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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

POLÍTICA E SOCIEDADE丨Entrevista com Max Cardoso

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

A estratégia chinesa de difamação, estrangulamento financeiro e banimento, aplicada com primor pelo Judiciário brasileiro em parceria com as Big Techs, conseguiu arruinar o Terça Livre, mas deixou várias “pontas soltas”. Tais pontas são pessoas que, desempregadas da noite para o dia, mas resilientes, prosseguem mantendo vivo o espírito do TL, cada uma fazendo o que sabe de melhor.

Uma dessas pessoas é Max Cardoso, então âncora dos boletins e editor da Revista Terça Livre, com quem tive o prazer de trabalhar por pouco mais de um ano. Formando em Filosofia e Teologia, aluno do Padre Paulo Ricardo e do professor Olavo de Carvalho, Max segue agora com um novo canal no YouTube, no qual expõe questões básicas sobre formação intelectual, filosofia e cristianismo, assunto sobre o qual prepara cursos a ser lançados em breve. 

Na entrevista que segue, Max fala sobre os intelectuais mais importantes para a história da filosofia e do cristianismo e a crise do pensamento, entre outros assuntos. Saiba mais sobre esse resiliente ex-TL a seguir, e não deixe de acompanhar seus novos trabalhos. 


Revista Esmeril: Em primeiro lugar, fale um pouco sobre quem é Max Cardoso, qual sua trajetória pessoal etc. 

Max Cardoso: Desde criança sempre fui apaixonado por conhecer as coisas, queria saber de tudo, gostava de ver documentários sobre tudo, a primeira vez que li um livro foi uma experiência transformadora, sempre disse que queria ser cientista. Na adolescência passei a me interessar muito em aprender sobre a doutrina católica, tanto questões de teologia sistemática como bíblica. Aos 12 anos fazia tudo que era curso que tinha na igreja perto da minha casa, era sempre o mais jovem da turma. Com isso, foi crescendo a minha curiosidade sobre como seriam os estudos em um seminário.

Cheguei a ser catequista de crisma na minha paróquia e coordenador de um círculo bíblico jovem, e a gente sempre mudava o texto que vinha porque achávamos estranhos, ainda não sabia direito o que era Teologia da Libertação. Entrei na UFRJ, fiz um ano de Engenharia e dois de Física, e foi quando decidi fazer o vocacional para o seminário do Rio. Foi aí que conheci os materiais na internet do Padre Paulo Ricardo e do Professor Olavo de Carvalho. A sensação foi que os meus olhos se abriram e tudo que antes estava nebuloso começou a fazer sentido. 

Formei-me em Filosofia no seminário, com diploma da PUC-RJ, e depois em Teologia pela Universidade de Navarra, na Espanha. Saí da vida religiosa em 2018, depois de fazer uma experiência de 100 dias no Mosteiro Trapista do Paraná. Desde então comecei a dar aulas particulares e  aulas de filosofia em um colégio na zona oeste do Rio. Em 2019 entrei no Terça Livre, onde estive até outubro passado, quando a empresa se viu obrigada a fechar. Agora estou tentando recomeçar, e como não consegui um novo trabalho, estou me dedicando ao meu canal no YouTube, fazendo aquilo que eu mais amo, que é a formação filosófica e teológica.

Revista Esmeril: Fale mais sobre seu novo canal no YouTube.

Max Cardoso: Como a minha área sempre foi a formação em filosofia e teologia, sempre me vi vocacionado ao ensino, e como estava sem emprego resolvi abrir o canal com aquilo que eu mais gosto de fazer, que é a formação. O meu objetivo com o canal é trazer uma formação humana completa, tratando de temas como a formação intelectual e da personalidade, com destaque para a filosofia e a teologia, que acredito serem temas que todos deveriam conhecer ao menos o básico. 

Também trago questões históricas que acredito serem importantes para ajudar a crescer no conhecimento do cristianismo e também da história tão bonita do nosso país, mas que infelizmente se tornou muito pouco conhecida.

Revista Esmeril: Uma das coisas de que eu sentia falta no Terça Livre era justamente um espaço para que você falasse de sua especialidade, cristianismo e filosofia, lacuna que está agora sendo preenchida em seu atual projeto. Qual a importância do cristianismo e dos filósofos cristãos para a história da filosofia?

Max Cardoso: O cristianismo foi um grande marco para a história da filosofia. Ele trouxe para o pensamento filosófico uma espiritualidade e um otimismo antropológico que dificilmente teria acontecido de outra maneira. Basta constatar a enorme diferença que existe entre a filosofia ocidental e a oriental, esta última muito menos influenciada pelo cristianismo. Questões como a dignidade humana, o direito natural e o fato de existir uma natureza humana com suas leis próprias que todos compartilhamos foram verdades que começaram a ter uma base muito mais sólida depois do cristianismo. 

Acho engraçado e trágico ao mesmo tempo quando vejo os revolucionários dizendo que o cristianismo piorou as desigualdades do mundo. Qualquer análise histórica séria e honesta vai concluir, independentemente da fé, que se não fosse a influência do pensamento cristão no mundo, provavelmente não teríamos até hoje o fim da escravidão e a compreensão de que a mulher é um ser humano com a mesma dignidade que o homem, verdades tão óbvias para nós hoje. 

Para se ter uma ideia disso, basta saber que uma questão filosófica polêmica até hoje é se é possível existir uma moral verdadeira sem a fé. Como disse Dostoievski, em irmãos Karamazov, “Se Deus não existe, tudo é permitido”. O mundo sem o cristianismo seria entregue à barbárie, à lei do mais forte. Se os revolucionários conseguissem extinguir o cristianismo como desejam, o resultado não seria uma sociedade melhor, mas sim o fim da própria sociedade como a conhecemos. 

Revista Esmeril: Quais filósofos você considera mais importantes na história da filosofia, e por quê? Ainda, você tem indicações para as pessoas que querem começar a se instruir a respeito do assunto?

Max Cardoso: Com certeza Aristóteles, Platão, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ainda que esses dois últimos sejam teólogos também. O diferencial desses pensadores é que eles conseguiram compilar, sintetizar todos os principais pontos daqueles que vieram antes deles. Quando estudamos esses autores é como se estivéssemos recebendo uma síntese filosófica de tudo que havia sido produzido até então, com o acréscimo de que eles avançaram na resolução dos problemas que estavam sendo debatidos. 

Por exemplo, somente com Aristóteles o problema filosófico da mudança no mundo pôde ser resolvido. Era um problema que estava sendo há séculos discutido, praticamente desde o início da filosofia grega, com os pré-socráticos. Outro exemplo é o problema da individualidade da alma, que só foi resolvido com Santo Agostinho, influenciado pela revelação cristã, era um problema a que nem Platão ou Aristóteles tinham dado uma resposta satisfatória. Nos cursos que dava de filosofia e teologia sempre falava para as pessoas que sem entender as questões principais que o pensamento humano já conseguiu avançar, a nossa compreensão sobre a realidade e o homem fica extremamente comprometida. Como vamos saber agir bem em nossas vidas, sem ter ao menos uma noção básica das questões fundamentais? Seria como pedir para alguém fazer derivadas e integrais sem antes aprender a fazer as operações básicas da matemática. 

São Tomás de Aquino é um grande farol na história da humanidade, ele deixou uma obra monumental. Uma vez vi um ator que fez uma comparação muito boa: o que uma catedral medieval representa para arquitetura é o que a Suma Teológica representa para o pensamento humano. Ele sintetizou e avançou em praticamente todos os problemas filosóficos e teológicos que haviam sido tratados até a época dele. É algo tão fenomenal, que quase 800 anos depois ainda não absorvemos tudo que ele legou. 

Outra menção honrosa seria Hugo de São Vitor, que não costuma ser muito citado; ele desenvolveu temas importantes da filosofia e teologia. Para quem está começando e precisa pegar introduções, gosto muito de Mortimer e Sertillanges, acho muito bom para começar. A coleção do Padre Gardeil sobre introdução à filosofia de São Tomás de Aquino é excelente, os livros são muito pedagógicos, ideais para quem está começando. Ler um livro de história da filosofia também ajuda a ter um panorama geral. Por exemplo, a coleção do Reale,  a mais baratinha e muito boa. E também tem o meu canal no Youtube. Minha ideia é dar uma introdução aos principais temas; não podia deixar de fazer um jabá.

Revista Esmeril: É possível dizer que a crise do pensamento e, consequentemente, da própria civilização ocidental, começou como uma crise de fé, de espiritualidade? Como se deu esse processo e a partir de qual momento da História, em sua percepção? 

Max Cardoso: Eu acredito que sim. Existe aí uma série de fatores que atuaram juntos, difícil de elencar todos aqui devidamente, isso dá um curso. Na parte da filosofia temos, na baixa Idade Média, o nominalismo e suas consequências, como a chamada “crise dos universais”. No entanto, essa corrente poderia ter sido apenas mais uma, se não tivesse começado a ocorrer na mesma época uma queda do nível de intelectualidade das universidades. Essa queda teve um outro fator importante, o surgimento do diploma de Teologia. A Igreja ficou muito preocupada com os professores de Teologia das universidades, porque poderiam estar ensinando heresias. Resolveu-se então criar um documento e só quem tivesse esse documento poderia dar aula de teologia. 

A ideia não era em si mesmo ruim, fazia todo sentido na época, mas isso teve um efeito colateral terrível que não foi previsto. Se antes os alunos estudavam buscando aumentar o seu conhecimento das verdades, o nível intelectual, fortalecer a fé e a vida espiritual, agora passaram a estudar para conseguir diplomas para serem professores de teologia. Não demorou muito para que os alunos quisessem saber apenas o mínimo para poder receber o diploma. 

Com o final da baixa Idade Média começa o Renascimento, movimento cultural que, ao exaltar a Antiguidade Clássica, acabou trazendo de volta a devassidão dos costumes de uma sociedade pagã. Na mesma época temos Descartes, que é o fruto maduro do nominalismo e quem começa a separação radical entre o pensamento humano e o mundo material. A partir daí, os erros vão se propagando até chegarmos em Freud, Marx e Nietzsche. 

Há muito mais coisas que precisavam ser ditas para entendermos melhor, mas como eu disse, precisaria de um curso, inclusive estou planejando abrir um nesse sentido. Peço aos leitores que acompanhem meu canal no YouTube e confiram.

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