. Os militares hoje estão muito mais integrados à sociedade do que eram antes. Eu vejo, depois de 85, quando a esquerda deu a volta e começou a dar as cartas no país de novo, elegeu o Exército, as forças armadas como o inimigo da nação E é curioso, já que a função original das FA é proteger. Eles subverteram, na aparência, a essência da Instituição, né? Sim. Então, os militares até se fecharam, isso até o final da década de 80, início da década de 90, as pessoas não sabiam como eram os militares. Na época de academia, estudando para uma prova de psicologia, uma colega minha, que tinha feito o colegial comigo, disse assim “ah, você está fazendo faculdade”? “Não, estou fazendo Academia militar”. “Mas por que você está estudando psicologia?” “Porque é uma das matérias da Academia Militar”. “Nossa, eu não sabia, eu achei que vocês passassem o dia inteiro jogando futebol e rastejando na lama”. Foi esse o comentário que eu já ouvi… Mas desde que as portas dos quartéis foram abertas, que os militares começaram a conviver mais com a sociedade, as pessoas foram deixando de lado aquela visão de bicho papão que a esquerda pintava. Aquela figura de que o militar era ignorante e truculento começou a cair por terra. 

Essa figura chega a ser um contrassenso, se a gente lembra que, na história da humanidade, quem garantia a segurança, desde a aristocracia greco-romana e medieval, as pessoas que cuidavam da segurança eram também as de elevada instrução intelectual… Tem uma alegoria que rodou muito pelos grupos de whatsapp uns tempos atrás ilustrando porque muitas pessoas tinham medo dos militares. E eles fazem uma comparação entre o cão pastor, a ovelha e o lobo. A ovelha é vítima do lobo. O lobo é a personificação do mal. Quem consegue proteger a ovelha dessa maldade é justamente o cão pastor. Só que as próprias ovelhas muitas vezes temem o cão pastor, porque o pastor se assemelha ao lobo. Ele seria aquele ser que, ao mesmo tempo que tem controle e conhecimento, tem a capacidade e predisposição à violência necessária para combater a violência. Eu achei uma analogia muito bem feita, e que explica o receio que algumas pessoas têm em relação aos militares. E de uma maneira geral muito mais à polícia militar, que é a força militar que está mais próxima da população. Porque realmente, parafraseando o que o Gen. Mourão falou numa entrevista, nós somos os profissionais da violência. Se existe alguém profissionalmente capacitado para exercer a violência, somos nós. Agora, violência sem controle, desprovida de conhecimento, é caos. Então aqueles que são preparados para exercer a violência têm que ser aqueles mais preparados intelectualmente, justamente para que a exerçam conforme a coerência, a necessidade e a humanidade. Senão se perde a humanidade e você passa a agir como um bicho, e não mais um militar, alguém treinado para defender.

Duas últimas perguntas. Qual obra clássica o marcou pessoalmente, tendo como contexto sua disposição à vida política? Uma obra muito interessante é a República. Muito interessante porque é uma base. Embora a história do mundo demonstre que há melhorias a serem feitas no modelo de República, é uma excelente base para se compreender o mundo de hoje.  E o espírito da política como um todo também, ou não? Também. Porque uma coisa não mudou de lá pra cá, né? A natureza humana. O ser-humano continua tendo seus vícios, suas paixões, seus defeitos e suas qualidades. O elemento ser-humano continua existindo com todas as suas nuances, por mais que tenha se modernizado, permanece a mesma essência.  

Em sua avaliação, que características um jovem que aspira hoje à carreira política precisa ter? Sobre a personalidade do jovem que busca a política, ela está mudando. Na época de grêmio, em que já me propunha a participar de eleições, eu era alguém completamente fora do padrão político. O padrão, naquele momento (1992, 93), era ser de esquerda, pró-minorias. Eu já me interessava por política, já não era simpático à esquerda; e o perfil daquela época era o jovem petista. Hoje, não. O perfil do jovem que se interessa pela política mudou. Tem crescido muito, os jovens conservadores que vem buscando a política. Porque antigamente os conservadores se afastavam da política, não tinham interesse na política e isso era muito ruim.  Mas ainda vêem como um sacrifício. Porque a gente quer viver a nossa vida. E entende que… o sr. citou Platão, o preço de não assumir tal responsabilidade é ser governado por pessoas piores do que nós. É por isso que a gente paga o preço, né? Eu tenho repetido muito isso pro pessoal: eu nunca fui político, eu sempre fui soldado. E a gente já vem com esse pensamento. Então quando eu comecei a ter minha vida exposta por conta da candidatura ao governo do estado, o que trouxe problemas à minha vida, aos meus filhos; um deles entrou na mira dos “antifas” (jovens que julgam fascista tudo o que escapa aos seus chavões) depois do atentado que eu sofri pouco antes da eleição, porque aí ficou difícil esconder a nossa ligação. Realmente é um sacrifício para quem assume a tarefa, para a família, para todos que estão perto. Você querer fazer a coisa certa contraria interesses. E quem tem o interesse contrariado, vai fazer tudo para mostrar que você está errado. Vai tentar atingir a sua moral. Vai tentar atingir a sua pessoa. Vai tentar te desacreditar perante as pessoas. E é difícil quando te acusam de alguma coisa e você tem que provar o contrário, vendo seu nome jogado na lama. Isso é muito difícil. Para quem passa por isso, para a família, para os amigos, e é algo que tem que ficar muito claro para quem entra na política. Porque ele vai sofrer muito até a gente conseguir restabelecer o padrão do que tem que ser feito. 

fim
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