Durval Della Torre foi um dos 25 mil brasileiros da FEB em ação na Segunda Guerra. A seguir, um compacto de sua história em defesa da segurança mundial

Rio e Janeiro, segunda-feira, 18 de setembro de 1944

“Creio que Deus é eterno e que a alma é imortal. E se um dia voltar para cidade em que nasci, e alguém perguntar por onde andei pelos anos de 1944 e 1945, poderei apresentar meu cartão de visita com os seguintes dizeres: eu marchei com as tropas expedicionárias brasileiras…” Della Torre, Soldado 184

Palavras escritas na guerra…


extraídas do diário do pracinha Durval Della Torre – mais especificamente, soldado 184 – as palavras acima resumem o espírito da Força Expedicionária Brasileira antes de partir rumo à região de Bolonha, em uma das três bases usadas por nossos 25 mil soldados durante permanência na Itália, entre setembro de 1944 e maio de 1945.

A exemplo dos Estados Unidos, a entrada brasileira no teatro de guerra ocorrera de forma tardia em comparação aos países já em ação na Europa, como o Reino Unido. A “cobra começaria a fumar” após o ataque das forças do Eixo (lideradas pelos alemães) a diversas embarcações brasileiras no Atlântico. Somente o Cairu sofrera 45 baixas.

Antes neutro – e mais afinado à ideologia de Benito Mussolini – o então presidente, Getúlio Vargas, comunicou ao mandatário norte-americano, Franklin Delano Roosevelt, o apoio brasileiro aos aliados. O que era apenas política se tornou oficial com o decreto presidencial de 25 de setembro de 1942.

Nas tardes paulistanas, memórias de um soldado brasileiro

Soldado Della Torre: o nº ‘184 da Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária

Meu avô – no caso, o protagonista desse perfil – nasceu em uma pequena cidade da região de Campinas chamada Louveira, em 28 de julho de 1919. Perdi a conta das vezes que o amolava em sua sala na Praça Tenório Aguiar, em Santana (Zona norte de São Paulo), para que ele me contasse histórias míticas da Segunda Guerra. Paciente, ele ia ao seu quarto com armários de cor marrom, e apanhava um álbum de fotos e seu diário, redigido com letras pequenas, e, segundo ele, à luz baixa, para não atrair os inimigos.

Foram histórias mais tristes do que felizes. Porém, entre os positivos, me recordo de quando cantávamos a Canção da Artilharia do Exército Brasileiro. Era uma distração para o pelotão em meio à troca de tiros com os homens de Mussolini e Hitler.

Me recordo do primeiro verso da canção, que repetíamos incansávelmente:

Eu sou a poderosa Artilharia

Que na luta se impõe pela metralha,

A missão das outras armas auxilia

E prepara o campo de batalha

Com seus tiros de tempo e percussão

As fileiras inimigas levo a morte e a confusão

Enquanto conversávamos, eu fazia muitas perguntas sobre a ação dos chamados Pracinhas na Itália. “Vi muitos amigos serem atingidos no campo de batalha. Mas o pior era ver crianças e mulheres sendo dominadas pelos nazistas” – recordava, em tom amargo. Meu avô nunca reclamou de ter lutado na Segunda Guerra Mundial, mas não escondia sua dor: “Se pudesse esquecia tudo o que aconteceu na Itália” – certa vez, desabafou.

Ao lado dos Estados Unidos e do general Mark W. Clark

Claro que os momentos de boas lembranças também apareciam em nossos longos encontros. Quando o visitava, ele adorava mencionar um nome: Mark W. Clark (1896-1984). Brincando com sua falta de habilidade de falar inglês, meu avô sempre dizia que Clark o ensinara a falar algumas palavras:

“Milk and Coffee – algo que a gente bebia muito na Itália”, brincava.

Mark Wayne Clark foi um militar de destaque, não apenas na Segunda Guerra. Filho de um coronel, Clark iniciou suas atividades no exército em West Point, Nova York, em 1917. Além da Campanha na Itália, o nativo de Madison Barracks atuou na 1º Guerra Mundial e foi comandante das tropas das Nações Unidas na Coreia de 1952 a 1953.

General Mark W. Clark (centro) : inspeção nas trincheiras brasileiras

Apesar da cara fechada nas fotos oficiais, como bom militar, ele provara ser bastante simpático com os soldados brasileiros, os ajudando nas missões pela Itália. Ao lado dos Pracinhas, Clark – o mais jovem americano a se tornar general de duas estrelas, aos 46 anos, comandando o 5º Exército – liderou os Estados Unidos ao lado dos aliados em Monte Cassino, chegando ao país logo após a base de Pearl Harbor ser atacada de forma impiedosa pelos japoneses.

Embora não tenha participado diretamente da batalha de Monte Castelo, onde a FEB atendia às ordens do general gaúcho – e neto de um combatente da revolução Farroupilha, João Batista Mascarenhas de Morais (1883-1968), Clark encontraria com meu avô em cerimônia de condecoração de oficiais brasileiros na Itália. No final da guerra, o próprio Mark W. Clark receberia do Exército Brasileiro a Ordem de Cruzeiro do Sul.

Fim da Segunda Guerra – e o retorno ao Brasil

Após Monte Castello, a FEB ainda permaneceria mais três meses em apoio aos aliados contra as forças nazistas. A batalha na região montanhosa dos Apeninos não foi para principiantes. Antes da tomada do ponto estratégico, nossos soldados falharam cinco vezes. No total, 395 brasileiros perderam suas vidas em defesa da segurança nacional e mundial.

Por sorte, competência – e muita fé – meu avô sobreviveu aos males da guerra (Afinal, não estaria escrevendo esse texto, em caso contrário). Apesar das histórias de sangue na neve, o final feliz chegaria neste filme real. Mas não fora essa a primeira impressão da família de Durval Della Torre.

Meu avô deixara São Paulo rumo ao antigo Mato Grosso, para se unir aos seus amigos Pracinhas no Batalhão de Engenharia de Combate de Aquidauana em 1942. Após os treinamentos, seu grupo partiria do Rio de Janeiro para a Itália, em missões que provariam ser vitoriosas. Com o final dos conflitos, ele ainda seguiria para Roma, onde conheceria o Vaticano e o Papa Pio XII. Sua estadia pela Europa se prolongaria por mais dois anos.

Enquanto um exausto Durval curtia um pouco as férias na Velha Bota, a angústia perdurava na pequena Louveira. Me lembro dessa história como se ele me contasse agora, em seu sofá branco favorito do predinho em frente à biblioteca Nuto Sant’Anna:

“Não havia comunicação como hoje, apenas por cartas.. E fiquei mais quase dois anos depois do fim da guerra. Ao chegar na minha cidade, todo mundo levou um grande susto, pois uma falsa notícia havia anunciado minha morte” – Durval Della Torre

 Em 7 de setembro de 1990, aos 69 anos, Durval Della Torre, recebeu uma medalha do Exército Brasileiro, em cerimônia organizada em parceria com a prefeitura de sua cidade-natal, Louveira. No belo desfile, cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras também seriam condecorados.

Tive a sorte de comparecer ao evento, próximo à estação ferroviária. Me lembro de deixar o quarto do hotel e ouvir – por que não, de forma mágica – uma música da Legião Urbana chamada “Monte Castelo”. Outra lembrança (registrada em fotos) são raras imagens da minha bisavó, Rachel Rebustini Della Torre, então com mais de 90 anos.

O adeus ao herói

Em 25 de julho de 2003, a três dias de completar 84 anos, Durval Della Torre nos deixou. O soldado estava fora de combate. Foi um dos piores dias da minha vida nesse Planeta. Ele deixou para mim alguns itens, entre eles um relógio de pulso e um par de luvas (foto) – que permanecem intactos, como se tivesse sido confeccionado em 2020. As mesmas luvas que ele usou durante a tomada de Monte Castelo, há exatos 75 anos

Quepe e luvas do soldado invernal

Meu avô, apesar de odiar a guerra, disse a mim, mais de uma vez, que adoraria ver um livro sobre suas memórias na Itália, um dia, publicado. Isso ainda não aconteceu. Por enquanto, você fica com parte de sua gloriosa história, como homem e soldado da FEB.

*****

Posfácio

Ao lado de meu amigo em 1990

No mesmo ano de seu falecimento, tentei contatar a prefeitura de Louveira para tentar uma homenagem formal ao herói de guerra, filho da cidade. Minha intenção era a de que as autoridades batizassem uma rua ou praça do município com o nome de Durval Della Torre. A batalha não foi tão árdua como Monte Castelo. Porém, a vitória foi apenas parcial. O máximo que consegui foi uma sessão solene na câmara.

Revista Esmeril - 2020 - Todos os direitos reservados

2 Comments

  1. Maravilhoso depoimento Cláudio. Textos como este e muitos outros, bem como livros e depoimentos vários, são como tijolinhos que erguerão o grande edifício da História e da Cultura brasileira para as gerações futuras, que a psicopatia esquerdista quase destruiu. Inúmeras vezes ouvi entre rodas de amigos, gracejos, piadas de mal gosto ou comentários desairosos vindos dessas mentes doentias, sobre a nossa participação nesse conflito infame que graças a Deus impediu o avanço do comunismo aniquilador em nosso hemisfério. Mesmo assim podemos perceber que a luta ainda será grande, porém não tenhamos dúvidas que sairemos vitoriosos.
    A afirmação do seu avô de que “Deus é eterno e que a alma é imortal” além de emblemática e Verdadeira, representa uma realidade que constantemente permeia e invade as nossas vidas por ser uma representação absoluta das Leis da Natureza. Essa e outras verdades já são ampla e racionalmente abordadas através de uma doutrina científica, filosófica e de consequências morais que apesar de ainda ser pouco conhecida e muitas vezes incompreendida, representa uma grande síntese que certamente causará um grande despertar na humanidade do futuro.
    Não tenha dúvidas que o seu avô está mais vivo do que qualquer um de nós e certamente poderá estar em constantemente em comunicação com você e outros seres amados. Para tanto não terá necessidade de “apresentar o cartão de visita” de que falou, desde que você(s) se mantenha(m) aberto(s) e use(m) o poder do seu/vossos pensamento(s) permitindo o estabelecimento dessa comunicação. Quiçá poderíamos ter em breve um maravilhoso livro para abrilhantar ainda mais as páginas da fabulosa Revista Esmeril. (Antonio Leite, de Nova Iorque)

  2. Parabéns por manter viva a memória de verdadeiros heróis há tempos tão esquecidos pela Pátria ingrata.

    Parabéns por demonstrar o amor e o respeito a um homem que deu sangue, suor e lágrimas por um Bem maior e mundial.

    Parabéns por louvar a memória de seu avô, num país onde os jovens em geral não nutrem o menor respeito pelos mais velhos.

    Parabéns pelo texto e por descortinar a nós todos, memórias íntimas de familia.

    Esses foram sim os verdadeiros heróis que poucos lembram – mas que outros, que nunca esquecem, sempre reverenciarão.

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