O antissemitismo contemporâneo é notório entre militantes de esquerda alinhados à defesa da Palestina, papagaios de slogans difundidos pelo serviço de propaganda de Stalin, ditador comunista que soube tirar proveito do serviço secreto czarista, produtor da peça de desinformação “Protocolos dos sábios de Sião”. Há quem ainda evoque o documento para justificar uma conspiração internacional judaica…

Karl Marx era judeu. Trótsky também. E foi o militante esquerdista Carlos Latuff que, em virtude de comparar “sionismo” e “nazismo”, levou em 2012 a medalha de terceiro maior antissemita do mundo, segundo o Simon Wiesenthal Center. Seria irônico se o antissemitismo fosse ocasional na cultura do ocidente. Mas não é.

Trabalho de Latuff com sua comparação (falsa e) corriqueira entre sionismo e nazismo

Se o apoio à Palestina e as narrativas esdrúxulas contra Israel marcam o antissemitismo à esquerda, a associação entre judeus e globalismo, o projeto de unificação dos estados nacionais num supra-ordenamento-jurídico internacional, marca, por outro lado, o antissemitismo à direita.

A estupidez ronda a alma humana desde tempos imemoriais. Está presente nas pessoas, não em ideologias específicas, ou vinculada a ideias políticas e econômicas.

O conspiracionismo mundial atribuído aos judeus pela falsificação russa é repelido por Olavo de Carvalho, um filósofo atento ao avanço do globalismo, há quase duas décadas – conforme testemunha este clássico trecho da versão para TV do Mídia sem Máscara:

Ainda assim, muitos conservadores desavisados, fazendo coro à fórmula #OlavoTemRazão, caem como patos em narrativas espalhadas por grupos antissemitas ativos no Brasil.

“Nosso meio está cheio de antissemita. Há muita gente que se infiltrou em camadas importantes no meio da direita. Muito subrepticiamente, vão inoculando narrativas, esses memezinhos maliciosos (…) Essa turma que esteve adormecida está se aproveitando pra botar suas manguinhas de fora dentro da direita”, diz Victor Grinbaum.

Filho de judeus outrora ligados a esquerda, Victor, judeu de origem, mas sem formação religiosa, estuda a permanência do problema na cultura do ocidente há pelo menos uma década e meia. Dono de uma biblioteca vasta sobre o assunto, o jornalista carioca grava, atualmente, um curso online cujo propósito é ampliar o conhecimento dos brasileiros sobre o assunto.

Para entender até que ponto a ação desses grupos parasitários ameaça a reputação do conservadorismo político em alta no Brasil, conversamos com o estudioso sobre a base do discurso antissemita, sua permanência na história, os métodos de identificação das peças de propaganda difundidas entre desavisados e o formato do curso que logo mais estará disponível na plataforma Hotmart.


Qual é seu campo de estudo, sua formação e o que levou você a identificar esse problema? Como sua trajetória o fez cruzar o antissemitismo?

Eu sou jornalista de formação. Me formei em 2010 na extinta UniverCidade do Rio (era a faculdade da Cidade, aí eles resolveram comprimir o nome, uma coisa horrorosa… mas o curso até que era bonzinho). Foi um curso que adorei fazer, tive ótimos professores. Sou jornalista de profissão. Cozinheiro também, mas isso não vem ao caso (rss). Judeu de origem familiar, embora não tenha sido… a minha trajetória dentro do que se convenciona chamar de comunidade judaica seja um tanto ou quanto acidentada, porque eu não tive criação judaica. É curioso, quem me conhece hoje, né? Meu perfil ideológico de atuação. Eu sou filho de… hoje não mais, eles se curaram dessa doença (risos); eu sou filho de pais de esquerda. Meu pai foi fundador do PT no Rio de Janeiro em 1980. Algumas das reuniões que deram origem ao PT aconteceram na minha casa. Uma das lembranças mais antigas que eu tenho de minha vida… Lá em casa não era poster do Che Guevara na parede; era poster do Ho Chi Minh [líder máximo do partido comunista do Vietnan]. Hoje meu pai é totalmente… tão reaça ou mais que eu. Mas na época, aquilo era o must. E contato com quaisquer formas religiosas na minha família é zero. Eu não tive criação religiosa de forma nenhuma. Quantos anos você tem, se me permite perguntar? Estou com 40 anos. Ah! Filho da geração que se afastou da Igreja. Foi algo comum na época… A gente não pode ter a mesma observação da geração deles que a gente tem da nossa. Eu sou o que eu sou hoje, porque desde muito garoto, tendo sido criado da forma como fui, frequentando meios aos quais meus pais me levavam junto, eu comecei a perceber as contradições daquilo ali. Eu pensava, “espera aí, tem coisa que não está encaixando… Tem coisa aí que não está muito legal”. E todo filho contesta o pai e a mãe, e eu optei pela lado inverso! Depois que nossos caminhos se reeencontraram. Mas então eu não tive criação judaica nenhuma. Fui começar a ter contato com comunidade judaica, instituições e tudo, só com 18 anos, por conta de amigos em comum, pelas coincidências da vida. Nunca estudei em colégio judaico, mas meu melhor amigo do colégio também era judeu desgarrado, então ele começou a se aproximar por um lado, eu por outro e, quando fomos ver, já estávamos totalmente enfiados naquele negócio.

Sempre gostei muito de história. Meu pai é formado em História. Embora nunca tenha exercido o magistério, não tenha vivência acadêmica, eu sempre tive franqueada a imensa biblioteca dele, principalmente de história do Brasil. Ele curte muito história do Brasil, e por consequência eu também. Então eu estudei muito por conta própria, fui me tornando um pequeno reacinha na adolescência, para contrariá-lo, e quando chegou nessa época em que eu tomei contato com a comunidade judaica (eu tinha 18 anos em 1997, 98), logo depois, 1999-2000, começou a segunda Intifada [conjunto de eventos que marcou a revolta civil dos palestinos contra a política administrativa e a ocupação Israelense na região da Palestina a partir de setembro de 2000], que foi um festival de horrores na imprensa. E eu que já estava estudando por conta própria aquele assunto, me inteirando e me interessando, comecei a ver todas aquelas distorções de mídia e a me colocar dentro das incipientes redes sociais da época como uma espécie de fiscal e combatente da causa (não gosto dessa palavra, mas na falta de outra melhor sou obrigado a usá-la). Então isso acabou me colocando numa posição de destaque dentro da comunidade judaica e tudo o mais. Depois entrei na faculdade de jornalismo e tenho seguido essa toada aí.

Por que você escolheu fazer jornalismo?

Porque só sei fazer duas coisas na vida. Ler e escrever. E cozinhar (risos). E Incomodar os outros! Ah! Aí funciona. Há uma confluência (risos). Por que do ponto de vista intelectual, a formação do jornalismo é genérica… Não ajuda muito na formação intelectual. Isso você teve em casa, então? Bem, hoje, se o Victor de 40 anos pudesse mandar um e-mail para o Victor de 18, eu diria para ele não fazer jornalismo. Até porque eu também tinha pretensões literárias e o jornalismo assassina quaisquer pretensões literárias na fonte. Você acaba agarrado à questão da objetividade, da realidade, e sua imaginação vai para as cucuias… Eu quero ver se consigo recuperar, se é que tive um dia, algum talento para a ficção. O jornalismo mata isso. Desde a faculdade eu me batia com isso. Eu sou da escola Nelson Rodruigues. Eu acho que falta literatura no jornalismo, falta imaginação. Acho que hoje em dia está se abrindo uma janela bacana para isso. Porque a gente ainda se formou na era da objetividade. Mas esse jornalismo está morrendo. Graças a deus! Acho que já vai tarde! Não sei o que vai surgir, mas alguma coisa vai surgir…

E como é que você começou a acompanhar a movimentação dos grupos antissemitas?

Eu apareci dentro dessa militância (outra palavra que odeio, mas vou ter que usar) da causa israelense, sionista, que não existia; a grande imprensa totalmente dominada pelas narrativas que são anti-sionistas (a. k. a. antissemitas) e na época isso era uma briga danada até dentro da própria comunidade judaica porque, evidentemente… e isso é um grande mito que eu também me bato pra combater; as pessoas acham que a comunidade judaica é uma coisa coesa, unificada, regida por uma voz só e isso é absolutamente falso. Existe muito esquerdismo dentro da comunidade judaica, não apenas no Brasil, isso é um fenômeno mundial, então eu brigava muito com os judeus de esquerda a esse respeito). Era a época da segunda Intifada, Israel e sionismo eram diariamente massacrados dentro da grande imprensa, e eu dentro da comunidade judaica batalhava pra que a gente formasse grupos de respostas a esses jornalistas, cobrindo desinformação com informação, etc. Naturalmente, pela minha opção à direita, isso me colocou em contato com o que havia (que era quase nada) de direitismo no Brasil na época. Então foi a época que eu conheci o Olavo de Carvalho, o José Oswaldo de Meira Penna, meu grande e saudoso amigo com quem eu tive uma relação epistolar por muitos e muitos anos (só encontrei ele uma vez na vida, numa passagem por Brasília, quando ele estava com 98 anos). Então, esse pessoal todo que hoje está na crista da onda não era nada. O Olavo era um cronista do Globo. Meira Penna era considerado uma múmia do Itamaraty, e assim por diante. Ainda que ele já tivesse uma obra notável… Mas isso era um gueto dentro do aspecto geral. Na academia, o espaço para essa turma era zero. Na época, éramos marginais. Eu era marginal dentro da comunidade judaica. Esse pessoal era marginal na academia, na imprensa, e tudo o mais. Eu conheci meu talento para me juntar aos excluídos desde sempre. Então eu cresci intelectualmente na convivência, mesmo que virtual, com esse pessoal todo. E umas das primeiras coisas que eu tratei de expor nas relações com esse pessoal foi o seguinte: “Olha, a esquerda odeia Israel, odeia o sionismo, odeia tudo o que essa turma representa. O simples fato de eles odiarem, acho que pra vcs já é suficiente para vocês verem que tem alguma coisa boa aí no meio… Vamos abrir a barriga desse negócio pra ver o que tem aí e ver como isso se aproveita? E foi muito bacana. Eu, modéstia à parte, eu acho que quem fez pela primeira vez esse casamento, hoje tão prolífico, entre a causa sionista e a direita brasileira, fui eu. Nos meus contatos com o Olavo, o Meira Penna lá em 1999, 2000, 2001. Eu promovi palestras com o Olavo no Rio de Janeiro; na época, ele ainda morava no Brasil; sempre estudando muito o antissemitismo da esquerda, mostrando como operavam, como a cabeça deles funcionava, de onde tiravam as narrativas; então a gente ía fazendo aquele trabalho de desmontar as narrativas deles.

E quando foi que você se deu conta que esse mesmo espirito se infiltrou, ou surgiu, no meio da direita?

Eu acho que nem surgiu, nem se infiltrou. Acho que sempre existiu, ainda que de uma forma adormecida ou invisível. Sempre existiu e sempre vai existir. Antissemitismo não é exclusivo da esquerda, como também não é exclusivo da direita, nem de nada. Sempre nas minhas palestras, nos meus cursos eu costumo dozer isso: o antissemitismo é como o vírus da gripe; o vírus da gripe cada ano desenvolve uma cepa nova, vai criando resistência aos antibióticos do passado e vai se espalhando ad aeternum. O antissetmitismo é assim também. Ele encontra brechas nos organismos de quaisquer sociedades, quaisquer ideologias, quaisquer categorias de pensamento, religiões e vai se mantendo ali dentro, porque ele é… A verdade é que a gente defende muito a civilização (como bem disse Bento XVI) greco-judaico-cristã, a gente é isso, mas a verdade é que, por mais greco-judaico-cristã que ela seja, ela tem como fundamento o antissemitismo. O antissemitismo está presente nesta civilização há dois mil anos. E essa sombra não se elimina do dia pra noite. Então é um trabalho para algumas vidas, não apenas uma. E a coisa só começou a mudar mesmo, só se começou a estudar atentamente o fenômeno do antissemitismo como uma coisa nociva que precisa ser combatida até o fim depois da segunda guerra mundial. Até então era tolerado… Esse curso que eu estou fazendo me impressiona, porque eu fico repassando, relendo livros que fui lendo ao longo da vida, e é impresisonante como ele contamina toda e qualquer manifestação humana; a cultura com C maiúsculo tem ali inoculado esse vírus. Então é muito difícil, porque acabar com esse antissemitismo implica em dizer que essa sociedade ocidental precisa olhar para dentro de seu próprio umbigo e… é quase um trabalho de terapia psicanalítica! Você precisa ir escavando camada por camada de sua formação e ir vendo, varrendo. A Igreja católica tem feito isso há muitos anos, mas o ranço cultural permanece. Uma das coisas que eu vi na minha vida pessoal uma vez, nos anos 90… Uma vez, uma ex-empregada lá de casa, quando soube que era uma casa de judeus chamou minha mãe de lado e perguntou: “É verdade que judeu tem rabo?” E minha mãe “Mas de onde você tirou isso, Maria?” “É que o padre da minha igreja falou isso uma vez na missa”. Caramba… “De onde você é Maria…?” Eu nunca esqueci porque numa dessas coincidências da vida eu conheci a cidadezinha da Maria, que era uma cidade chamada Dom Cavati, interior de Minas Gerais, aquelas cidadezinhas que têm uma igrejinha na ponta do morro, uma rua que sobe e uma que desce, três transversais, e ela falou que por lá tem um padre que diz na igreja que judeu tem cauda, isso em pleno final do século XX! Então não adianta o Vaticano falar uma coisa se demora pra chegar na igrejinha de Dom Cavati.

Panfleto nazista sugerindo que os judeus foram culpados pela derrota da Alemanha na I Guerra.

Existe algumas características peculiares entre as várias mutações desse vírus? Quais as diferenças das narrativas antissemitas na esquerda e no meio da direita atual, esta que ascendeu agora com a vitória de Bolsonaro? Por que o que eu vejo é um bando de moleques desinformados que espalham essas figurinhas; vejo gente sem saber direito o que é, ou por preconceito rasteiro; mas quais são as diferenças nas manifestações do antissemitismo à direita e à esquerda?

Eu divido a história do antissemitismo em categorias. Existe o antissemitismo religioso; existe o econômico… eu divido, não; esta é a divisão da historiografia clássica (risos). Ele pode ser dividido dessa forma: religioso, econômico, político, “científico”. Todas essas narrativas confluem ao mesmo ponto, mas é claro que existem diferenças. O antissemitismo de esquerda hoje é basicamente justificado pela questão da causa palestina. Ela foi comprada pela esquerda, isso é um processo absolutamente conhecido; há vários e ótimos livros a esse respeito (como o livro do ex-espião do serviço secreto da Romênia, Ion Pacepa, um clássico que o Olavo vive citando e já tem tradução), que conta exatamente como a OLP e o Arafat foram criados pela KGB e pelo serviço secreto da Europa Oriental. Já o antissemitismo de direita dificilmente fará alusão à causa Palestina. Ele é ainda muito baseado no antissemtismo religioso: a coisa de que os judeus não aceitam Cristo, mataram Deus, é um povo condenado à danação eterna por conta disso. Tem ainda um pouco do antissemitismo econômico: os judeus dominam os bancos, dominam a imprensa; jogam narrativas falsas mais recentes, misturam a coisa dos Sábios de Sião com os Iluminati, com maçonaria, com não sei quê, tudo a mesma coisa, são nomes diferente para o mesmo fenômeno… Então, o antissemitismo de direita é mais conspiratório. O de esquerda é mais “acabem com o estado de Israel, parem de massacrar os palestinos que a gente tolera vocês”. Até porque eles têm essa coisa de ‘nós somos antinazistas, nós derrotamos Hitler, então vocês têm uma dívida de gratidão para conosco. A gente não odeia vocês, a gente só odeia o que vocês estão fazendo lá na Palestina, os massacres”. Não tem massacre nenhum, mas enfim… Eu sempre falo: O sionista merece o troféu de pior genocida do mundo, porque eram 800 mil em 1948 e hoje são quase 3 milhões… É o único genocídio em que as vítimas se multiplicam.

Figurinha antissemita inoculada em grupos de direita

E o que significa a associação negativa de pessoas com o sionismo?

O que é ser sionista? A maioria das pessoas sabem que sionista não é a mesma coisa que ser judeu. Você pode ser judeu e não ser sionista. Você pode ser sionista e não ser judeu. Você pode ser judeu e sionista e se identificar com uma das várias vertentes do sionismo. Porque, em primeiro lugar, o sionismo não é uma ideologia. As pessoas falam (isso é muito comum tanto nas narrativas da esquerda como da direita): “Israel comete crimes sionistas! É a política sionista!” Não existe isso. Pelo simples fato de que o sionismo é um fenômeno datado. Sionismo era o nome dado ao movimento nacionalista judaico surgido no final do século XIX que deu origem ao estado de Israel. A partir do momento que esse estado existe há 70 anos, o sionismo, para dizer o mínimo, tem que mudar de caráter, de figura. Não é mais construir um estado judaico nas terras onde o povo judeu teve origem; é a sua manutenção, o seu direito à existência. Então, se você reconhecer que Israel tem o direito de existir, você é sionista. Isso é ser sionista, modernamente falando.

Eu gostaria que você dissesse quais são os livros estratégicos escritos após a segunda guerra, os clássicos, para quem gostaria de começar a entender o problema. Qual seria a melhor introdução?

Tem muita coisa. Depende do grau de tolerância do leitor à profundidade e extensão da bibliografia. Tem um que eu gosto muito, editado em Portugal, chamado História do anti-semitismo da antiguidade aos nossos dias. Clássicos são A História do cristianismo e A história dos judeus, do Paul Johnson. Um livro que considero essencial para entender a origem do antissemitismo e do antissemitismo religioso é A espada de Constantino: a Igreja católica e os judeus, do James Carroll, uma baita pesquisa. Se quiser trazer a discussão para o Brasil, há dois clássico da mesma autora, um é O antissemitismo nas américas, da Maria Luiza Tutti Carneiro, e O anti-semitismo na Era Vargas. Sobre o econômico, uma das maiores bases de narrativa até hoje, tem o clássico do Jacques Attali Os judeus, o dinheiro e o mundo.

Para cada expressão do antissmeitismo, há uma linha de pesquisa, pelo que você indica. Como você organizou o curso?

O curso é formado de dez aulas pegando toda a trajetória da história do anti-semitismo desde a antiguidade clássica, desde os primórdios até os dias atuais. Então cada aula aborda uma das facetas do anti-semitismo, como eu estava falando no começo, tem o religioso, o político, o científico; e narrado na linguagem mais simples possível, com citações aos livros usados na pesquisa. O que eu quero fazer mesmo é um curso que seja adequado a todo tipo de aluno. Desde o jovenzinho que está começamdo a formar sua mente, até o cara com mais vivência, mais leitura, mas que por um acaso nunca tenha tido acesso a livro Y, livro X; que todos esses caras possam encontrar nesse curso uma forma de ordenar a história do anti-semitismo na cabeça e saber como ele funciona e como ele se reflete nos dias atuais.

E qual será o formato? Onde será divulgado?

Serão vídeos disponibilizados na plataforma Hotmart. Para divulgar, o próprio Hotmart já tem certa divulgação e vou falando onde der, onde puder, onde tiver oportunidade.

Há previsão de lançamento?

A minha previsão inicial era ter lançado em setembro do ano passado! (risos) Amanhã ainda tenho gravação… Ainda estou produzindo. Era para estar sendo vendido há muito tempo. O curso está pronto, já está escrito, o que falta é sentar na frente do computador e gravar o restante das aulas. Já tenho aulas gravadas, falta terminar.

Gostaria que você falasse sobre a ação dos grupos que se infiltram entre desavisados e onde eles querem chegar com isso. Qual é a desse pessoal?

Eu tomei um susto enorme quando eu soube que um cara que tem um canal de terraplanismo e antissemitismo… e é bom que se fale isso, ambos são movimentos baseados em fraudes, em wishfull thinking, em coisas totalmente loucas, eles se encontram; a narrativa presente em praticamente todos esses grupos terraplanistas é de que um dos poderes ocultos que enganam a humanidade há mil anos dizendo que a terra é redonda é a dos sionistas (risos). Nós somos culpados até pela terra redonda, é incrível… E eu tomei um susto quando soube que um cara desses consegue faturar 80 mil reais por mês com esse canal do Youtube.

Um cara que estava se infiltrando no meio da direita, e dos alunos do Olavo, que eu fui um dos primeiros a desmascarar (e depois ele acabou sendo desmascarado por outras razões, quando ele resolveu dizer que a Nossa Sra. é um ET que chegou à terra de disco voador); mas antes de ele falar isso, ele estava falando um caminhão de asneiras a respeito do sionismo, foi aquele Loryel Rocha. Acabou sendo expelido do meio da Direita. Hoje é um cara que, pelo contrário, usa narrativas rigorosamente iguais às da esquerda, até o anti-Bolsonarismo, etc. Mas esse cara surgiu e ele estava se infiltrando no meio da direita com esse papo de Protocolos de Sião, que sionismo é um projeto da elite globalista, e blá-blá-blá. E um dia uma amiga me recomendou esse cara, eu curti o canal dele sem dar atenção e depois, uma outra amiga me ligou e disse “Bota agora no canal desse Loryel que você precisa ver o que ele está falando a respeito de sionismo”. No momento que eu liguei, ele estava falando que o sionismo é obra de 18 bilionários que dominam o mundo, etc; era um chat ao vivo, eu entrei e comecei a contestá-lo. Ele me bloqueou imediatamente, não deixou o áudio para futuras consultas, mas ainda assim, eu gravei um podcast de uma hora e meia desmontando todas as loucuras desse cara. Depois, esse cara acabou sendo desmascarado geral, o Olavo botou ele pra correr, hoje ele está marginalizado.

Capa do um jornal local de Florianópolis revelando reunião de grupos nazistas em 1990. O estado de SC sediou o partido nazista brasileiro na década de 30.

Mas antes dele, já teve um outro cara do sul, chamado Marlon Adami, que também estava colado no olavismo e começou com as mesmas coisas. Eu denunciei, botei ele pra correr, ele foi alijado. Se não me engano, era de Santa Catarina. Como a gente sabe, o sul de modo geral tem muito esse ranço anti-semita ainda. Então esses caras vão tentando colar porque é uma forma que eles têm de aparelhar o discurso da direita. Eles querem ter uma relvância que, por eles próprios, sozinhos, não conseguem ter. Então eles têm que colar em alguma coisa, como agora eles estão colando nos terraplanistas. Então é assim que eles vão se infiltrando. De maneira parasitária, né? Sim, são parasitas no sentido exato do termo.

Conhecendo esse universo todo, como você interpretou o caso do vídeo gravado por Roberto Alvim e o fato de a imprensa ter identificado de modo tão ágil o trecho associado a Goebbels?

A imprensa saber onde estava a passagem não me impressionou, na verdade. A biografia do Goebbels, que eu tenho, esse trecho específico do discurso que ele decalcou é muito, não vou dizer famoso, mas ele é muito claro, muito chamativo. Aquele trecho em específico resume perfeitamente o que era a visão de cultura aparelhada pelo estado do nacional-socialismo. E foi uma das coisas que eu comentei na época. Você acabou de assumir o ministério ou a secretaria de cultura de um país, está imbuído da certeza, da missão que você está a frente de um objetivo revolucionário, é a mentalidade revolucionária: agora que eu sou ministro, vou fazer do meu jeito. Se você joga “dirigismo estatal da cultura” no google, você tem duas fontes. Ou você vai cair no colo do Goebbels, pelos nazistas, ou você vai cair no colo do Jdanov, pelos soviéticos. Ele escolheu um lado. Poderia ter escolhido o Jdanov, como escolheu o Goebbels. Ele viu aquele trecho, imaginou que ninguém fosse lembrar, “ah, vem de um nazista, mas vou usar, porque fica bonito”, e começou a divagar na hora. Artista é isso, né? Pinta cenário, na hora… (aqui eu estou palpitando, tá?) Eu acho que talvez até de uma forma inconsciente na cabeça dele, acabou montando aquele cenário com foto atrás, a cruz, o terno, cabelinho, aquela entonação, música wagneriana épica ao fundo… e achou que aquilo ia colar. Mas… da mesma forma que ele leu aquele livro, um monte de gente leu aquele livro, como eu li. Então, na hora que você vê, você pesca. Isso aqui tem focinho de porco, tem rabo de porco, cheira como um porco. Deve ser um porco! Não vai ser uma rosa. Então foi muito fácil captar a referência daquele discurso. Na prática, mesmo que ele não tivesse feito aquilo, ou tivesse feito e ninguém tivesse pescado a referência, a gente sabe que ele não ia conseguir fazer nada daquilo, né? O poder de um secretário de cultura no Brasil, com a verbinha que ele tem, é ridículo. Não daria para fazer cultura épica, ou nacional, ele iria ficar no “ou nada” mesmo. Mas eu acho que também retrata um certo Zeitgeist ainda presente na direita, de que dá pra aproveitar alguma coisa do nazismo. Aquila coisa de “o fascimo não foi bom, mas os trens chegavam no horário”. Esse tipo de coisa ainda me assusta um pouco nessa parcela da direita.

Da mesma maneira que as pessoas ainda defendem social-democracia, estado inchado, como uma coisa boa, com todas as provas de que não funciona. Nós somos tributários dos totalitarismos e a coisa está ainda na gente. O getúlio é visto como herói por muita gente...

Estou relendo agora a biografia do Getúlio. Eu li na época em que saiu, três volumes, ótimo livro, baita pesquisa, e resolvi reler agora. E realmente é a gênese da política brasileira de hoje. Estou no terceiro volume agora, que é a fase final da política dele, onde ele já se declara socialista com todas as letras e a gente fala: “meu deus, a gente está preso nessa merda até hoje!” A gente não consegue se livrar dessas narrativas, dessas crenças. A gente encontra ali o nome de figuras que até outro dia eram atuantes na política, e pensa: “meu deus, a gente não se livra desse ranço…”

Como você avalia o papel de pessoas como Karl Krauss, assim como demais pensadores que, às vésperas da eclosão da segunda guerra, anteviam o que estava por vir e o falavam em alto e bom som?

Não sou especialista nele, especificamente, então é difícl falar sobre ele. Mas esses profetas da tragédia, que não foram nem um nem dois, foram muitos, conforme noto em minha pesquisa… Porque é muito estranho. Tudo, em retrospecto, é contaminado. É muito fácil a gente falar hoje: “como é que os judeus caíram naquela armadilha? Por que não fugiram?” Não era simples fugir. Inclusive, era proibido. Uma coisa que é dita na biografia do Getúlio, assim como no livro da Tutti Carneiro que indiquei, e que as pessoas não sabem sobre a história do Brasil, é que o Brasil na era pré e durante Estado Novo, pré-segunda guerra, proibia a entrada de refugiados judeus. Existia uma circular secreta, circular 1137, se não me falha a memória, curiosamente mantida e até tornada mais dura pelo Oswaldo Aranha (que poucos anos depois vai presidir a sessão da assembleía ONU que cria o Estado de Israel; é tido e havido pela historiografia do estado de Israel como herói, e pra mim não é herói nada, porque fez isso, ele fechou as fronteiras do Brasil à entrada de judeus). Então a gente começa a pensar nisso: ao mesmo tempo em que todos os sinais evidentes da tragédia que viria a ocorrer estavam dados, as pessoas não tinham para onde correr. Os Estados Unidos fecharam as fronteiras. O Brasil fechou as fronteiras. A própria Palestina, então sob o domínio britânico, estava vedada à entrada de mais judeus pela pressão dos árabes. Então, pessoas como Karl Kraus e todos os que estavam ali na época vendo a coisa acontecer e tentaram, na medida do possível, gritar “corre macacada que o bicho vai pegar”, acabaram sendo ignorados, tragicamente ignorados. É uma narrativa que ajuda a auto-abolver o povo alemão, a de que era tudo escondido, que ninguém sabia… E não é verdade. Havia quase 1 milhão de judeus na Alemanha na época, que eram seu vizinho, o dono da lojinha onde você comprava linha, o professor da Faculdade, o médico do seu filho; e de repente os caras… somem no ar. Deixam a casa, o colsultório, a loja, a fábrica e… ninguém se questionou onde eles foram parar. Por mais que existisse todo um sistema repressivo, ditatorial que coibia a livre manifestação na Alemanha Nazista, mas as pessoas observam, né? Têm olhos para ver, ouvidos de ouvir; e onde foram para os judeus de repente? Todos sumiram. Então essa normatização da perseguição que aconteceu na Alemanha, ela nem sequer é inédita. Porque isso aconteceu ao longo de toda a história européia dos últimos dois mil anos. Os judeus sumiam de repente. Eles voltavam, se tornavam parte da sociedade, de repente acontecia alguma coisa, chegava um boato de que um judeu tinha sacrificado uma criança cristã na páscoa; vinha uma turma, linchava todo mundo, queimava, roubava, estuprava, sumiam os judeus… Sumiram os judeus, vamos continuar a nossa vida, né? São eles, não somos nós. Aquele famoso poema do Martin Niemöller “Um dia vieram e levaram meu vizinho judeu. Mas, como eu não era judeu, eu nã me importei”. Essa é a posição do ocidente em todos esses casos, sempre. E eu acho que é por aí que a gente tem que começar a contestar esse tipo de coisa. Porque o judeu é discriminado por ser o arquétipo do diferente. E tudo o que é diferente atrai algum tipo de idealização, positiva ou negativa. A postura que as pessoas têm em relação ao judeu nunca é de neutralidade, ou é filo-semita, ou é antissemita. Hoje, no meio evangélico, você tem a questão do filo-semitismo. Chega a ser meio constrangedor porque você fala que é judeu e… “Ah, judeu, meu deus o povo escolhido, ah!”, aquela coisa que você diz “ah, legal, tá bom, mas…” Que é uma idealização, né? Porque você começa a ser observado como uma anjo, um santo, alguém sagrado, e não é, você é uma pessoa como outra qualquer. E para você virar a chave da idealização, para o filo-semita virar antissemita é dois palitos. Conheço vários casos de filosemitas que se tornaram antissemitas. Inclusive dentro do meio da direita. Porque eles têm essa visão idealizada do judeu: judeu é um santo, etc. Aí eles descobrem que em Israel tem parada gay. “Ah…. Pecadores! A Torá condena vocês! Vocês não aprenderam nada com o holocausto!” Entendeu? Aí o fato de Israel ser apenas mais um país onde tem parada gay… “Ah, cristão não pode ser sionista porque Israel tem parada gay! Porque Israel reconhece casamento Gay! Tem aborto liberado!” Quer dizer… até na Itália tem, na porta do Vaticano tem, mas só Israel não pode. Parece que Israel que criou a parada gay, que Israel que criou o aborto legal. Então o filo vira anti num piscar de olhos.


Novidades sobre o curso de Victor Grinbaum sobre a história do anti-semitismo podem ser acompanhadas no Facebook. Para conecer melhor o trabalho que o escritor e jornalista tem feito pelo Brasil, confira também esta recente entrevista ao Canal Menorah na TV:

fim

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